Discriminação

A intolerância religiosa na visão de muçulmanos que vivem na periferia de São Paulo

Os frequentadores da mesquita Sumayyah Bint Khayyat, em Embu das Artes, relatam histórias de preconceito e resistência

Brasil de Fato | São Paulo

,
Jovem muçulmano caminha na entrada da favela Cultura Física, em Embu das Artes (SP) / Tom Freitas

Fundada em 2012, a pequena mesquita Sumayyah Bint Khayyat é um prédio simples, de dois andares, que fica no meio da favela Cultura Física, em Embu das Artes, na Grande São Paulo. No térreo, uma pequena lanchonete de comida árabe. Acima, uma sala de oração onde todas as sextas os muçulmanos da região se reúnem para fazer suas preces e estar entre os seus irmãos e irmãs de fé. 

Uma hora antes da cerimônia do dia, César Kaab, Anderson Freitas, Antônio Marcos e Roberto* (nome fictício a pedido da fonte) recebem a reportagem do Brasil de Fato e falam sobre a intolerância religiosa do ponto de vista de muçulmanos que praticam sua fé na periferia da maior cidade do país. 

Desde que a mídia e membros da classe política intensificaram a associação entre a comunidade islâmica e o terrorismo, aumentaram os casos de preconceito, discriminação e agressões de todos os tipos contra os seguidores do islã no Brasil e no mundo. No Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, o Brasil de Fato ouviu alguns integrantes da religião no país, mais especificamente nesta mesquita em uma comunidade pobre de São Paulo. 

César Kaab, ex-rapper convertido ao islamismo e fundador da mesquita, explica que para ele, as perseguições recentes começaram em 2015. “Nós recebemos a visita de um xeique muito conceituado no mundo árabe, ele veio conhecer o nosso trabalho. A ideia, no início, era fazermos uma creche e uma mesquita. Foi algo muito importante para nós. No outro dia o celular começou a tocar, era bem cedo, cinco horas da manhã. Foi aí que eu vi que tinha uma matéria da Veja, e o título era ‘Um jihadista no Brasil’, onde apontavam o cara como aliciador do Estado Islâmico, e minha foto junto com o cara, no meio da favela”, explica.

“Daí pra frente foram vários ataques nas redes sociais. São muitos anos de perseguição. Os atos de terrorismo que acontecem fora do Brasil, recaem sobre nós: Já tacaram pedras sobre a mesquita, ou gritavam ‘terrorista!’, coisas assim. Houve um incidente muito grave em que um cara chutou uma muçulmana nas costas, dizendo ‘sai daqui terrorista’", relata Kaab. 

Eleições e intolerância

Segundo dados levantados pela Folha de São Paulo, os casos de intolerância religiosa registrados na cidade de São Paulo tiveram aumento de 171% entre julho e outubro do ano passado - época da disputa eleitoral - em comparação com os três meses imediatamente anteriores. 

Ao mesmo tempo, nesse período registrou-se uma média de 16 casos de intolerância (religiosa, de origem, gênero ou orientação sexual) por dia, contra 4,7 nos meses anteriores. No ano todo foram 3.191 casos, contra 1.607 em 2017 e 2.009 em 2016. As ocorrências de intolerância religiosa foram as que tiveram maior aumento, entre todas as categorias.

Quando consultado sobre as dificuldades enfrentadas durante as eleições no Brasil, o fotojornalista Anderson, sentado conosco na sala de oração da mesquita, conta que foi um período de muita apreensão: “Todo dia uma enxurrada de ataques. Na época das eleições o negócio foi bem mais acalorado mesmo. Teve situações em que a gente teve que se reunir, conversar”.

“A fala dele de que a minoria teria que se curvar à maioria foi o divisor de águas”, diz Kaab. “E a situação nas eleições foi justamente isso. Aquela fala direta: terrorista, terrorista é muçulmano, terrorista é comunista, comunista é muçulmano. Muito louco. E um dos maiores empresários do Brasil, o dono das lojas Marabraz [presidente da Sociedade Beneficente Muçulmana] fez campanha para o Bolsonaro, vestiu todos os funcionários com camisa do Bolsonaro, igual ao dono da Havan. Tem um grupo de muçulmanos pró-Bolsonaro, mas as pessoas não vêem isso”.

Intolerâncias cotidianas

Ao falar sobre o exercício da fé no Brasil e as dificuldades diárias enfrentadas por eles, casos cotidianos de opressão vêm à tona. 

