Conservadorismo

Pós-graduandos que estudam gênero e violência temem censura do governo Bolsonaro

Segundo a presidenta da Associação Nacional de Pós Graduandos (ANPG), está em curso "o combate ao campo do conhecimento"

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Jair Bolsonaro empossa ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, durante cerimônia de nomeação dos ministros de Estado / Valter Campanato | Agência Brasil

O ministro da Educação do governo Jair Bolsonaro (PSL), Ricardo Vélez Rodríguez, promete combater o que chama de “marxismo cultural” e enfrentar temas que vão contra os “costumes” da “família tradicional”. Segundo nota publicada no jornal O Globo, a nova gestão da pasta estuda aplicar "critérios ideológicos" como critério eliminatório nos processos seletivos para concessão de bolsas de pós-graduação no exterior. 

Questionada pelo Brasil de Fato, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), respondeu que não há planos para que essa sinalização entre em vigor. “Os critérios de seleção para bolsas no exterior são públicos e amplamente divulgados de acordo com os editais e regulamentos. A CAPES prima pelo mérito acadêmico e científico, sempre pautada pela qualidade e relevância das propostas”, informou o órgão em nota. 

De acordo com a presidenta da Associação Nacional de Pós Graduandos (ANPG), Flávia Calé, as declarações do ministro não se verificam no campo institucional, já que nenhuma medida pública foi tomada para impedir ou censurar linhas de pesquisa ou temas específicos. No entanto, segundo ela, na terceira semana de governo Bolsonaro, o clima é de apreensão. 

“Isso está em curso em outros países, e eu acho que seria plenamente possível acontecer no Brasil também. Nesse sentido, a gente não é uma bolha. A gente está suscetível. Existe o reflexo de um fenômeno que é mundial, e a gente precisa ficar alerta. As perseguições já estão em curso nas universidades com manifestações racistas, perseguição a professores, à 'ideologia de gênero', mas também ao pensamento crítico como um todo”, lamenta. 

Calé considera que está acontecendo no Brasil um combate sistemático ao campo do conhecimento e da pesquisa.

:: Ao declarar guerra à "ideologia de gênero", Bolsonaro elege inimigo que não existe ::

As sinalizações do novo ministro seguem uma tendência anterior a posse de Bolsonaro. O posicionamento do então candidato sobre questões como gênero e direitos humanos já vinha causando reações no dia a dia dos pesquisadores brasileiros, mesmo durante a corrida eleitoral. Segundo relato do antropólogo Fabiano Azola, pós-graduando na Universidade de São Paulo (USP), que pesquisa a violência de Estado contra indígenas, foi na eleição que os estudantes começaram a cogitar a possibilidade de mudar o nome de suas linhas de pesquisa para "driblar" ou evitar uma provável censura a temas que contrariam a visão de mundo de Bolsonaro.

"É uma espécie de uma autocensura, de precaução em relação ao futuro iminente, que a gente vem discutindo na universidade. Porque, de certa forma, já vêm acontecendo perseguições a alguns professores. Teve o caso da Débora Diniz, da UnB [Universidade de Brasília], que também é antropóloga e teve que sair do país. Ela está exilada. Isso é uma coisa que a gente vem conversando entre os estudantes da pós-graduação", conta.

Débora Diniz era professora do curso de Direito na UnB, teve que interromper a carreira e sair do país em julho de 2018, por conta de ameaças de morte. Ela é ativista pró-aborto e estuda temas ligados a gênero. O ministro Rodríguez declarou, em nota, que “é preciso combater o que se denominou de 'ideologia de gênero', com a destruição de valores culturais, da família, da Igreja, da própria educação e da vida social”. 

Diante desse cenário, logo após as eleições, uma estudante de pós-graduação de uma universidade no sul do país, que preferiu não se identificar, conta que sua própria orientadora sugeriu a mudança do título da dissertação [trabalho final de mestrado]. A pesquisa da pós-graduanda também trata de temas relacionados a gênero. De acordo com ela, "na universidade há linhas de pesquisa em educação que são relacionadas a pobreza, gênero e raça. A nossa linha, gênero, é a mais visada. A gente nunca sabe o que esperar, por isso estamos apreensivos”.

Apesar do cenário obscuro no campo da pesquisa, o mestrando em sociologia e pesquisador da temática LGBT, Filipe Araújo, enxerga na continuação do trabalho a melhor maneira de resistir. Para ele, jovem negro, gay e morador da periferia, ocupar um espaço na universidade já é uma forma de resistência.

“Logo depois do resultado das eleições, eu conversei com meu orientador. A gente tem uma boa relação. Eu expus tudo pra ele, quais eram minhas angústias, dúvidas, etc. A gente conversou bastante, e a nossa avaliação foi que não tinha outra perspectiva colocada pra mim que não fosse continuar”, relata o estudante.

Araújo ressalta que a desvalorização do fazer científico vem desde o governo Michel Temer (MDB), com o Teto de Gastos e cortes de bolsas de estudo. Porém, os ataques de Bolsonaro e do ministro Vélez Rodríguez é considerado mais grave porque encontra respaldo na sociedade, que cada vez mais confunde produção de conhecimento com mera opinião. Para o mestrando, a confiança na autonomia das instituições universitárias é o que resta para os estudantes que produzem conhecimento com uma perspectiva crítica. 

Edição: Mauro Ramos