Reflexão

O que o Natal tem a nos ensinar?

“Comemoramos o aniversário de Cristo fazendo tudo o que ele detesta”, diz religioso

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Para teólogo, muitos cristãos têm ignorado o conteúdo político das mensagens de Jesus / Foto: Reprodução

Basta chegarmos a meados de novembro que o cenário cotidiano começa a mudar. As casas e as lojas se enfeitam com pisca-piscas, renas, gorros e até mesmo “neve” - o que é extremamente raro neste país tropical. Na TV começam as propagandas das famílias reunidas em torno de uma ceia bem farta ou então trocando presentes. E assim vamos entrando no famoso espírito natalino. Mas afinal o que esta data realmente representa? O natal é celebrado pelas religiões cristãs como a data que marca o nascimento de Jesus Cristo. No entanto, algumas curiosidades, mitos e distorções cercam a comemoração. A celebração natalina tenta trazer para o presente a memória e a mensagem de um homem que, há mais de dois mil anos, marcou a história da humanidade por propor uma nova maneira de viver a vida: junto aos pobres, marginalizados e excluídos.

Apesar disso, a data tem se transformado em uma referência de consumo e individualismo. É o que afirma o coordenador da Frente de Evangélicos pela Democracia, Fillipe Gibran: “Hoje o Natal é praticamente uma data sem sentido, porque a gente come muito, gasta muito dinheiro e não pratica realmente a mensagem de Cristo. Porque a mensagem de Jesus é diferente disso. É curioso, porque a gente comemora o aniversário de Cristo fazendo tudo o que ele detesta”.

Quem é esse aniversariante?

Nascido em uma cidade marginalizada e periférica, Jesus era filho de uma família pobre e discriminada. Denunciou o acúmulo de riqueza e exaltou os pobres. Andou com as pessoas consideradas de má fama e expôs a hipocrisia dos poderosos. Defendeu os mais pobres, caminhou junto aos enfermos, pecadores e prostitutas. Mas, voltando para os dias atuais, não é bem isso que vemos. Não é raro aparecer na TV, nas ruas e até mesmo em casa, discursos de ódio, de violência e discriminação. Atitudes que reforçam valores contrários àquilo que Jesus defendia.

Para o teólogo Fillipe Gibran, os cristãos têm ignorado o conteúdo político das mensagens de Jesus. “A gente não sabe quando na história do Cristo que a mensagem dele perdeu o caráter político, mas a palavra de Jesus nunca foi puramente espiritualizada. Ela sempre foi muito envolta de política. Em Mateus 25 você pode ver um Deus que se identifica com o preso, com o faminto, com o sedento. Ele está propondo distribuição de recursos, de alimentos, de como se deve tratar os presidiários. São mensagens de dois mil anos atrás, mas que estão completamente atuais”.

Na opinião de Padre Vitório, jesuíta da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE, há uma distorção das mensagens e dos ensinamentos de Cristo. “As pessoas se apoderaram de Jesus, elas não querem ser discípulas dele, Jesus é que tem que se submeter a elas e aos seus dogmas. O que Jesus quis foi fundar uma nova humanidade e não uma nova religião.”

Três mentiras sobre o Natal

A data

O dia do nascimento de Jesus na verdade é uma data imprecisa. Mesmo após muitas pesquisas, historiadores e religiosos não conseguem afirmar qual teria sido o dia correto. O dia 25 de dezembro foi determinada como dia do nascimento de Jesus a partir do ano 525. A data coincide com a celebrações de festas romanas.

A migração de José e Maria

Muitas pessoas acreditam que a migração de Maria e José da cidade de Nazaré para a cidade de Belém teria sido motivada por uma fuga. No entanto, historiadores e religiosos afirmam que, à época, Roma, cidade que governava a região, teria ordenado um novo censo da população e que por isso todas as famílias teriam que migrar para Jerusalém, que era o centro político da époa. Esse levantamento censitário é o que teria motivado o deslocamento de Maria e José. Com o grande fluxo de migração, todas as cidades próximas a Jerusalém estavam lotadas, inclusive a capital, e com isso não havia hospedagem para o casal. Os viajantes só encontraram abrigo em uma casa de uma família de pastores. “É a cidade que não tem espaço para acolher os seus filhos, mas não tem espaço realmente porque eles são pobres, porque se tivessem dinheiro a cidade tinha recebido eles”, afirma Padre Vitório.

No entanto, no período seguinte ao nascimento de Cristo, Herodes, que era o governador da Judéia à época, foi informado de que havia nascido o novo messias na cidade de Belém e então decretou o extermínio de todas as crianças com menos de 2 anos. Jesus escapou da chacina pois José teria sido avisado por um anjo e fugiu com Maria e Jesus para o Egito.

O presépio

A famosa imagem do presépio em que o menino Jesus está em uma manjedoura cercado de animais, em um local que provavelmente seria um estábulo é uma leitura um tanto quanto distorcida do que de fato está nos escritos sobre o nascimento do Cristo. Religiosos e pesquisadores apontam que o nascimento de Jesus teria acontecido em um quarto da casa da família dos pastores que abrigaram Maria e José. Há época era comum que as famílias pastoreiras recebessem viajantes.

Edição: Joana Tavares