Diversidade

Coluna Ciências | É correto falar em raças humanas?

Há mais diversidade genética em um grupo de 55 chimpanzés do que em toda a humanidade

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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A raiz do racismo é econômica, política e social, e não biológica. / Reprodução

Todo ano é a mesma coisa. Basta chegar o dia da consciência negra para ouvir o clichê de que “precisamos é de um dia da consciência humana”. E argumentos biológicos para justificar que “somos todos iguais”. Tal discurso ingênuo joga lenha na potente fogueira do racismo brasileiro.

A biologia usa o termo “raça” como uma categoria de classificação dos seres. A vida é dividida em reinos, classes, espécies… Raça, para os biólogos, é um subnível de classificação, também chamado de subespécie. Por exemplo, cães são uma subespécie de lobos.

Para falar em raças biológicas é preciso haver uma diferença genética significativa entre grupos dentro de uma mesma espécie. Nem tão grande que impeça o cruzamento entre eles, e nem tão pequena que não cause grandes diferenças físicas.

Nos humanos não há variação genética que justifique o uso do conceito biológico de raça. Geneticamente, somos uma das espécies mais uniformes do planeta. Isso se deve ao fato de que, em algum momento da nossa história evolutiva, quase fomos extintos. Isso mesmo! Há cerca de 70 mil anos, uma grande erupção do vulcão Toba, na Indonésia, nos reduziu a menos de 10 mil indivíduos. Ou seja, os mais de 7 bilhões de humanos vivos hoje descendem desse pequeno grupo que encheria um estádio como o Mineirinho.

Graças a esse dramático episódio é possível achar mais semelhanças genéticas entre uma chinesa e um tupi-guarani do que entre, por exemplo, dois escoceses. Veja bem, há mais diversidade em um grupo de 55 chimpanzés do que em toda a população humana!

As diferenças de cor, traços faciais e textura do cabelo que geralmente diferenciam as pessoas em raças surgem de uma ínfima porção de nosso DNA. E mesmo sendo tão próximos e parecidos, isso não foi suficiente para impedir que europeus escravizassem durante séculos povos africanos. Nem para evitar o surgimento do nazismo. Ou para impedir que israelenses levassem à beira da extinção o povo palestino.

Usar o termo “raça” e consequentemente criar um dia da consciência negra se justificam, pois, o conceito aqui não é biológico, e sim social. Se pra biologia não faz sentido falar em raças humanas, para as ciências sociais faz. E muito. Pois a raiz do racismo é econômica, política e social, e não biológica.

Enquanto nossas enormes desigualdades sociais persistirem, enquanto nossas elites considerarem alguns mais humanos que outros, seguirá necessário lembrar que, infelizmente, ainda somos muito diferentes.

Um abraço e até a próxima!

*Renan Santos é professor de biologia da rede estadual de Minas Gerais.

Edição: Joana Tavares