De Nossa Senhora da Conceição a Iemanjá, Pernambuco tem dia dedicado à fé

Marca do sincretismo religioso, dia 8 de dezembro é celebrado nas igrejas e terreiros

Brasil de Fato | Recife (PE)

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No Recife, é celebrada a Festa do Morro no dia 8 de dezembro. / Santuário Nossa Senhora da Conceição / Divulgação

Nesse sábado (8) o estado de Pernambuco terá muitas festividades religiosas. A maior e mais famosa delas é a Festa de Nossa Senhora da Conceição, no Morro da Conceição, zona norte do Recife, que teve início no dia 27 de novembro e chega ao fim nesse domingo (9). Mas o dia também é de festa para os adeptos das religiões de matriz afro-brasileira. Em Pernambuco, o 8 de dezembro é também o dia de Iemanjá. E as duas representações têm forte ligação.

No dogma cristão católico a Nossa Senhora da Conceição, ou Imaculada Conceição, é ninguém menos que Maria, a mãe de Jesus Cristo. Morador do Morro da Conceição, o religioso Reginaldo Veloso explica o simbolismo de Maria para a fé tradicional católica. "Existe a compreensão de que Maria teria sido concebida de modo especial. Enquanto os demais seres humanos nascem com a 'tara' do pecado original, ela teria nascido sem isso. E que teria sido uma pessoa toda pura, para receber em seu ventre aquele que nós cremos ser o salvador Jesus Cristo", afirma.

Presbítero leigo das comunidades eclesiais de base e assessor do Movimento dos Trabalhadores Cristãos (MTC), Reginaldo lembra que "conceição" é uma palavra antiga para o termo concepção. "Então Imaculada Conceição não é propriamente um nome, mas um atributo, uma forma de dizer que ela foi concebida sem o pecado", diz Veloso. A comemoração no dia 8 de dezembro se dá porque a data é tida há séculos como o dia em que Maria foi concebida pelos seus pais, Ana e Joaquim, exatos nove meses antes de seu nascimento, em 8 de setembro.

Ele também compartilha leituras diferentes sobre a imagem de Maria. "Ela representa a sociedade inteira, onde as pessoas se alegrarão em viver como filhos de Deus e construindo um mundo de justiça e igualdade", diz Reginaldo. "Ela representa a fé de que o mundo pode ser liberto de toda mancha de injustiça e tudo aquilo que nega a dignidade do ser humano", pontua o religioso, avaliando que essa leitura faz mais sentido para os cristãos e cristãs de hoje.

Ele também destaca que as aparições de Maria sempre se deram para pessoas pobres, nunca aos poderosos. "Foi assim em todas as aparições dela no mundo. Aqui no Brasil ela apareceu para um grupo de pescadores num período difícil de pesca, por isso a Nossa Senhora da Conceição Aparecida é a padroeira do Brasil", diz o presbítero.

A mãe de Cristo é celebrada sob muitos nomes. "Alguns nomes soam estranhos, outros refletem aspectos da pessoa, a expectativa ou sentimento que foram mais relevantes para certas comunidades", pontua Reginaldo Veloso. O tema da Festa do Morro em 2017 foi "Muitos nomes, uma só mãe".

A Nossa Senhora da Conceição é lembrada inclusive no islamismo, religião que nasceu no Oriente Médio e, portanto, bebeu das mesmas raízes que o judaísmo e o cristianismo. O Islã também é monoteísta (crê num único Deus) e tem seu surgimento ligado a um descendente de Abraão. Os muçulmanos também possuem um livro que acreditam trazer a revelação final de Deus: o Alcorão.

O livro traz importante trecho sobre Maria, citando-a como purificada, intocada pelo Diabo, chamada de luz (Nur) e Mãe da Luz (Umm Nur), colocando-a como a escolhida de Allah (Deus) para trazer ao mundo o profeta Jesus. No Islã, Jesus é reconhecido como profeta de Deus, assim como são Moisés, Davi, Jacó, Isaac, Ismael e Abraão. Mas os islamismo tem como principal líder o mais recente dos profetas, Maomé, nascido mais de 500 anos após Jesus.

