Bolsonaro

Boletim Ponto: Yes, nós temos bananas

Newsletter em parceria com o Brasil de Fato reúne fontes de leitura alternativas à imprensa corporativa

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Boletim semanal traz indicações de leituras e informações selecionadas para o leitor do Brasil de Fato / Divulgação

Apresentamos o boletim semanal Ponto, projeto em parceria com o Brasil de Fato. Nossa intenção é trazer a você um resumo das principais notícias da semana, que muitas vezes se perdem em meio ao caos de informações, além de análises, indicações de leituras e outros conteúdos que, na correria do dia a dia, você não conseguiu acompanhar. Assim, você receberá todas as sextas, em seu e-mail, um guia de informações para que você não se perca nesta crise – política, econômica, social e informativa. 

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Um alinhamento constrangedor e inconsequente aos Estados Unidos. Um gabinete formado majoritariamente por militares. Um presidente eleito que delega responsabilidades para grupos de pressão e já sofre com reclamações de aliados. Declarações confusas, propositais ou não, anunciam os novos tempos. Assim vamos entrando no último mês antes do governo Bolsonaro.

Acompanhem com a gente.

Brasil acima de tudo? A visita do assessor de segurança de Trump, John Bolton, serviu de justificativa para que o próximo presidente reafirmasse suas juras de amor ao governo norte-americano. Bolsonaro repetiu mais uma vez o gesto de prestar continência no encontro. Bolton já foi embaixador temporário dos EUA na ONU, ocupou cargos nos últimos três governos republicanos desde Reagan e é ligado à Associação Nacional do Rifle, principal grupo de lobby pró-armas dos EUA. Na mesma semana, Eduardo Bolsonaro iniciou um périplo pelos Estados Unidos, ostentando um boné da campanha de Trump, onde participou do aniversário do ideólogo da ultradireita Steve Bannon, encontrou-se com líderes da ala conservadora dos Republicanos e prometeu a mudança da embaixada brasileira em Israel. Aparentemente, a desistência do Brasil em sediar a Conferência Internacional sobre Mudança Climática (que o novo chanceler diz que não existe), já seria resultado desta política e já provocou uma reação do presidente da França.

Na prática, os gestos e o discurso de alinhamento do Brasil aos Estados Unidos representam uma guinada na política diplomática brasileira, marcada pela autonomia e pelo não-alinhamento, mesmo na ditadura militar em plena guerra fria. A aproximação não é inédita, mas a subordinação irrestrista, sim. Para o professor Felipe Loureiro (USP), o namoro só terá resultados se a economia crescer e se os EUA tiverem algo a oferecer. A nova política externa - que parece não contabilizar os estragos na relação com países árabes e com a China - tem causado constrangimentos internos no Itamaraty. Uma mensagem apócrifa circula em grupos de whatsapp dos diplomatas comparando Ernesto Araújo com um pastor, critica a falta de preparo e a ausência de estratégia do novo chanceler.

Militares no poder. A indicação de Carlos Alberto Cruz para a Secretaria de Governo faz com que Bolsonaro tenha quatro militares em cargos próximos ao gabinete da presidência. Além do autoritarismo, a escolha representa outra situação: a incapacidade de Bolsonaro liderar qualquer coisa. "O que ele realmente está fazendo é delegar aos grupos de interesses a sua tarefa de articular e organizar o seu poder", avalia um professor da Unicamp em entrevista à Rede Brasil Atual. Nesta sexta (30), mais um militar foi indicado para um ministério: desta vez o de Minas e Energia. Sobre isso, aliás, vale ler este artigo no Intercept, que alerta: o tal novo jeito de governar tem muito de confusão. A bancada evangélica seria um dos setores já descontentes com a distribuição de boquinhas.

Reforma da Previdência. Nos EUA, Eduardo Bolsonaro disse que o novo governo “talvez não consiga” aprovar a Reforma da Previdência, durante um convescote com investidores. Na Rede Brasil Atual, investidores entrevistados mostraram que têm muito interesse tanto na Reforma da Previdência quando no corte de investimentos públicos. Mas este é mais um caso muito claro de como funciona o novo governo: depois da declaração do filho, Bolsonaro disse que vai apresentar uma proposta de reforma menos agressiva ao trabalhador. Segue o mantra: a imprensa deve cobrir mais o que o governo faz e menos o que o governo diz que vai fazer.

