Entrevista

As várias primaveras de um combatente

Aos 84 anos, o peruano Hugo Blanco segue firme na luta; agora em defesa da espécie humana

Brasil de Fato | Lima (Peru)

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"Me dá muita pena de saber que meus netos ficarão sem água", afirma Hugo Blanco que agora luta "pela manutenção da espécie humana" / Fotos: Viviana Roja Flores

O Parque de Exposição de Lima vive cheio. No centro da capital peruana, diariamente, o local recebe uma diversidade de pessoas em quantidade expressiva. São esportistas, músicos, vendedores ambulantes e jovens enamorados espalhados pelo gramado, além de uma programação cultural extensa. 

Localizado na avenida Wilson, uma das mais movimentadas da cidade, tem na sua margem um trânsito, abarrotado de carros asiáticos, que faz uma barulheira infernal e se emaranha com as vozes dos transeuntes de sua calçada. 

Nesse cenário, numa tarde de novembro, em uma atividade promovida pelas organizações peruanas para debater o aquecimento global, lá está uma barraca com um senhor vendendo livros e jornais.   

Alto, magro, barbas longas, cabelos grisalhos resguardados por um grande chapéu sombreiro e uma coluna circunflexa pela idade. Essa é a aparência do corpo expressado de batalhas, mas não fatigado, do jovem de 84 anos completados em 15 novembro. Ele  marcou a organização dos camponeses pela reforma agrária no século XX , não só no Peru, mas em toda América Latina.

Se trata de Hugo Blanco Galdos, que aceita falar com a reportagem do Brasil de Fato entre a venda de um jornal e outro (Lucha Indígena- editado por ele). O que parecia ser uma conversa rápida durou horas retratando as lembranças desse combatente que nunca parou de lutar.

“Hoje vivo em Lima, porque daqui viajo todo Peru para ajudar meus companheiros nas lutas contra a destruição do meio ambiente e da espécie humana”, diz com um sorriso esperançoso de um militante iniciante. 

Nas histórias de prisão, da reforma agrária que ficou apelidada de “reforma agrária de Hugo Blanco”, da pena de morte ao qual foi sentenciado pelo judiciário peruano e conseguiu escapar, sobram nuances e detalhes dos amigos, inimigos, lugares por onde passou e o carinho incomensurável por sua mãe e pela humanidade sem a barbárie. 

Confira abaixo: 

Brasil De Fato - O que foi a reforma agrária de Hugo Blanco?

Hugo Blanco -  Eu participei da luta pela primeira reforma agrária peruana organizando os camponeses no início dos anos 1960 na zona semitropical do departamento de Cusco, mais especificamente na província chamada la Convención e no distrito de Lares ao sul do país, onde se cultiva café, chá e cacau.

Alguns diziam que era a reforma agrária de Huglo Blanco, mas não foi a reforma agrária de Hugo Blanco, porque quando ela aconteceu eu já estava preso, foi o conjunto do campesinato em luta que conquistou a terra. 

O sistema de casta e de classes trata de individualizar para o bem ou para o mal para personalizar processos de lutas coletivas, massivas. 

Porque se chama a primeira reforma agrária do Peru? 

É preciso dizer que a primeira reforma agrária no Peru foi feita pela lei do camponês e não pela lei do Estado. 

Com o avanço do capitalismo nos idos da década de 1950 em direção a parte da selva peruana, o governo começou a dar concessão e vender terras para grandes latifundiários para se instalarem nessas regiões. 

As terras eram vendidas muito barato aos fazendeiros. As autoridades peruanas diziam que era uma região desabitada, não levando em consideração a população indígena que vivia nessa zona. 

Como os fazendeiros não iam trabalhar na terra e os índios nativos da selva não estavam acostumados com patrão, se iniciou, planejada pelo Estado, uma grande migração de camponeses da serra peruana para trabalhar nessas fazendas. 

Esses camponeses, num primeiro momento, não se acostumaram com a culinária, clima, costumes e doenças da selva, e, por isso, muitos deles morreram.

Os que sobreviveram foram submetidos a uma superexploração do trabalho nas fazendas, além da violência policial constante contra eles e suas mulheres, que eram violadas.

