DIREITOS

Festival no Rio denuncia violações a Declaração Universal dos Direitos Humanos

"Todo Mundo Tem Direitos" reuniu movimentos sociais, organizações e artistas na Cinelândia

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

,
Segunda edição do Festival "Todo Mundo Tem Direitos" aconteceu em frente a Câmera de Vereadores do Rio de Janeiro nesta segunda (10) / Clívia Mesquita

Na última segunda-feira (10) a Declaração Universal dos Direitos Humanos completou 70 anos. O documento proclamado pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1948, estabelece logo em seu Artigo I que “todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. Na mesma data, que também é o Dia Internacional dos Direitos Humanos, aconteceu o Festival “Todo Mundo Tem Direitos” na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro.

O evento foi organizado em conjunto com diversas organizações e entidades ligadas à defesa dos Direitos Humanos, como Anistia Internacional, Justiça Global, Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Casa Fluminense e o Coletivo RJ Verdade, Memória e Justiça.

Joanne Calhau é psicóloga e militante do sindicato da categoria no Rio. Ela, que trabalhou com afetados pela violência na ditadura em 1994, hoje atende “as vítimas da chamada democracia” através do Núcleo de Atenção Psicossocial a Afetados pela Violência de Estado (NEPAVE).

“São mães que perderam seus filhos, pessoas que sofreram remoções forçadas, vítimas de lgbtfobia, perseguições a militantes, professores e religiões de matrizes africanas, assassinato da juventude negra”, conta a psicóloga sobre as violações com as quais lida no seu cotidiano de trabalho.

A cozinheira Ivanir Mendes teve seu filho único assassinado em 2016 por policiais militares aos 21 anos no Pavão-Pavãozinho, em Copacabana. “Nossos jovens negros estão morrendo dentro das comunidades, nós como sociedade e seres humanos temos que mudar essa história”, declara.

Ivanir estava presente arrecadando fundos em uma das barracas montadas na Cinelândia dedicadas aos movimentos sociais, representando a Frente Estadual pelo Desencarceramento.

A ex-presa política, Ana Bursztyn-Miranda, atua no Coletivo RJ Memória, Verdade e Justiça e na campanha Ocupa DOPS, que resgata a memória de mortos e desaparecidos de 64. “A nossa pauta tem a ver com o passado, presente e o futuro”. Segundo Ana, a memória desse período está cada vez mais em disputa e precisa ser coloca em pauta.

“Hoje a gente tem outro quadro, mas essa violência de Estado permaneceu o tempo todo. Com intervenção militar no Rio de Janeiro e sem intervenção no resto do país. Diante disso a gente pode imaginar que nosso futuro vai continuar perverso contra jovens negros, opositores, camponeses, indígenas”, conclui.

Programação

A cantora Teresa Cristina foi quem abriu a noite de apresentações no palco Cinelândia. O público acompanhou o repertório de clássicos do samba como Clara Nunes e canções autorais. Em seguida, ela e a cantora Marina Íris apresentaram a música “Gema” de Maria Bethânia e Marina deu sequência aos shows.

Em entrevista ao Brasil de Fato RJ, Teresa Cristina comentou sobre as frequentes tentativas de banalizar os Direitos Humanos citando declarações das últimas eleições. “Acabaram de eleger um governador [Witzel] que diz que vai abater bandido com sniper e bala na cabeça, e um presidente [Bolsonaro] que diz não se importar com a vida de quem ele não gosta. Por mais que tentem banalizar os Direitos Humanos, a luta está cada vez mais viva e isso precisa ser falado nas ruas”, conclui a artista. 

Também subiram ao palco Ellen Oléria, Marcelo Jeneci, Pedro Luís, BNegão, entre outros, até às 22h. Em sua última edição, em 2015, o Festival “Todo Mundo Tem Direitos” reuniu mais de 50 mil pessoas no Parque Madureira, zona norte do Rio.

No aniversário de 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a cantora Teresa Cristina se apresentou no palco Cinelândia do Festival "Todo Mundo Tem Direitos" (Foto: Clívia Mesquita)

Próximo ato

No dia 13 de dezembro de 2018 o Ato Institucional nº5 (AI-5) completa cinquenta anos desde que foi assinado em 1968. O decreto aprofundou a repressão e as formas de perseguição durante a ditadura iniciada quatro anos antes. Por isso, o Grupo Tortura Nunca Mais – RJ convocou o ato público “O AI-5 e a ditadura de ontem e de hoje” para acontecer na próxima quinta-feira (13), às 15h30, na Cinelândia.

“Vivemos o avanço das restrições de liberdade, das mortes, dos desaparecimentos, da tortura e o fim dos direitos trabalhistas. É fundamental que todos tenham consciência da realidade e façam algo para mudá-la”, diz o chamado para a mobilização.

Edição: Jaqueline Deister