Algumas correntes religiosas surgidas no Brasil, a partir das misturas da culturas e religiões trazidas do continente africano com o cristianismo europeu e a cultura indígena, associam Maria a diferentes orixás. Na região Sul do Brasil e em Sergipe, por exemplo, Maria é associada a Oxum, senhora das águas doces, dos rios, do amor, da beleza e do poder feminino. Oxum muitas vezes é representada carregando um bebê no colo. Já em São Paulo e alguns estados da região Nordeste, incluindo Pernambuco, a Imaculada Conceição é associada a Iemanjá, divindade das águas, da fertilidade e da maternidade, representada trajando azul.

Por isso em muitos terreiros pernambucanos o dia 8 de dezembro é dia de Iemanjá. "Há décadas atrás, quando cultuar orixás era proibido, tínhamos que fazer nossas celebrações usando imagens dos santos católicos. A imagem de Santa Bárbara para nós representava Iansã, já São Jorge era Ogum, Nossa Senhora da Conceição era Iemanjá. Então de alguma forma precisávamos 'nos esconder' atrás desses santos", conta Yasmin Santos, candomblecista, filha de Iemanjá e cuidadora (yabá) do terreiro Ilê Axé Yemanjá Ogunté, no Recife.

No terreiro que frequenta, de Nação Nagô, o sincretismo religioso (mistura de elementos de diversas doutrinas) é visto como algo positivo. "O que era negativo era a proibição. Mas os santos em si não têm nada a ver com isso. Vemos eles como seres iluminados e os respeitamos muito", diz Yasmin. Ela conta ainda que sua mãe de santo até faz novena e tem um altar com imagens de santos católicos. "Acho que se eles trazem energias positivas, então ajudam a gente", conclui. Mas faz a ressalva que essa não é uma visão unânime entre os adeptos das religiões de matriz africana ou afro-brasileiras.

O presbítero Reginaldo Veloso também vê a mistura como uma soma positiva. "Tenho muito respeito com as devoções da umbanda e candomblé. Os cultos de raízes africanas celebram a presença de Deus na natureza de maneira muito bonita. O fato de interpretarem a seu modo a figura de Maria, identificando-a com Iemanjá, de forma alguma tira o brilho da figura de Maria como nós a veneramos no catolicismo", afirma, para completar em seguida. "Olharmos Maria como a Rainha das Águas é até um convite para que nós, católicos, pensemos na responsabilidade que devemos ter com a natureza", conclui.

Yasmin confessa que o sábado (8) será mais um dia em que viverá o sincretismo religioso. "Pois de manhã eu vou para a missa no Morro da Conceição e à tarde vou para o toque no Sítio de Pai Adão", revela, entre risos. Sobre a celebração a Iemanjá, ela lembra que a Nação Nagô chegou a Pernambuco através de Tia Inês (Ifá Tinuké), uma filha de Iemanjá trazida do continente africano como escrava. "Aqui ela fundou o terreiro Ilê Obá Ogunté, que ficou conhecido como Sítio de Pai Adão, o mais antigo da Nação Nagô no estado". O terreiro, localizado no bairro de Água Fria, Recife, fará uma grande festa nesse domingo, a partir das 16h.

A menos de 4 quilômetros de distância, no Morro da Conceição, desde o dia 30 de novembro até esse sábado (8) terão sido realizadas 61 missas. Todos os dias a rotina no Santuário do Morro é de 5 missas diárias, às 7h, 9h, 11h, 14h e 16h. No sábado o dia começa com a celebração eucarística, às 4h da manhã, recebendo ainda a Procissão de Encerramento, quando cerca de 200 mil pessoas saem às 15h do Forte do Brum, no Cais do Apolo, bairro do Recife, e percorre a avenida Norte até o Morro. À noite a celebração é encerrada com a última missa, o Novenário, a partir das 19h30.

Edição: Marcos Barbosa