Semiárido

Mulheres se organizam em busca da autonomia financeira

Na Paraíba, a produção e beneficiamento de frutas colhidas nos quintais foi a alternativa encontrada

Brasil de Fato | Sousa (PB)

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Antes da denúncia, grupo comercializava cerca de 4 mil reais por mês / Monyse Ravena

São Gonçalo é um distrito do município de Sousa, no sertão paraibano. A localidade fica situada bem próxima às margens da rodovia federal 230, na bacia hidrográfica do Rio Piranhas, cerca de 15 km da sede do munício e 450 da capital João Pessoa. O distrito de São Gonçalo, assim como todo o município de Sousa, está localizado no Semiárido brasileiro, tipo de clima caraterizado pela escassez e irregularidade das chuvas, assim como forte evaporação e altas temperaturas.

Em Sousa, como em uma parte do Semiárido brasileiro não é raro a temperatura bater os 38 graus e a estação chuvosa, normalmente se concentra entre os meses de janeiro e maio. A média pluviométrica da cidade é de cerca de mil milímetros, enquanto a evaporação de 2 mil mm. Com mais de 3 200 horas anuais de insolação, São Gonçalo é conhecida como a localidade onde o Sol mais brilha em todo o Brasil.

É nesta localidade que encontramos um dos maiores perímetros irrigados do Brasil. Os perímetros são projetos controversos que geralmente estão sob a coordenação do Departamento Nacional de Obras contra a Seca (Dnocs) e que podem beneficiar pequenos e grandes produtores sendo que, em geral, grandes produtores conseguem ter mais sucesso porque têm mais acesso a créditos e subsídios governamentais. Não é diferente em Sousa, o perímetro de São Gonçalo ficou conhecido na região pela produção de banana e coco.

Mas não é da grande produção que falaremos aqui e sim da experiência de uma pequena fábrica de beneficiamento de popas de frutas, protagonizada por mulheres. Nessa experiência tudo que é colhido nos quintais se aproveita: acerola, goiaba, manga, graviola, caju, tamarindo, abacaxi, uva, entre outros, são 12 sabores de polpas que viram sucos.

Quem nos conta é Claudete Varela, liderança da comunidade e idealizadora da pequena fábrica. Claudete também nos conta que depois de dois anos bem sucedidos tem enfrentado dificuldades depois que uma grande fábrica da cidade denunciou a pequena fábrica das mulheres pela ausência do registro da vigilância sanitária, “mas, não desanimamos, estamos correndo atrás da regularização”. Desde a denúncia elas não conseguem mais acessar o Programa Nacional de aquisição de Alimentos (PNAE) e o Programa de Alimentação Escolar (PAA) e por isso a pressa na regularização.

Antes da denúncia o grupo comercializava cerca de 4 mil reais por mês e atualmente o valor é de mil reais, o que diminuiu muito a renda das famílias. Claudete relembra que antes da fábrica toda a produção de fruta colhida era entregue para atravessadores e grandes fábricas da região e que as mulheres não querem voltar para esta situação.

Atualmente um agrônomo acompanha o grupo e tem contribuído com a regularização sanitária. O grupo já conseguiu emitir a certidão municipal e agora busca a nacional.

*A repórter viajou a convite da IPS (Inter Press Service – América Latina).

Edição: Marcos Barbosa