MORADIA

Ocupações fazem manifestação pelo cumprimento de acordo

Durante votação para liberar uma via, polícia iniciou repressão ao ato

Belo Horizonte

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Cerca de 500 pessoas, entre adultos, idosos e um cadeirante, participavam do ato / Edinho Vieira / Equipe Gabinetona

Na manhã desta terça-feira (29), moradores das ocupações William Rosa, Marião e Professor Fábio Alves realizaram um ato no Anel Rodoviário, na altura do bairro Betânia, em BH. As famílias reivindicam uma solução para o problema de moradia e a suspensão de uma ordem de despejo contra a Ocupação Fábio Alves, no Barreiro. Eles também se manifestaram contra o crime da barragem da Vale, em Brumadinho, ocorrido na última sexta (25).

A Ocupação Fábio Alves fica em um terreno de 74 mil metros quadrados, no bairro Marilândia, região do Barreiro, e conta com cerca de 700 famílias. No dia 13 de janeiro, a 22ª Vara Cível de BH expediu uma ordem de reintegração de posse contra as famílias. Já as ocupações Willian Rosa e Marião negociaram a saída pacífica dos terrenos ocupados. Em troca, as famílias receberiam o auxílio aluguel, pago conjuntamente pela prefeitura e o governo do estado, até a resolução do problema da moradia.

“Houve um acordo, assinado há um ano e meio, com contrato entre governo do estado e prefeitura de Contagem, prevendo o pagamento do subsídio de aluguel, até que houvesse a construção de moradias. No fim do ano passado, o acordo foi renovado. Neste mês, ainda não foi pago. Solicitamos uma conversa com o governo do estado e não tivemos resposta”, explica a professora Vanessa Portugal.

Repressão

Segundo os manifestantes, 500 pessoas, entre adultos, idosos e um cadeirante, participavam do ato quando o comando do batalhão de trânsito da Polícia Militar pediu a liberação de uma parte da via. O grupo iniciou uma votação para encaminhar a desobstrução. “Estávamos colocando essa proposta em votação. Chegou o tenente-coronel do Batalhão de Choque, que não deu para identificar porque ele mudou a tarjeta, mudou o procedimento e começou a jogar bomba”, conta Lacerda Santos, do Movimento Luta Popular.

Algumas pessoas foram atingidas por balas de borracha e uma mulher se desequilibrou com uma bala no pé e torceu o tornozelo. A manifestação dispersou e 15 crianças, ao fugirem das bombas, se perderam dos pais. Dois jovens foram detidos e passaram horas circulando em um carro da PM, até serem conduzidos à Delegacia Regional de Polícia Civil do Barreiro, onde estão depondo na tarde de hoje. Um dos jovens estava ferido. Uma pessoa que tentava fotografar a manifestação teve a câmera apreendida temporariamente por um policial.

“Uma das viaturas tentou me atropelar. O policial acreditou que isso havia sido registrado e nos ameaçou, exigindo que apagássemos as fotos. Ele chegou a dar voz de prisão, mas não nos levou”, relata a vereadora Isabela Gonçalves (Psol), que acompanhava a manifestação. Ele ressalta que havia um canal de diálogo entre poder público e ocupações e esse processo foi interrompido. A vereadora também afirma que, quando os movimentos votavam pela desocupação da via, a Cohab havia se disposto a recebê-los em reunião.

“A manifestação acontece porque esse diálogo foi encerrado na transição do governo do estado, que não prevê mecanismos de negociação com as famílias. Mesmo assim, a Cohab se dispôs a receber, mas a polícia não estava comunicada e articulada, de forma que a repressão aconteceu. Então, é preciso buscar que esses canais de diálogo sejam abertos”, critica Isabella Gonçalves.

Outro lado

O Brasil de Fato MG contatou a assessoria da Polícia Militar, mas ainda não obteve resposta. 

 

Edição: Joana Tavares