Memória

Três semanas de um governo já em crise

Lua de mel entre Bolsonaro e imprensa já acabou

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Prêmio Nobel diz que Brasil merece presidente melhor / Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Com menos de um mês, novo governo já está em crise. Veja quatro marcas deste início da gestão Bolsonaro no Brasil.

Uma “familícia” em apuros

Não durou um mês a lua de mel entre Bolsonaro e a mídia que deu o golpe no Brasil. Após elogios, omissões ou rodeios, Globo e Folha de São Paulo dispararam fogo amigo contra o senador Flávio Bolsonaro (PSL), primogênito do Jair. Já existem fartas provas contra o “garoto” de 37 anos: de lavagem de dinheiro, passando por funcionários fantasmas e nepotismo cruzado, até associação com milícias cariocas. E o senador, defensor das milícias, contratou a mãe e a esposa do miliciano Adriano Magalhães, suspeito do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. E outros dois milicianos, os gêmeos Alan e Alex, são amigos da família Bolsonaro [ver foto no BdF] e irmãos de Valdenice de Oliveira, tesoureira do PSL. E outros veículos da mídia comercial começam, então, a repercutir também. Apesar disso, cuidado, meu bem! Essa mesma mídia continuará ao lado do governo nas medidas contra a população: reforma da Previdência, retirada de direitos trabalhistas, entre outras. 

Governo diz uma coisa e diz outra depois

No dia 4 de janeiro, Bolsonaro disse que aumentaria o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e abaixaria o teto do Imposto de Renda. Horas depois, o Secretário da Receita, Marcos Cintra, desmentiu. No dia 3, o governo suspendeu todos os projetos de reforma agrária em andamento. No dia 8, o Incra revogou a suspensão. No mesmo dia, Bolsonaro ofertou o território nacional para construir uma base militar dos EUA. O governo estadunidense até gostou, mas o ministro da Defesa, General Fernando Azevedo e Silva, disse que não ia ter base nenhuma. No dia 9, o MEC publicou edital permitindo livros didáticos sem referências bibliográficas, sem revisão dos textos e com publicidade. A notícia pegou mal, e o governo novamente recuou. Também no dia 9, a expressão “Bolsonaro recua“ teve mais de 100 mil buscas no Google, e outras frases similares tiveram grande procura.

Governo recua de novo e mamata não vai mais acabar

O candidato que prometeu acabar com privilégios virou presidente e nomeou um ministro da Casa Civil que praticou Caixa 2; um ministro da saúde investigado por tráfico de influência e fraude em licitação; uma ministra da Agricultura delatada por propina para a JBS; um ministro da Economia acusado pelo Ministério Público de participar de esquema com fundos de pensão; um ministro da Ciência e Tecnologia que violou o código militar, envolvendo-se em atividades comerciais com a empresa Portally Eventos e Produções. E o filho do General Mourão (PRTB), vice-presidente da República, ganhou o cargo de assessor especial da presidência do Banco do Brasil, e seu salário passou de R$ 14 mil para R$ 36 mil, justo na semana em que o pai ascendeu ao Palácio do Jaburu. E Mourão, no exercício temporário da Presidência, publicou, na quinta-feira (24), decreto permitindo sigilo total em dados de servidores comissionados e dirigentes de fundações, autarquias e empresas.

Chacota internacional

Durante 28 anos como parlamentar, Bolsonaro sempre teve dificuldades para dar entrevistas e nunca escondeu que não sabia nada de economia, saúde, educação, meio ambiente, habitação, transportes, política externa e outros assuntos. Porém, a imprensa internacional ficou surpresa com a falta de conteúdo, quando ele foi discursar ao Fórum Econômico de Davos, na última semana. É verdade que, em dois dos mais breves discursos da história, ele foi direto ao ponto e disse que o objetivo do governo é entregar as riquezas brasileiras às empresas estrangerias. Mas ninguém esperava uma fala tão pobre em argumentos. "Ele me dá medo. O Brasil é um grande país, merece alguém melhor", disparou o economista Robert Shiller, prêmio Nobel de Economia e professor da Universidade de Yale.

Edição: Joana Tavares