Cidadania

Campanha denuncia empresas que produzem café com trabalho escravo

"No meu bule não!": iniciativa também divulga ameaças de empresários contra famílias trabalhadoras rurais

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Projeto surgiu com o intuito de denunciar a situação do Quilombo Campo Grande, no sul de Minas Gerais / Foto: Divulgação

Não tem nada melhor do que aquele cafezinho, não é mesmo? Mas você sabe de onde vem e quem produz o café que você toma todos os dias? Para fazer refletir sobre isso, o designer Gladson Targa criou a campanha “No meu bule não!”.  A corrente surgiu com o intuito de denunciar a situação do Quilombo Campo Grande, no sul de Minas Gerais, que desde novembro enfrentava uma ameaça de despejo.

A região, que antes era ocupada por uma Usina de Cana de Açúcar, hoje abriga 450 famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Há 20 anos os trabalhadores ocuparam as terras e desde então produzem o café orgânico e agroecológico Guaií. Para se ter uma dimensão do trabalho dessas famílias, somente no último ano foram produzidas quase 10 mil sacas de café.

O terreno onde moram as famílias produtoras está sob posse da massa falida dos donos da Companhia Agropecuária Irmãos Azevedo (Capia), que encerrou suas atividades em 1996. A empresa deve mais de R$ 300 milhões em dívidas trabalhistas. Apesar de não ter quitado as dívidas, recentemente a empresa apresentou um plano de recuperação jurídica.

Segundo Gladson, nesse projeto está um arrendamento de terra que seria feito por João Faria da Silva, empresário que detém mais de 18 milhões de pés de café no Brasil. “Eu comecei a pesquisar as relações do João Faria da Silva com as empresas de café. Vi em entrevistas que ele deu, que empresas como Nespresso, Nescafé, Caboclo, Pilão entre outras, são as maiores compradoras de café do João Faria.  A partir daí eu fiz a associação desse interesse que há por trás do despejo”, conta. Na campanha, o designer convoca as pessoas a boicotarem essas empresas.

Depois de muita luta e mobilizações contra o despejo das 450 famílias, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais publicou, no último dia 30, um decreto determinando a suspensão da reintegração de posse.

A campanha "No meu bule não!" segue em alerta sob a garantia de permanência das famílias do Quilombo Campo Grande. A intenção é que a corrente se amplie e que as pessoas sigam refletindo sobre o que consomem “É fundamental que as pessoas saibam e tenham consciência sobre o que consomem. O mais importante nessa história toda é a vida das pessoas lá do Quilombo Campo Grande, o importante é essa luta”.

Onde encontro café bom?

Se você quer garantir que o café que você consome tenha sido produzido por famílias trabalhadoras rurais é muito simples! O café Guaií, de uma cooperativa do MST, pode ser encontrado no Armazém do Campo, que é o local de venda dos alimentos produzidos pelos trabalhadores sem-terra. A loja fica na Avenida Augusto de Lima, 2136 no Barro Preto, em BH. O produto também vai estar à venda no Festival da Reforma Agrária, que acontece na capital mineira entre os dias 14 e 16 de dezembro. Além dos alimentos agroecológicos, quem visitar o Festival também vai conferir atrações artísticas. O evento vai acontecer no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, a entrada é gratuita.   

Conheça a campanha.

Edição: Joana Tavares