“As pessoas se posicionam contra muçulmanos, acham que todo muçulmano é um terrorista em potencial. Se você entra no metrô as pessoas olham torto pra você; se a mulher vai no mercado ficam fazendo graça, chacota. Duas semanas atrás uma pessoa puxou a vestimenta de uma mulher que tinha se convertido. Foi entrar no trabalho, porque assumiu seu hijab, o porteiro não a deixou entrar. É muito triste, porque a gente só quer seguir nossa fé”. 

Em seu período de conversão, Anderson travou uma batalha até dentro da própria família: “No começo tudo é difícil, os enfrentamentos vêm dentro de casa. Quando a gente fala ‘eu sou muçulmano’, a família te vê com toda aquela bagagem que foi apresentada pra ela: bomba, terrorismo, violência. No meu caso, parentes se distanciaram, tive enfrentamentos com a minha noiva, minha mãe, minhas irmãs. Mas com o tempo, consegui mostrar pra eles o verdadeiro islã. Só lamento muito a perda dos meus amigos. Tem amigo que vivia lá em casa, hoje passa pela minha mãe e nem fala, como se fosse uma doença contagiosa”.

Para Roberto, que trabalha com despachos em um estoque, o problema maior foi o local de trabalho: “Quando falei que era muçulmano, já começaram a atacar, fazer gracinha: ‘então você não reza pra Deus, você faz terrorismo’”.

“A gente tá lá fazendo a divulgação, passa um cara e diz ‘deixa o Bolsonaro entrar, isso vai acabar’", conta Anderson. "Ali na hora a gente fica até com dó da pessoa. No viaduto do chá um cara chegou, meteu o dedo na cara do César, bateu no rosto dele com o papel”, diz ele, rememorando o que o grupo sofreu nas atividades de dawa, atividade de divulgação da religião feita pelos muçulmanos. César completa: “Outra vez foi a polícia. A gente tava lá fazendo a dawa, conversando com as pessoas, uma policial feminina bateu na minhas costas e disse ‘você não pode ficar aqui’. Eu perguntei qual o motivo, ela ‘você tá denegrindo o solo’.

Embaixada em Israel e descontentamento com o novo presidente

Imitando decisão do presidente estadunidense, Donald Trump, Jair Bolsonaro anunciou que faria a transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. A iniciativa representaria uma mudança drástica para o Brasil, que chegou a ser exemplo no reconhecimento formal do Estado Palestino recentemente.

Tanto para judeus quanto para os muçulmanos, Jerusalém é considerada solo sagrado, e é disputada por Palestina e Israel. O plano de partilha da Organização das Nações Unidas (ONU) previa o reconhecimento da cidade como um corpus separatum ("corpo separado"), que deveria ser gerido internacionalmente. Os palestinos não concordaram com a proposta, e em 1967, Israel ocupou Jerusalém oriental, reivindicada pelos palestinos como sua capital. 

Sobre o anúncio de Bolsonaro e o impacto entre os muçulmanos brasileiros, César afirma: “Na minha opinião a comunidade islâmica, de modo geral, é contra. Acha que é uma afronta a toda a [nossa] história. Eu vi no Diário Oficial que ele condecorou o Benjamin [Netanyahu], e esse cara é um assassino, joga bomba em escolas, hospitais, corta água das pessoas, faz muro para as pessoas entrarem na sua própria terra. O cara deu a condecoração maior do país para um assassino”. 

Discriminação sob o olhar feminino 

Vera Lúcia, de 37 anos, auxilia sua irmã na cozinha da lanchonete. Ela falou sobre as dificuldades vividas desde que decidiu se converter, cinco anos atrás.

“No Brasil é muito difícil ser muçulmano, porque tem muito preconceito. A gente sofre preconceito porque usa o hijab, por causa da mídia. Eu aprendi a conviver com a minha religião, porque é o que eu escolhi e eu tenho convicção de que eu quero ser muçulmana”, diz ela. 

“O hijab pra mim significa tudo. Faz parte da minha religião, faz parte de mim, e eu só faço por deus, por Allah, e não por ninguém. No começo, as pessoas da rua onde eu moro falavam ‘a religião dessa moça aí é aquela que corta o pescoço das pessoas’. Só que eu sempre morei na rua, nunca fiz mal para ninguém. Eu não liguei, e hoje acho que eles me toleram”. 

Dados

Estima-se que 1,57 bilhão de pessoas, ou 23% da população mundial, se identificam como muçulmanos. Em 53 países do globo a maioria religiosa é muçulmana, a maior parte deles na Ásia e no norte da África. Segundo a Associação Nacional de Entidades Islâmicas, um milhão e meio de muçulmanos vivem no Brasil.  

De acordo com estudo realizado pelo Pew Research Center, de Washington, em 2100 o islamismo deve se tornar a religião mais popular do planeta, com cerca de 33% da população mundial.

Edição: Mauro Ramos