Resistência

Lideranças internacionais reforçam necessidade de união contra extrema direita

Conferência Internacional organizada pela Fundação Perseu Abramo reúne políticos de diversos países em São Paulo

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

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Políticos do Brasil, Argentina, Uruguai, Portugal e Espanha participaram do debate na tarde desta segunda-feira (10), em São Paulo
Políticos do Brasil, Argentina, Uruguai, Portugal e Espanha participaram do debate na tarde desta segunda-feira (10), em São Paulo - Sérgio Silva/FPA

Autoridades e intelectuais políticos de diversos países se reúnem em São Paulo na Conferência Internacional em Defesa da Democracia, organizada pela Fundação Perseu Abramo. 

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O ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, Celso Amorim, iniciou sua intervenção fazendo uma homenagem aos dois militantes sem terra mortos no último fim de semana na Paraíba. Para ele, o fato trágico anuncia a escalada de violência contra os lutadores sociais, produto da eleição de Jair Bolsonaro (PSL) ao governo federal. 

“Queria, em primeiro lugar, fazer uma homenagem aos dois militantes do MST que foram mortos, o que é um prenúncio do que pode acontecer com um governo de extrema-direita no Brasil”.

Amorim destacou as semelhanças e diferenças sobre o avanço da extrema-direita em alguns países europeus e no Brasil. Segundo ele, um dos principais pontos em comum é que o neofascismo se apoia hoje em uma defesa do neoliberalismo, ao contrário do nacionalismo que caracterizou as forças da extrema-direita no século 20. Um dos elementos específicos do caso brasileiro é que a eleição da extrema-direita se caracterizou fundamentalmente pela intervenção de “elementos externos” no processo eleitoral. 

“No Brasil houve um indiscutível interesse externo na mudança de regime político, primeiro com a derrubada da presidenta Dilma e depois com a prisão do ex-presidente Lula, naturalmente tudo isso ligado a um projeto progressista que existiu no país”. 

Ex-ministro Celso Amorim falou durante conferência realizada pela Fundação Perseu Abramo nesta segunda-feira em São Paulo. Foto: Sérgio Silva/FPA

Jorge Taiana, presidente do Parlamento do Mercosul e ex-chanceler da Argentina lembrou que a data em que se celebra o Dia Internacional dos Direitos Humanos, esta segunda-feira (10), também marca a retomada da democracia argentina há 35 anos, depois de décadas de ditadura civil-militar. Ele destacou os limites da democracia liberal que vigorou na América Latina depois dos processos autoritários da segunda metade do século passado. 

“Nesses 35 anos de governos democráticos na Argentina tivemos governos mais progressistas ou mais conservadores, mas hoje, lamentavelmente podemos dizer que não só com a democracia se come, se cura e se educa. As democracias que temos, as democracias liberais, têm muito pouca capacidade de [realizar] as mudanças, o desenvolvimento social e a justiça social, que necessitamos na nossa região”. 

Nektarios Bougdanis, representante do partido grego Syriza, relatou a experiência da construção do Fórum Europeu de Forças Progressistas, que começou a ser gestado na Europa, e fez um chamado à unidade internacional. “Hoje, uma frente internacional democrática é mais importante do que nunca”, afirmou.

Isabel Moreira, deputada do Partido Socialista de Portugal, iniciou sua intervenção com uma homenagem à vereadora e militante carioca Marielle Franco, assassinada em março deste ano no Rio de Janeiro. Ela também defendeu o papel das mulheres no combate à agenda conservadora nas diferentes partes do mundo.

A parlamentar também falou sobre a experiência de unidade que permitiu a retomada do governo por parte dos setores progressistas em seu país, frente ao avanço dos chamados governos de austeridade, liderados por forças de direita na Europa. Em relação ao Brasil, criticou personagens da política brasileira que, segundo ela, “perderam o momento histórico” ao não se posicionar firmemente frente ao avanço da extrema-direita no Brasil. 

“No momento em que possa estar em jogo a vitória do fascismo, temos que colocar as nossas diferenças de lado e unir os democratas e progressistas de esquerda. Porque pessoas que tiveram o poder da palavra em momentos decisivos como Fernando Henrique Cardoso, ou como Ciro [Gomes], perderam o momento histórico da vida deles”. 

Isabel Moreira, deputada do Partido Socialista de Portugal criticou postura de FHC e Ciro Gomes no cenário eleitoral de 2018, durante conferência em São Paulo. Foto: Sérgio Silva/FPA

Finalmente, o presidente da Frente Ampla do Uruguai, Javier Miranda, fez uma emocionada intervenção, na qual destacou o sucesso da unidade das forças progressistas uruguaias que já cumpre o terceiro mandato presidencial no país, com grandes chances de uma quarta vitória eleitoral. 

“A unidade para nós, é um valor essencial na construção das esquerdas. Temos diferenças, claro que sim! Brigamos muito! Mas nos unimos em um grande acordo, sem perder a identidade. Somos uma colcha de retalhos, mas essa colcha é a que abriga as esquerdas. No âmbito das emoções, continuamos cheios de paixão e esperança”. 

A Conferência Internacional em Defesa da Democracia começou nesta segunda-feira (10), coincidindo com o Dia Internacional dos Direitos Humanos e os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e termina nesta terça-feira (11). 

Edição: Mauro Ramos