VIOLÊNCIA

Hip hop paraibano sofre com repressão policial nas Batalhas nos bairros

Balas de borracha, choque elétrico e até perfurações com objetos pontiagudo são usados por parte da polícia

Brasil de Fato / João Pessoa - PB

,
Batalha do Coqueiral - dezenas de jovens escutando rima improvisada e som / Foto: Divulgação

Na noite da última terça-feira (29), no fim da “Batalha do Valentina”, que contou com cerca de 150 pessoas, por volta das 22h, quando todos já haviam se dispersado, ainda restavam cerca de 15 pessoas esperando carona e táxi, quando duas viaturas do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) pararam na quadra e ficaram observando o pessoal. Testemunhas contam que os policiais resolveram abordar os jovens e já chegaram gritando, mandando-os tirar as motos, com agressão verbal. Depois fizeram revista e resolveram utilizar armas de choque e um objeto pontiagudo para furar as pessoas. Como não encontraram nada o pequeno grupo se encaminhou para casa, foi quando viram uma fumaça na quadra. Os jovens contam que os policiais atearam fogo em alguns objetos: um sofá, duas mesas, uma extensão e carregadores de celulares, utilizados para dar suporte ao som do evento. João Cavalcante, 28 anos, conta que nesta hora pegou o celular para filmar a ação incriminatória dos policiais quando começaram os tiros: “Foram cerca de cinco tiros, os dois primeiros pegaram logo em mim, ou seja, eles criaram uma situação de abordagem agressiva, com alfinetes e taser (armas de choque) contra os caras, e não contentes, puseram fogo nas nossas coisas para nos incriminar. Depois abriram fogo com balas de borracha. Eu ouvi no bairro, murmurinhos de que uma senhora que vinha da igreja e estava passando também foi atingida por uma bala que pegou nela de raspão”, conta o jovem músico.Hematomas em João causados pelas balas de borrachaBatalha do Coqueiral acontece toda quarta-feira e já está na sua 26ª edição

A Batalha de Rap/Hip hop é  um encontro de MCs que duelam na rima e na improvisação, ao som do beatbox ou beats eletrônicos. Johainy Jerônimo, do coletivo Coqueiral Gang, um dos organizadores do evento, pondera que o som da batalha no Valentina não estava mais ligado, respeitando a lei ambiental, que permite som até às 10h da noite. “Eles colocaram fogo nas coisas porque não acharam nada que legitimasse aquela ação; além de João (Cavalcante), outra pessoa teve ferimento na área da cervical, porém, nenhum deles quis ir para à unidade médica com medo de serem interrogados, pré-julgados e retaliados. Eu até fiquei me perguntando que objeto pontiagudo é esse, se seria uma vacina, ou uma agulha infectada, que era uma das coisas que rolava lá em São Paulo antigamente”, conta o John.

Perseguição começou com eleição de Bolsonaro

Lideranças do movimento contam que no dia 21 de novembro de 2018, há cerca de dois meses, teve início essa ofensiva dos policiais contra as batalhas de hip hop. A Praça do Coqueiral foi cenário de uma grave truculência e abuso de autoridade. Organizadores contam que a batalha corria perfeitamente bem, até que policiais resolveram abordar algumas pessoas à procura de drogas. Foi quando começaram a agredir um dos jovens no meio do público e daí o público começou a gritar palavras de ordem contra os policiais que, então, sacaram suas armas - eram três policiais - apontaram para população e depois atiraram para cima. Em seguida acionaram mais viaturas da polícia, alegando que passou um cara em uma moto atirando primeiro. “A versão contada no registro policial é de que passou uma moto atirando para cima, mas nenhum dos 18 GB de imagem que temos mostra nenhuma moto passando, ou nenhum barulho de disparo antes dos policiais iniciarem os tiros”, conta Jonheiny.