Nessas fazendas, o camponês que migrou da serra para selva vivia num sistema semi-feudal no qual ele trabalhava na fazenda para o patrão em troca de moradia e um pedaço de terra para seu cultivo. 

Diante de tanta violência sofrida e exploração no trabalho, esses camponeses começaram a se organizar em sindicatos por fazenda, reclamando junto ao Ministério do Trabalho, que acionou diversas vezes os latifundiários para criarem pactos de respeito ao campesinato.

Muitas vezes, porém, esses acordos eram negados pelos latifundiários, que diziam não discutir com índios. Paralelamente a isso, a polícia começou a prender os dirigentes desses sindicatos que surgiram.

Até que os camponeses organizaram oito sindicatos pela Federação Provincial de Camponeses de Convenção e Lares. E com greves, marchas, fechamento de estradas conseguiram a liberação dos dirigentes presos.

Mais uma vez, o latifúndio não queria conversa. E isso produziu uma greve promovida por três sindicatos.  Então, em vez de trabalhar nas terras do patrão, os trabalhadores em greve trabalhavam em suas terras dentro das fazendas.

Os fazendeiros, por sua vez, começaram a ir na polícia dizendo que os índios haviam roubado suas terras e a resposta que obtinham da polícia era: vocês têm o direito de matar esses índios como se mata um cachorro.

Nesse período, de muito conflito por terra nessa região, o governo do Presidente Ricardo Pérez Godoy, elaborou uma lei de reforma agrária que nunca cumpriu, foi só para enganar os camponeses e tentar apaziguar essa zona da província de Convenção que estava gestando exemplos de formas de movimento de reivindicação da terra e se espalhou para outras partes do país. 

Dessa forma, os indígenas foram à Federação reclamar do risco de vida que corriam com a ordem da polícia para os fazendeiros os matarem. Não tiveram outra a alternativa senão se defender.

E aí na realização de uma assembleia com os camponeses se acordou organizar a auto de defesa armada camponesa. Como eu era delegado de um sindicato que estava muito ameaçado e já estávamos organizando o auto de defesa em outras frentes de luta, me nomearam para organizar os camponeses em conflito com os latifundiários.

Organizei a auto de defesa por mandato da assembleia de campesinos. Como sindicalista disciplinado cumpri com a ordem que me deram.

Me recordo que na assembleia disse: Não mataremos os fazendeiros, eles têm direito de viver cem anos, nós só queremos a terra, nada mais. Impusemos uma greve geral e a tomada de terras para que se cumprisse a lei de reforma agrária.  Foi quando a polícia declarou ilegais a Federação, as assembleias, os sindicatos e as greves. 

Assim nasceu a primeira reforma agrária peruana.

Mas se a polícia declarou ilegal todas as formas de luta e organização, como se deu então o embate entre latifundiários e polícia contra os camponeses?

Vou contar uma história que foi emblemática. Como a polícia deu licença para matar índios, um latifundiário, acompanhado de um policial, foram atrás de um dirigente da Confederação. Não o encontraram no sindicato. Lá estava apenas um garoto de treze anos. O latifundiário perguntou aonde estava seu pai. O menino disse que não sabia. Então, ele deu um tiro no braço do menino com a arma do policial.

Com as armas que tínhamos fomos até o posto policial reclamar. Lá chegando, fomos recebidos, sem saber, justamente pelo guarda que tinha dado a arma para o latifundiário atirar no menino.

Se iniciou uma confusão, eu saquei a arma e apontei para ele e disse para que não pegasse sua arma, porque não deixaríamos ninguém ferido. Mas em vez de levantar a mão, o policial puxou sua arma da cintura e dessa forma fui mais rápido que ele e disparei. Ainda caindo ele conseguiu fazer alguns disparos sem direção. Por alguns segundos, seria eu quem estaria no chão morto. 

Outros policiais que estavam no posto se renderam. Para evitar uma repressão estatal, me apresentei à polícia e expliquei o ocorrido. Fiz isso para que não houvesse de cair a culpa em outros e virar uma cassada aos dirigentes.

Nestas ações de auto defesa morreram campesinos e policiais. A polícia passou a ser mais comedida pelo medo de surgir novos grupos de auto defesa. E depois disso fui preso junto a outros dirigentes da Confederação.

Felizmente, os campesinos fizeram a reforma agrária na marra porque não deixaram um palmo de terra para os latifundiários. 

E quando vem a chamada segunda reforma agrária peruana? 

Os militares se assustaram com as tomadas de terras por parte dos camponeses que estavam rebelados. Isso fez com que eles, que tinham chegado ao poder em 1969 com o presidente General Juan Velasco Alvarado, pensassem em um plano de reforma agrária nacional, já que além de Cusco, haviam camponeses se rebelando e tomando terras em outras regiões. Por isso, acharam melhor fazer a reforma agrária para conter o processo de luta e organização dos camponeses. E acertaram com a burguesia industrial peruana a elaboração da reforma agrária, chamada de reforma agrária de Velasco.

Essa reforma agrária legalizou as terras que foram tomadas pelos camponeses em Convenção na chamada primeira reforma agrária. Por isso, muitos falam somente dessa, mas ela só existiu porque os camponeses já estavam rebelados e tomando terras dos latifundiários.

Como foram os anos na prisão?

Me mantiveram preso e incomunicável por três anos, por ordens do governo do então presidente Fernando Belaúnde Terry, que presidiu o país de 1963 a 1968.

Depois de três anos passei a ter o direito de receber visitas apenas de familiares muito próximos, com a presença de um sargento escutando a conversa. Quando minha mãe foi me visitar a primeira vez lhe disse que eu amava muito ela na língua quéchua, porque em castelhano o vocabulário não alcançava em palavras o sentimento que sentia. 

E o sargento, que não falava quéchua, interrompeu na hora e disse para eu falar em castelhano. Ou seja, eu não tinha nem a liberdade de falar para minha mãe no meu idioma o quanto eu a amava. 

Depois de mais alguns anos, com o julgamento marcado recebi a visita de um mensageiro do governo na prisão. E ele me disse:

-Só tem uma forma de você sair livre do julgamento.

- Sim qual é, perguntei a ele.

- Você finge que está doente e nós atestamos num laudo, você é libertado e te deportamos a um país que você escolher.

- Não, obrigado, tenho uma saúde perfeita!

Eles queriam um acordo, porque sabiam que na audiência eu ia denunciar os crimes do latifúndio. 

E como foi o julgamento?

Antes do julgamento, assim como eu, meus companheiros que também iam ser jugados na mesma audiência, receberam a visita de mensageiros na prisão, que lhe fizeram a seguinte proposta: se quiserem se ver livres, digam que vocês são um bando de campesinos pobres e analfabetos e que foram enganados por Hugo Blanco, digam isso e estarão livres imediatamente.

Mas, quando entrei na sala e vi meus companheiros depois de três anos presos, gritei: Terra ou Morte! Que era nossa palavra de ordem. E eles responderam: Venceremos! 

O tribunal era guardado e presidido por oficiais da guarda civil que nós sabíamos que estavam a mando dos latifundiários, e assim,  um capitão tocou uma companhia e me deu direito a falar. Disse: os únicos criminosos são os que estão sentados como jurados e não só criminosos como covardes, porque se atrevem a combater nós como povo, porque somos Cholito (Determinação racista dada pela elite peruana aos descendentes mestiços de índio e negros no país). 

O julgamento era aberto ao público. E o povo que acompanhava começou a se agitar. O capitão mandou todo mundo se sentar e disse que não estava ali para discutir política. 

Nessa audiência denunciamos os abusos da polícia, o mau trato do Estado para com os camponeses presos, os crimes cometidos pelos latifundiários contra os trabalhadores e suas famílias. 

Por fim, o juiz Fernandes Hernandes pediu como sentença a pena de morte contra mim. Mas, quando ele foi ler a sentença não teve coragem de dizer expressamente pena de morte, apenas disse se aplique como pena o numero tal do código penal peruano. 