RADAR

Tudo junto e separado. Enquanto o novo governo é formado, a esquerda ainda se organiza para como fará oposição no congresso. O bloco já formado por PDT-PCdoB-PSB continua dando sinais de que não quer a companhia do PT. “Por que incluiria o PT? O PT é o maior partido da Câmara, não precisa de formar bloco com ninguém", disse o deputado Orlando Silva (PCdoB). Já o presidente do PSB Carlos Siqueira explica que a formação de um bloco sem PT busca mais espaço nas negociações de cargos nas comissões e mesas do Congresso. Também por conta disso, Guilherme Boulos (PSOL), minimizou a polêmica: “Existe uma dinâmica própria do Congresso. Uma coisa é a articulação parlamentar. Estamos preocupados em construir algo mais amplo”. Para Boulos, a oposição a Bolsonaro "não pode ter dono, hegemonismo nem veto". Em entrevista à Folha, Fernando Haddad repete que a estratégia do PT deverá atuar em duas frentes: uma de defesa de direitos sociais, como o SUS, e outra, mais ampla, em defesa dos direitos civis. Ainda assim, Ciro Gomes também não perdeu a oportunidade de alfinetar os petistas em entrevista para o Valor: “enquanto a grande tese for o Lula Livre e ir a Curitiba perguntar o que fazer na semana, eles vão definhar”. O destino de Lula é preocupação do artigo de Marcio Tenenbaum para a Carta Capital, temendo que o partido abandone seu fundador. Por outro lado, enquanto Edson Fachin determinou que mais um pedido de habeas corpus do ex-presidente seja julgado pela Segunda Turma do STF, a defesa de Lula enfrenta as mesmas dificuldades anteriores, agora com doações ao Instituto Lula: o ex-presidente não teve oportunidade de prestar qualquer esclarecimento sobre a versão da denúncia antes do espetáculo do MP, diz o advogado Cristiano Zanin.

Colapso na saúde.  A Carta Capital teme pelo futuro do SUS com a indicação do novo ministro da Saúde e o desmonte do Mais Médicos. A reportagem escutou profissionais e elencou dados preocupantes sobre a saúde pública. Sem o Mais Médicos, 2,8 mil municípios ficarão sem atenção básica de saúde. Pelo Facebook, Bolsonaro alardeou que quase 100% das vagas antes ocupadas pelos cubanos já haviam sido preenchidas, uma tática que veremos frequentemente nos próximos anos. Porque, na vida real, fora das redes sociais, a história não é bem assim: segundo o El País, só 17% do vácuo já foi preenchido por 224 brasileiros. Além disso, apenas 21% das cidades escolhidas pelos médicos brasileiros são áreas de extrema pobreza e quase 30% dos locais são em capitais ou regiões metropolitanas. Segundo o histórico do programa, a fase decisiva é após a apresentação para vaga, pois desistências são permitidas. Até agora, menos de 10% dos aprovados no novo edital se apresentaram para trabalhar. Além disso, levantamento feito pelas secretarias municipais de saúde concluiu que mais da metade dos médicos que substituíram os cubanos já trabalhavam no SUS, ou seja, deixaram um posto de saúde onde já eram servidores municipais para outro onde passam a ser integrantes do programa federal. Em outras palavras, vestiram um santo para desvestir outro.

Pré-Sal. O megaleilão de petróleo do Pré-sal colocou a equipe de transição, o governo Michel Temer e o congresso em rota de colisão. Paulo Guedes e o presidente do Senado Eunício Oliveira defendem que 20% do valor arrecadado com o leilão sejam repassados para Estados e municípios. O governo Temer é contra. Por outro lado, Eunício defende a concessão de benefícios tributários para empresas, proposta vetada por Guedes.

RETROCESSO DIÁRIO

Parou. O processo de redução da desigualdade no Brasil estancou pela primeira vez em 15 anos. Em consequência, o Brasil passou de décimo para nono país mais desigual do mundo, segundo pesquisa da Oxfam. O estudo considerou os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio. Reportagem do Brasil de Fato aponta que as mulheres e a população negra foram as mais afetadas pelo aumento da desigualdade. Falando em desigualdade: baseado no Mapa da Desigualdade de 2018 sobre a cidade de São Paulo, o El País contou a história de duas meninas que, separadas por apenas dez quilômetros, têm perspectivas de vida totalmente diferentes.

Devastada. O desmatamento na Amazônia aumentou 13,7% entre agosto de 2017 e julho deste ano. No total, 7.900 km² foram devastados, o que corresponde à maior área de floresta derrubada em um ano na última década. Pará, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas, nesta ordem, foram os campeões em desmatamento.

Estado mínimo. Entre 2000 e 2017, a média anual do investimento público no Brasil foi de apenas 1,92% do PIB, a segunda mais baixa entre um grupo de 42 países, de acordo com levantamento da Fundação Getulio Vargas. Apenas a Costa Rica investiu menos que o governo brasileiro no período.

VOCÊ VIU?

Inquisição. O Ministério Público mineiro abriu ação cível contra o tradicional colégio Santo Agostinho, acusado de promover “ideologia de gênero”. Segundo os promotores, os direitos humanos são utilizados pelo colégio para introduzir ideologias. A revista Época, aliás, traz um relato de como foi o encontro de procuradores a favor do Escola Sem Partido. Uma palavra: trevas! No Boa Leitura, trazemos mais artigos sobre a relação entre o escola sem partido e a questão de gênero. Na contramão, mais de 60 entidades lançaram o Manual de Defesa Contra a Censura nas Escolas, com estratégias pedagógicas e jurídicas para combater a perseguições de docentes e instituições.

