RELIGIOSIDADE

Festas de largo movimentam Salvador no último mês do ano

Santa Bárbara, Iansã e Nossa Senhora da Conceição da Praia são reverenciadas pelos soteropolitanos neste período

Brasil de Fato | Salvador (BA)

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Todas essas festas levam milhares de pessoas às ruas de lugares históricos. / Tatiana Azeviche/Setur

Chegado o mês de dezembro, a população soteropolitana inicia a agenda de manifestações religiosas e populares, as chamadas “festas de largo”. Iniciando pelo dia 4 de dezembro, dia de Santa Bárbara, padroeira dos Bombeiros, e dia de Iansã, orixá dos ventos e das tempestades. Esta festa começa com uma queima de fogos às cinco da manhã, seguida de uma missa campal no Largo do Pelourinho, procissão, oferenda de caruru e distribuição de acarajé. São pontos de parada da procissão, o Quartel do Corpo de Bombeiros e o Mercado de Santa Barbara, também localizados no Centro Histórico.

Já no dia 8 de dezembro, temos as festividades de Nossa Senhora da Conceição da Praia, padroeira da Bahia. Os festejos duram mais de quatro séculos, datam do período da fundação da cidade de Salvador, em 1549, quando foi construída ainda enquanto uma capela, por desejo do então governador do Brasil, Thomé de Souza. O festejo conta com novenas, procissão, missas e festa no largo do Mercado Modelo, no Comércio.

No mês de janeiro, acontece a lavagem do Bonfim, com o cortejo que sai da Igreja da Conceição da Praia até a Colina Sagrada, no bairro do Bonfim, formando um tapete branco de milhares de pessoas numa caminhada de oito quilômetros, para agradecer, reafirmar a fé e reverenciar o Senhor do Bonfim na Igreja Católica e o orixá Oxalá no candomblé e na umbanda. Banho de folhas, lavagem das escadarias, as famosas fitas coloridas do Senhor do Bonfim amarradas nos pulsos ou no gradil da Basílica, distribuição de mungunzá são algumas das marcas desta festa.

Todas essas festas levam milhares de pessoas às ruas e carregam uma característica do povo soteropolitano: a convivência entre catolicismo e religiões de matriz africanas como forma de resistência histórica e cultural. Sem contar na mistura entre “sagrado” e “profano”, visto que após as manifestações religiosas de agradecimento e pedidos, há programações musicais, venda de bebidas e comidas. Modificam a cidade e envolvem a população na sua construção, nas cores, nas danças, nos aromas, na fé. Até mesmo nas que não são feriado municipal, Salvador para e recebe as graças e bençãos.



Distribuição de acarajé: fé e agradecimento

Lu de Oyá Nereji, da Ilê Axé Oya Nereji Acorô Omim, que teve sua vida mudada após participar de uma festa de Santa Bárbara anos atrás, conta sobre o poder de transformação que a fé teve em sua vida. Foi em um quatro de dezembro, na procissão, que sentiu a necessidade de seguir no candomblé.

Há cinco anos Lu distribui acarajé na festa de rua, como forma de agradecimento a Iansã. Ela prepara e frita os “bolinhos de fogo” de “comer” - tradução de acarajé [acará + ajé] em Iorubá - na madrugada e, logo cedo, se arruma para seguir para o Pelourinho. “A distribuição começou com um balaio pequeno, nos outros anos fui aumentando, e meus filhos de santo começaram a chegar e me ajudar. Sempre que eu distribuo o acarajé de Iansã no Pelourinho, volto ao início de tudo. E volto mais fortalecida”.

Lu de Oyá diz ainda que oferece o balaio para Oxum para agradecer no dia oito de dezembro; e no mês de janeiro, no Bonfim, distribui mungunzá na porta da Igreja. “Peço misericórdia e que o manto sagrado dele caia sobre as pessoas, sobre a Bahia, o Brasil e o mundo, para nos trazer paz, porque Oxalá é paz. E eu peço a Oxalá que aquele milho branco leve paz a cada coração que pegue aquele copo”, finaliza.

Edição: Elen Carvalho