Coluna

O juiz que vendeu sua alma

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18 de Janeiro de 2019 às 14:00

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"A lei da entropia, no entanto, deve vencer a parada. O mais provável é que a banda podre cresça e leve de roldão os falsos espertos" / Foto: Lula Marques
Moro foi fiador jurídico de uma campanha que acentua a gravidade da violência

As pessoas têm duas mãos, mas poderão ter até quatro armas em casa. Entendeu? O Estado fez sua parte, a partir daí a segurança é problema de mira ou de uma fraquejada do cidadão. A resposta a essa situação absurda é um método que, na falta de melhor nome, poderia ser batizado de teoria da redundância regressiva. Não basta andar para trás na escala de civilização, é preciso radicalizar a barbárie.

Há outros exemplos desse projeto em andamento. Por exemplo, como a educação está deficiente, a saída é fechar as escolas mantidas pelo MST, reconhecidas mundialmente pelo seu trabalho pedagógico, crítico e inclusivo. Enquanto isso se opera o absurdo da escola sem partido e das propostas anticientíficas, para consagrar a perspectiva de arrasar o saber em nome do moralismo de ordem unida e das superstições de toda ordem.

Ou ainda: inviabilizar o atendimento à saúde nos contextos mais carentes, atacando o programa Mais Médicos e os profissionais cubanos, desassistindo populações sem capacidade de reação. No momento seguinte, passa-se à defesa da extinção de programas de combate à Aids e do trabalho de educação sanitária, em nome de postura tacanha que atribui a doença a um comportamento de natureza moral.

No caso da reforma da Previdência, a lógica é mais ou menos a mesma. Os privilégios de segmentos que contam – em razão do valor de seus benefícios e das discrepâncias sociais – serão mantidos para que os direitos da maioria sejam cortados rentes à possibilidade de se aposentar dignamente. A primeira onda foi naturalizar a reforma. O passo seguinte foi culpar o trabalhador pela crise fiscal. Agora é tempo das corporações, militares à frente.

O método vem sendo reproduzido em todos os setores, com diferentes nuances. Mas há um ponto em comum: trata-se de uma política de governo, ampla, articulada e atenta aos seus patrocinadores eleitorais: o mercado financeiro e o cidadão enredado pelas redes e pelo ressentimento. Por isso não cabe, como tem sido feito por muitos analistas acadêmicos, uma divisão do governo em duas frentes de direita, aparentemente distintas: de um lado os conservadores e, de outro, os liberais. O que o berço ideológico separa, a constância do autoritarismo unifica.

Costumes x economia: o governo é um só

Essa separação didática tem servido apenas para anistiar aqueles que se envergonham de ações estúpidas demais, que seguem se sentindo atuantes em campos menos problemáticos, pretensamente mais “éticos” e “técnicos”. Em outras palavras, para cada estupidez de Damares, Velez e Ernesto, uma rodada racional de Guedes e Moro. É possível defender a pauta da economia e virar o rosto para a agenda dos costumes. Pode parecer tentador para uma classe média que se julga mais ilustrada, mas é uma mentira. O governo é um só.

O decreto das armas deixou isso claro. O ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro, que posava de puro até então, como se estivesse preservado do lado sombrio da força em seu périplo monotemático anticorrupção, foi chamado a dar forma ao documento que depois foi assinado pelo capitão. O constrangimento de Moro foi inegável na cerimônia. Pagou o pedágio para ocupar o cargo e a cobrança, que ele preferia que ficasse nos bastidores, foi anunciada orgulhosamente por Bolsonaro, que espertamente expôs a fatura em público.

Depois do ato, enquanto Onyx se jactava de sua burrice comparando pistolas com liquidificadores, Moro tartamudeava que se tratava apenas de uma flexibilização, fugindo ao debate substantivo. A alegria do presidente pareceria incompreensível em contexto civilizado. Foi uma espécie de reconhecimento gozoso da vitória de valores individualistas e pré-políticos. Os partidários das armas já deixaram claro que essa foi apenas uma etapa. Depois da posse, vem o porte, o próprio presidente já assentiu, jogando para o Congresso o restante da conta.

Moro não está acima do lodo

A digital do ex-juiz, no entanto, vai estar lá para sempre, na origem, como fiador jurídico de uma promessa de campanha que acentua a gravidade da violência social. Misturar argumentos jurídicos cabotinos e campanha eleitoral, aliás, sempre foi sua especialidade. A armadilha anteposta por Bolsonaro ao ex-magistrado foi sagaz. No primeiro momento, parecia que o presidente dependia da luz de seu ministro. Moro, depois do decreto que marcou sua estreia como jurista oficial do poder, não pode mais pairar sobre o lodo no qual afundou sua ambição. Ele agora é parte dele.

Os movimentos seguintes devem seguir o planejado. A direita incompetente se lambuzando em sua oportunidade histórica de destruir o país ao lado dos conservadores informados e experientes que buscam fugir do contato com a barbárie explícita e preservar minimamente suas biografias. A lei da entropia, no entanto, deve vencer a parada. O mais provável é que a banda podre cresça e leve de roldão os falsos espertos que embarcaram com a certeza de sua distinção. Eles não estão no governo, eles são o governo, como a história vai fazer questão de registrar.

E vai ficar pior a cada dia. Afinal, o dono da bic é Bolsonaro.

Edição: Joana Tavares