CRIME

Moradores de Parque da Cachoeira se organizam para cobrar ações da Vale após tragédia

Atingidos do bairro localizado em Brumadinho (MG) solicitam auxílio emergencial para reerguerem suas vidas

Brasil de Fato | Brumadinho (MG)

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Segundo moradores de Parque da Cachoeira, 25 casas foram completamente destruídas / (Foto: Larissa Costa)

No quinto dia após o rompimento da barragem Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), de responsabilidade da Vale, moradores do bairro de Parque da Cachoeira, que teve sua parte mais baixa soterrada pela lama, começaram a se organizar para reivindicar seus direitos e cobrar responsabilidade da mineradora.

Em assembleia realizada na terça-feira (29), os atingidos se reuniram para sistematizar as reivindicações que serão direcionadas à Vale. Também estiveram presentes representantes da Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania de Minas Gerais e da Assistência Social, assim como do Ministério Público.

De acordo com os moradores, 25 casas foram totalmente destruídas e outras dezenas foram parcialmente atingidas. Na ocasião, eles preencheram um formulário com informações preliminares que serão avaliadas posteriormente por uma comissão formada por psicólogas, assistentes sociais e por representantes da Vale - o que causou questionamentos por parte dos atingidos.

As reivindicações são relacionadas à necessidades urgentes, não incluindo indenizações ou reparações de danos. As principais demandas emergenciais dos moradores são auxílios financeiros para pagamento de aluguel e despesas estruturais das famílias.

"Nós não estamos negociando com a Vale. No momento, não estamos preocupados com isso. O que nós estamos preocupados é com o sustento familiar porque perdemos tudo que nós tínhamos. Principalmente o pessoal que trabalha com horta, quem tem comércio, o pessoal que trabalha individualmente e que agora não tem sua renda garantida", afirma Adilson Charles Ramos de Souza, presidente da Associação dos Moradores de Parque Cachoeira, Parque do Lago e Alberto Flores (Acopapa).

Seu Hélio Leite Murta, de 72 anos, se encontra nessa situação. Aposentado, há anos trabalhava como apicultor em Parque da Cachoeira. Nascido e criado no bairro Alberto Flores, Seu Hélio conta que o sistema de alarme da Vale não funcionou no dia em que a barragem estourou.

"Eu estava em casa quando meu sobrinho me ligou. Só tive tempo de pegar meus documentos, a chave do carro e saí. Quando eu cheguei no asfalto já estava passando o barro por cima da estrada. Eu vi carro, televisão, geladeira, antena, restos de construções”, detalha.

Hélio Leite Murta, de 72 anos (Foto: Larissa Santos)

A lama chegou no quintal da casa de Seu Hélio e, segundo as suas contas, seus prejuízos materiais estão em torno de R$30 a R$40 mil. Ele perdeu vasilhames e produtos como mel e própolis, além das plantações que mantinha na beirada do córrego.

"O que é importante é que a gente tá vivo. Não aconteceu nada com minha família, com meus vizinhos. Deu tempo de todo mundo sair. Apesar de que a gente fica muito chateado, porque o pessoal da Vale não foi lá pra ver se a gente estava precisando de alguma coisa", lamenta.

Alaides Fernandes da Cruz, moradora do bairro há 20 anos, também está desolada com a situação de Parque da Cachoeira.

Apesar de morar na parte mais alta e não ter sido atingida diretamente, seu sobrinho e alguns amigos que moravam perto do Córrego do Feijão estão desaparecidos.

"Fiquei muito chateada. O coração foi apertando, cheguei a passar mal. Quando viram que estava ruim mesmo, me pegaram e levaram no UPA (Unidade de Pronto Atendimento), logo me deram remédio pra acalmar e fui acalmando", conta Alaides.

"Ainda não estou boa, estou andando mas não estou boa. Além de ficar sentida pelos amigos que estão sofrendo por conta da perda dos parentes, ficamos chateados pelos amigos da gente e pelos outros filhos de Deus. Estou rezando pra Deus confortar esses que ficaram, pra Deus segurar na mão deles para eles terem força para aguentar", lamenta a aposentada.

"Acho que não vou durar muitos dias não porque o choque foi muito grande. Já estava doente e acabei de arruinar", diz Alaides. (Foto: Lu Sudré)

Com pesar, ela afirma que a tragédia de Brumadinho é pior do que a de Mariana, há três anos atrás, quando morreram 19 pessoas. Até o momento, números oficiais contabilizam 84 mortos, sendo 42 deles identificados. 276 pessoas continuam desaparecidas.

Apesar da voz estremecida, Alaides relembra que chorou quando viu as imagens de Barra Longa e Bento Rodrigues, mas não imaginou que a avalanche de lama chegaria tão perto.

“E esse daqui que foi aqui perto de casa e entrou parente meu no meio. Falei com os meninos que acho que não vou durar muitos dias não, porque o choque foi muito grande. Já estava doente e acabei de arruinar".

Os moradores estavam com os ânimos acirrados, cobrando respostas e ações da Defesa Civil do Município, assim como da Vale, representada na assembleia por Edivaldo Braga.

“A empresa ​está toda mobilizada em Belo Horizonte. Todo mundo empenhando em amenizar esse problema que não está sendo fácil pra ninguém. Tudo o que for devido a empresa vai ressarcir. A empresa não vai se furtar de cumprir com nenhum compromisso. Nós iremos cumprir com todos os compromissos que forem acordados”, garantiu o porta-voz da mineradora na reunião.

Porém, os relatos dos moradores reforçam que nos momentos mais delicados após o rompimento da barragem, a mineradora não estava presente. Ao longo da assembleia, o Ministério Público orientou aos atingidos que priorizem acordos coletivos ao invés de assinarem acordos individuais com a mineradora.

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira