SAÚDE

Opinião | A falácia do "novo tempo" em Petrolina

O concurso público anunciado nessa semana na cidade gerou polêmica com a desvalorização dos profissionais de saúde

Brasil de Fato | Petrolina (PE)

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A cidade, que conta com mais de 100 equipes de saúde, disponibilizou poucas vagas em relação a demanda real do município / Reprodução

Na última semana, um concurso muito esperado pelos trabalhadores da saúde de Petrolina e região acabou gerando polêmica nas redes sociais do prefeito da cidade, onde o edital foi divulgado, e uma grande reação de profissionais, estudantes e da comunidade em geral contrária aos termos do edital tomou conta das redes.

O número de vagas, os salários baixos e a desvalorização da qualificação profissional para o concurso são alguns dos principais pontos debatidos nas redes.

O município que conta, segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde do Ministério da Saúde, com mais de 100 equipes de saúde (aqui incluídas equipes de Saúde da Família, Núcleos de Apoio à Saúde da Família, equipes de Atenção Domiciliar, Consultório na Rua e equipes dos Centros de Atenção Psicossocial), definiu inexplicavelmente em seu concurso um número de vagas muito abaixo das reais necessidades e quantidade de serviços.

Para exemplificar, para o cargo de enfermeira/o de Saúde da Família há somente uma vaga, sendo que no município há 90 equipes de Saúde da Família, que em sua maioria têm enfermeiras contratadas. O mesmo acontece em outras categorias, como psicologia, fisioterapia e fonoaudiologia, com vagas aquém da quantidade de equipes que essas profissões compõem no município. 

É certo que a falta de profissionais e o subfinanciamento são alguns dos gargalos que o SUS enfrenta. Mas, é importante destacar que o SUS também é construído através de valorização e qualificação profissional. E, lamentavelmente, estes são dois aspectos que nem de longe são considerados no referido concurso: com salários abaixo dos pisos e convenções de algumas categorias profissionais, sem plano de carreira e com etapa única de prova objetiva, sem prova de títulos, o processo não se propõe a atrair, tampouco fixar, profissionais qualificados para atender às necessidades de saúde do povo de Petrolina.

Infelizmente, de forma intransigente e desrespeitosa à população que se manifestou indignada, o prefeito Miguel Coelho (PSB) divulgou um vídeo resposta em sua rede social, no qual trata as críticas feitas ao certame como "besteira" e diz que quem fizer o concurso "sabe onde 'tá' entrando", mesmo as condições de trabalho e de valorização profissional sendo tão aquém do estabelecido nos pisos e convenções profissionais e do merecido para quem cuida de vidas.

Ao contrário do que é colocado pelo prefeito, a comunidade petrolinense e os trabalhadores da saúde merecem sim valorização profissional e respostas para as críticas e questionamentos colocados. Uma política de desvalorização do servidor, autoritária e sem diálogo com o povo não combina com quem diz fazer um "novo tempo".

 

*Jerônimo Vaz é psicólogo pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e residente em Saúde da Família com ênfase em Saúde do Campo pela Universidade de Pernambuco.

Edição: Monyse Ravenna