Inquisidor. O deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), conhecido por ter destruído a placa com o nome da vereadora Marielle Franco, agora atacou em um vídeo a diretora do Colégio Estadual Dom Pedro II, em Petrópolis, que teria impedido sua entrada na escola. "Iremos criminalizar e punir qualquer professor e diretor que esteja doutrinando adolescentes em escolas com ideologia socialista comunista”, ameaçou o deputado.

Impunidade. A 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de SP manteve a anulação do julgamento do massacre do Carandiru e convocou um novo júri, atendendo ao pedido da defesa dos policiais. A condenação poderá ser anulada. Um dos desembargadores, Ivan Sartori, defendeu a absolvição dos policiais e acusou a imprensa e grupos de direitos humanos de estarem exagerando sobre o que ocorreu no Carandiru.

Impunidade (2). O ministro do STF Alexandre Moraes suspendeu o processo contra o general reformado do Exército e médico Ricardo Agnese Fayad, acusado de praticar tortura durante a ditadura militar. Segundo o STF, o processo seria incompatível com a Lei de Anistia. O processo ficará suspenso até o julgamento de mérito do processo relativo ao desaparecimento de Rubens Paiva, ainda sem data para ir ao plenário.

Que papo é esse? Bolsonaro pai e um de seus filhos (sempre é difícil saber quem é quem) vieram nesta semana com o chamado papo estranho: “Minha morte interessa a muita gente”, o que incluiria pessoas próximas. O Estadão aponta que o recado tem a ver com os aliadosque estão se engalfinhando por cargos.

É BOATO

Cuba. O Mais Médicos é a prova de que a fábrica de fake news não foi desligada. O Valor mostra que Cuba possui 20 faculdades de medicinas e cerca de 50 mil estudantes, ao contrário da fake news que diz que o país não conseguiria ter formado seis mil integrantes do Mais Médicos.

BOA LEITURA

Teocracia de farda. A antropóloga Débora Diniz analisa o pensamento conservador e define o próximo governo como um “populismo teocrático que retorna vestido de farda”. Para Diniz, o ranço dos privilegiados com direitos sociais esteve apenas escondida por um período.

Ainda Chicago Boys. Na edição passada já tratamos dos integrantes do governo oriundos da Escola de Chicago. Para aprofundar, selecionamos mais alguns textos: o Estadão é mais preciso na definição e chama os liberais de “velha escola” da turma de Chicago. O Nexo recontou a trajetória da Faculdade de Chicago e entrevistou o economista Pedro Garcia Duarte para destrinchar a corrente econômica. E a Carta Capital analisa o que o novo encontro entre militares e Chicagos Boys - o outro foi o Chile de Pinochet - pode resultar para a economia brasileira.

Investimento. A propósito, duas reportagens do The Intercept mostram como o superministro Paulo Guedes deverá ganhar muito dinheiro no governo, garantindo interesses dos seus investimentos financeiros anteriores. Tanto com a política econômica, quanto na área da educação.

Sem mordaça. A historiadora Lilia Moritz Schwarcz demonstra como por trás da Escola sem Partido está a discussão sobre o estado laico no Brasil. A pesquisadora Fernanda Moura compartilha a mesma opinião na Carta Capital. Ainda no Nexo, o portal elenca questões mais relevantes que estão no gargalo da educação brasileira.

Como nascem os monstros. O BuzzFeed acompanhou o curso de formação do MBL, onde os jovens aprenderam que “é preciso provocar a esquerda, até que ela responda”. Teve até ainda o dono da Havan defendendo militarismo. Sobre o mesmo tema, o Intercept entrevistou um dos parceiros de Steve Bannon na tarefa de semear a palavra da extrema direita pelo mundo, e ele fala das relações com o Brasil.

Vítima. The Intercept relata a história do cobrador Luiz Alves de Lima, preso e torturado injustamente depois de ter sido alvo de um teatro político pelo deputado Magno Malta.

Snipers. A Vice ouviu especialistas em segurança para provar que a ideia do governador do RJ Wilson Witzel de usar snipers não tem nenhuma eficácia.

Menos médicos. Conheça Içara (SC), cidade em que 82% dos eleitores votaram em Bolsonaro e que acabam de perder nove médicos cubanos com o fim da parceria do Mais Médicos.

Inócuo. No Brasil de Fato, Jessé de Souza afirma que a Lava Jato sempre funcionou com a premissa equivocada de que o Estado é o principal foco de corrupção do país. A relação com os agentes privados de corrupção é prova da ineficiência da operação para o combate à corrupção.

Terror. Artigo do Juiz Marcelo Semer para a revista Cult demonstra porque além da perseguição aos movimentos populares, alterar a lei antiterrorismo é uma provocação.

Guru. Não é exatamente uma “boa” leitura, mas esta entrevista de Olavo de Carvalho para a Folha mostra toda a profundidade do pensamento (?) do ideólogo do governo Bolsonaro.

Estética. Não é apenas na política. A Vice analisa como a estética das redes sociais de Bolsonaro também é definida pela tosquice.

Web. A internet se tornou um lugar fechado e monopolista, com efeito negativo sobre o bem-estar emocional, na política, no mundo. Artigo de Delia Rodriguez no El País sugere formas de corrigir o rumo.

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Edição: Brasil de Fato