Para Yakuzza, rapper ativista cultural, e uma das principais lideranças da Batalha do Coqueiral, o que está acontecendo é um abuso de autoridade com ajuda do novo governo presidencial. “Esse novo governo é fascista e quando a gente sofreu o ataque, os policiais falavam ‘uma nova era chegou, agora é Bolsonaro’. O autoritarismo contra o hip hop sempre existiu, a repressão sempre existiu, só que com esse novo governo aumentou muito mais e a gente tá seguindo a resistência justamente porque temos consciência do que estamos fazendo, nosso lado cultural e social, de reunir os jovens na praça todas as quartas-feiras”. Yakuzza comenta que as pessoas se alimentam de cultura, algo que aqui em João Pessoa quase não existe. “Hoje a gente faz acontecer muito bonito; é uma troca de conhecimento de informações, usando o hip hop como meio de salvação de várias pessoas do crime. Eu também fui salvo pelo hip-hop”, desabafa ele.

Racismo institucional

 Jonheiny aproveita para refletir sobre  o racismo institucional da PM: “é verdadeiro, ele acontece e tá começando a ser publicizado na mídia, no mainstream, nos debates da esquerda porque agora está em evidência. Todos os dias conhecemos amigos e amigas que são torturados, não só pessoas ligadas ao hip hop, mas também o pessoal da swingueira, do funk e dos batidões que rola lá na Praia do Sol. A polícia está lá e sempre e aborda os meninos vestidos a caráter, na ‘pala’ como a gente fala, de bermuda de tactel, sandália da Kenner e aí é feio, não tem conversa não.”

Atalaia, rapper do grupo Menestréis, conta que essa abordagem policial é preconceituosa. “Eu acho que é muito errado, uma palhaçada, uma falta de profissionalismo da parte deles porque o que a gente tá fazendo é cultural, para o bem da comunidade; a gente tira várias pessoas do crime, da criminalidade, através da rima através da batalha. Às vezes a pessoa tem algum tipo de raiva e, em vez de ir para o lado do crime, vai na batalha e descarrega, como um cano de escape. Então, só porque a gente se veste de um jeito e curto um tipo de som, eles querem acabar com a nossa cultura. Só que nunca vai acabar porque a gente tá aqui pra resistir. E a gente vê que essa abordagem é só na periferia porque na Praia dos playboys eles agem de uma forma diferente, mas nas comunidades já acham que somos bandidos”, desabafa o músico.

Resistência continua

As lideranças do Movimento Hip Hop de João Pessoa e os organizadores das mais de 10 batalhas de bairros que ocorrem na cidade afirmam que vão continuar na resistência contra o fascismo e o preconceito de classe. Em novembro último, na Batalha do Coqueiral, quatro jovens, três rapazes e uma mulher, foram presos acusados apenas de perturbação da ordem, no entanto sofreram muita tortura e agressões, tanto na praça, em frente a todos os presentes, como na delegacia: foram soltos apenas no dia seguinte. Já no final da batalha do Valentina, a polícia destilou o ódio, preconceito e a truculência, com armas de tortura, e ainda puseram fogo para incriminar o pessoal do evento. Os organizadores afirmam que vêm sofrendo ameaças, algumas até de morte. A mãe de um deles foi abordada e teve uma arma apontada para si, com o intuito de mandar um recado para o seu filho: “é um monte de vagabundo e de r*ga que estão se juntando para fazer baderna e a polícia tem que acabar com isso”, eles falaram para a senhora.

A batalha do Valentina tem mais de quatro anos de existência. Haiana Bronzeado, 19 anos,  estudante de direito da UFPB, acredita que é o local ideal para reunir a cultura marginalizada: “vocês se identifica com as pessoas que estão ali porque elas gostam de se reunir para poder falar e ouvir poesia, e entender a cultura. O que não entendo é porque existe tanto preconceito uma coisa bonita, do povo; não tem porque tanto alarde é um ato popular”.

“Eu não tenho medo de vir para as batalhas porque eu faço música, vivo de música, do rap desde 2010 sempre criando melodia; a música tira as pessoas do crime e abre mais a mente e não tenho medo porque somos a resistência”, afirma  João Cavalcante, vítima da polícia, pós Batalha do Valentina.

Edição: Cida Alves / Heloisa de Sousa