EXPRESSÃO

Manifestação cultural brasileira, samba é celebrado em dezembro

A artista e pesquisadora Juliana Ribeiro explica as raízes, variações e o significado do samba na atualidade

Brasil de Fato | Salvador (BA)

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"Quando se fala em samba, sempre remete à ideia de comunidade, de família, de alegria, de pertença", afirma Juliana. / Dôra Almeida

“Eu sou o samba

A voz do morro sou eu mesmo sim Senhor

Quero mostrar ao mundo que tenho valor

Eu sou o rei dos terreiros”

Mais do que um ritmo musical, o samba é expressão cultural brasileira e aparece em várias configurações. Cantado, dançado e tocado por pessoas diversas, em locais que vão desde rodas com os amigos, encontros de família até grandes shows, seu dia é comemorado no 2 de dezembro há 46 anos. A data foi escolhida em Salvador pelo então vereador Luis Monteiro Costa, que a propôs como homenagem ao compositor Ary Barroso na data de sua primeira visita a Bahia. 

O nascimento oficial do Samba data do dia 27 de novembro de 1916, quando ocorreu o registro da música Pelo Telefone, composição de Donga, na Biblioteca Nacional. Mas o Samba de Roda já existia na Bahia, em todo o Recôncavo, desde o início do século XIX, integrado às festas dos terreiros de Candomblé.

Para falar um pouco do assunto, conversamos com Juliana Ribeiro, cantora, compositora, historiadora e mestre em Cultura e Sociedade. Confira:

Raízes

Uma das conclusões que a gente chega é entender que o samba é híbrido em si, na sua construção musical. Primeiro, é um ritmo afro-brasileiro. É importante que esteja claro que ele é afro-brasileiro porque a matriz, a clave - o kabila - vem de África. Mas os instrumentos que compõe a sua estruturação são de ascendência árabe. Isso nos ajuda a entender que é uma coisa própria, é um gênero musical que nasce no Brasil com as contribuições culturais do povo brasileiro. 

Surgimento

O samba sai daqui pela população migrante, principalmente da região do Recôncavo, e vai para o Rio de Janeiro que era então capital do Brasil. Essa população sai daqui em busca da confirmação de suas liberdades, já que eram negros libertos, alforriados, mas que não conseguiam exercer essa liberdade na prática no interior da Bahia. E, no Rio, o samba ganha outra proporção de espetáculo, mas sai daqui. O samba, que era uma coisa feita nos morros, nos guetos, nas favelas, consegue dialogar com pessoas de outras instâncias sociais.

Variações

A mesma matriz Bantu, da região de Congo e Angola, aportou em diferentes lugares no Brasil. Isso vai se hibridizar de várias formas e criar essas variações. O kabila é a célula base, está em tudo no samba. Aqui, deu origem ao samba-chula, ao samba de roda. Sai daqui e vai pro Rio de Janeiro, se hibridiza com o jongo, por exemplo, um dos antecessores do samba mais pujantes, que até hoje se faz muito. Depois vai cair na célula do samba que a gente conhece hoje. A mesma matriz que sai de África chega no Brasil e vai construir variações diferentes de acordo com a região, pela questão cultural mesmo, pelas tribos indígenas daquele lugar, pelos instrumentos portugueses que tinham acesso. 

Samba na atualidade

Existem várias funções sociais. Quando se fala em samba, sempre remete à ideia de comunidade, de família, de alegria, de pertença, mas o samba acima de tudo é o lugar onde eu sei que vou encontrar os meus e onde posso falar das minhas questões. O samba é música de protesto e sempre foi, quando o hip hop nem tinha chegado no Brasil. Sempre foi o samba. Eu acho que ele tem várias funções e é justamente por permitir, de uma forma muito bacana, elegante, bonita e sem clichês, que a gente fale dos nossos sofrimentos. É um ritmo que é pulsante, ele chega em todo mundo, atinge todo mundo, né? Eu digo que o samba é uma música pensante e dançante.

Edição: Elen Carvalho