E o capitão disse que se eu quisesse falar algo mais, estava com a palavra. Então, eu disse: se as mudanças sociais, provocada pela Federação dos Camponeses da Convenção e Lares na vida dos trabalhadores do campo merece pena de morte, eu estou de acordo com a pena de morte.  Porém, que seja feita pelas mãos de quem ordenou a pena de morte, para que não suje com meu sangue as mãos de um guarda republicano que saiu do povo e, portanto, são meus irmãos.

E para terminar, gritei: Terra ou Morte! Então, não só meus companheiros, como o público que assistia o julgamento também gritou: Venceremos! Por isso não se atreveram a executar a pena de morte contra mim ali na mesma hora, no término do julgamento. 

Como você escapou da sentença de pena de morte?  

Houve uma campanha contra minha pena de morte por várias partes do mundo. E então me sentenciaram a 25 anos de prisão.

Quantos anos você cumpriu de pena?

Quando estava preso aproximadamente por sete anos, uma dirigente de um partido político peruano foi me visitar e me disse: faltam muitos anos para você sair da prisão. Se quiser sair amanhã mesmo da prisão é só te comprometer a trabalhar na reforma agrária de Velasco. Como não concordava muito com a política desse presidente, respondi, não obrigado eu já me acostumei a viver na prisão. E ela disse: outros presos políticos aceitaram trabalhar no governo e ele deu anistia a todos. 

No fim aceitei. Saí da prisão e me proibiram de me ausentar de Lima por um tempo. Depois me deportaram. 

Se me perguntam qual é o melhor governo que você viveu em todos esses anos? Digo que foi o governo militar de Velasco pois me deportou, acabou fazendo a reforma agrária, nacionalizou as minas do país, a pesca, entre outros setores. Claro que uma nacionalização sem democracia serve apenas para os chefes e as empresas da burguesia peruana.

Você esteve com Che Guevara em algum momento da sua vida?

Quando estávamos na província de Convenção recebemos mensagens de que os cubanos nos apoiavam. Parece que Che enviou ao Peru uma guerrilha de apoio ao meu grupo, só que chegaram depois da minha prisão.

Depois, quando me prenderam, Che estava na Argélia e avisaram para ele que eu tinha caído. Ele pronunciou que após minha prisão outros seguiriam meus passos. Ele não acreditava que a mobilização social ia me tirar da cadeia, nem que sairia vivo da prisão. Dessa forma, como me livrei, estou seguindo os meus passos como pediu Che.

O que mudou das batalhas de outrora para agora?

Antigamente era para ter terra, para trabalhar e cultivar. Agora que o neoliberalismo atua e ataca ferozmente a natureza, nossa luta mudou para defesa da natureza, essa é a luta fundamental de agora. 

Hoje, por exemplo apoio os companheiros de Cajamarca contra o projeto de mineração Conga. Não sou mais dirigente, mas apoio a luta deles em defesa do meio ambiente.

Antes eu lutava para socializar a terra, hoje tenho que lutar pela manutenção da espécie humana. Cem anos mais sendo governado pelas empresas transnacionais seguindo o mandamento sagrado, de como ganhar mais dinheiro em menor tempo possível destruindo a natureza, e estaremos destruídos. 

Me dá muita pena de saber que meus netos ficarão sem água, por exemplo. Tudo baseado na educação do egoísmo, do pensamento individualista planejado pelos grandes capitalistas que comandam o mundo.

Isso se demonstra no domínio estadunidense no meu país, por exemplo, que passa pelo presidente, pelo exército, pela polícia, pelos grandes meios de comunicação; tudo agregado aos mandos também das grandes transnacionais do mundo.

O caso mais emblemático de Peru está no conflito mineiro de Cajamarca. A mineradora estadunidense Newmonte diz que vai usar água de quatro lagoas para seu projeto de ouro, porém o projeto vai afetar quarenta lagunas que alimenta 600 mananciais que regam a terra de dezenas de camponeses que utilizam essa água para agricultura e para criação de gado, ou seja é a morte de uma cultura em Cajamarca que está em jogo com esse projeto de mineração.

Edição: Daniela Stefano