Crime ambiental

"Nenhum dinheiro vai resolver o crime do rio Doce, eles mataram nossa biodiversidade"

Mikhail Coser fala sobre os impactos sociais causados pelo rompimento da barragem de rejeitos em Mariana

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Mikhail Coser, militante do Movimento Organizando Vidas com Ação Social e Soberania Econômica (Movasse), na Vigília Lula Livre / Joka Madruga

Há sete meses, Mikhail Coser frequenta a Vigília Lula Livre, em Curitiba (PR), diariamente. O motivo, segundo ele, é para “fortalecer um movimento muito maior de denúncia aos crimes cometidos no país”. 

Atualmente, Coser é militante do Movimento Organizando Vidas com Ação Social e Soberania Econômica (Movasse) e atingido pelo rompimento da barragem de rejeitos do Fundão, em Mariana (MG), da Samarco. Considerado o maior crime ambiental da história do Brasil, o rompimento contaminou o curso do rio Doce ao longo de 650 quilômetros, atingindo 43 cidades dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. 

Em entrevista ao Brasil de Fato, Coser fala sobre os desafios que os movimentos populares tiveram para fortalecer a denúncia dos crimes cometidos pelas empresas Vale e BHP Billiton, proprietárias da Samarco. O militante comenta também as projeções para a luta em defesa dos atingidos com o início do governo de Jair Bolsonaro (PSL) em 2019.

Brasil de Fato: Gostaria que você contasse como as vidas das pessoas foram atingidas pelo rompimento da barragem de Mariana. 

Mikhail Coser: O crime de Mariana atingiu diretamente nossa cidade, porque contaminou nosso rio e todo nosso meio de agricultura. Colatina e Valadares são as únicas cidades em que o sistema de abastecimento de água vem direto do rio Doce [Hoje ainda são abastecidas pelo Rio Doce cerca de seis municípios. Além dos citados, pelo menos Belo Oriente, parte de Baixo Guandu, parte de Periquito e parte de Resplendor].  Então, Colatina estava toda arrasada mesmo. Nossa cidade toda está entre os dois lados do rio e dependíamos completamente do rio Doce.

Isso tudo foi muito ruim para nós e para conseguir implantar o movimento. Não tínhamos articulação com os políticos, porque quem financiava as campanhas era a Vale. A Vale e a Aracruz Celulose dominam o Espírito Santo. As perseguições aumentaram. Eu fiquei 40 dias detido por ocupar a Secretaria de Assistência Social reivindicando moradia. Já tinha um rechaço da Polícia Militar desde a época em que eu fui agredido, em Baixo Guandu por mais de 15 policiais; e foi comprovado que eles me agrediram porque a gente estava fechando a linha, protestando. Eu fiquei algemado, fui agredido de joelhos. Meu maior medo é que eles não estavam fazendo isso só comigo, que era um militante que estava denunciando. Eu estava com medo porque estava acontecendo isso com pessoas que não sabiam se defender. 

Foi muito difícil fazer luta pelos atingidos, mas a gente teve êxito. A gente conseguiu colocar agora, depois de três anos, uma assessoria técnica que foi aprovada pelos atingidos. 

Já a luta por moradia, se tornou praticamente impossível. Como se eles já soubessem que iria acontecer o crime, transformaram algumas áreas rurais em urbanas e toda área na encosta do rio, que é a grande parte dos dois lados da cidade, agora já tem donos. A maioria dos donos são ex-políticos, que agora são construtores, estão construindo condomínios de luxo na beira do rio. Todo mundo quer uma fatia da compensação social que a empresa acumulou ao longo desses três anos. As pessoas que adquiriram esses terrenos têm apoio da polícia militar, dos empresários, da mídia local e da Vale. Onde a Vale passa, ela consegue simplesmente fazer com que as pessoas dependam dela até para sobreviver. 

Três anos depois do crime, a denúncia do Ministério Público Federal contra as empresas ainda não foi concluída. Como você analisa a condução do judiciário nesse caso?

O judiciário está estagnado. O judiciário se curva diante de um poder que o amedronta. Eu acho que eles têm medo do grande capital, das grandes empresas. Apesar de estar com a Constituição, eles têm medo. É muito ruim, porque talvez não seja o medo do minério, o medo do crime. São pessoas que querem ficar daquele lado porque é mais cômodo. Está viciado o processo de favorecer sempre o maior e o mais poderoso, e quem sofre com isso é o morador do morro, da periferia.

Como o governo de Jair Bolsonaro pode impactar na luta dos atingidos?

Eu costumo falar que as pessoas devem beber muita água da Samarco para eleger o presidente que elegeram. O próprio governo Temer impactou diretamente. Eu acho que vai ser só uma continuação reforçada, com mais autoritarismo. 

A gente acredita que essa demora para escolher o ministro do Meio Ambiente está sendo para estudar quem eles vão colocar para que, em nenhum momento, o lado humano supere o lado político. Eu acho que o medo é evidente. Nós não temos peito de aço, por mais que sejamos militantes, nós temos medo de arma, de polícia, medo de morrer. 

Por isso eu falo que é o momento de defesa dos nossos, de proteção nossa. Depois de tudo que aconteceu, depois dessa grande ferida que tivemos, nem terra, nem reparação de atingidos, vai ser só isso. Agora é mais uma defesa da vida mesmo. A gente vai ter várias defesas para fazer, mas se a gente não tiver união, nós vamos ser mortos, vão acabar com nós todos. Nós não temos que criar base para ganhar poder. Nós temos que aprender a criar base para proteger o povo. 

  

Atualizado em: 06/12/2018, às 18h31

Errata: Ao contrário do que havia sido informado na primeira versão da matéria, o entrevistado não é integrante nem foi coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), e suas opiniões não representam a posição política do movimento.

 

Edição: Mauro Ramos