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Aulas adiadas em MG: como fica o cuidado com as crianças?

De acordo com pesquisadora, mudanças nas rotinas das mães é uma questão sempre desconsiderada pelos gestores públicos

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Orientação para que as prefeituras adiassem as aulas foi definida em assembleia geral da Associação Mineira de Municípios (AMM) / Foto: Marcos Santos

Além de evidenciar a crise financeira do estado, o adiamento das aulas das escolas municipais em algumas cidades mineiras levanta a questão sobre o cuidado com as crianças nas férias. A rotina das mães é diretamente impactada, visto que ainda são as mulheres as principais responsáveis pela criação dos filhos.

Em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, de acordo com informações da página da Prefeitura, as aulas das escolas do município só retornam depois do carnaval, no dia 11 de março. A previsão era que o ano letivo tivesse início na última quinta-feira (7). Mesmo assim, a notícia ainda corre como boato na cidade. “É a coisa mais esquisita. É para ficar observando na televisão, mas acho que eles não têm planos de voltar antes”, desabafa Tatiana Aparecida de Jesus.

Mãe solo de dois filhos, Tatiana, que é auxiliar veterinária e babá pet, conta que sua filha caçula de 11 anos vai começar o quinto ano em uma escola municipal. Com a ampliação das férias da filha, ela se sente aliviada por contar com o apoio da mãe. “Graças a Deus que eu tenho a minha mãe, porque eu vou trabalhar e ela fica com minha filha. Mas muitas mães não têm, muitas são solteiras e aí tem que procurar babá, porque não tem onde deixar a criança”, relata.

A psicopedagoga Sara Aparecida Alves Pereira, também moradora de Uberlândia, conta que sua rotina muda durante as férias das suas duas filhas, uma de 10 e outra de 7 anos, ambas estudantes da rede municipal. “Minha rotina muda, porque os trabalhos que eu executo é quando elas estão na escola, principalmente porque uma delas é especial. Quando ela está na escola eu sei que ela está segura, com os profissionais que cuidam dela”, conta. Sara é mãe solo e atende em domicílio crianças autistas e durante as férias das suas filhas, suspende completamente suas atividades.  

Questão estrutural

Marlise Matos, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa Sobre a Mulher (Nepem), da Universidade Federal de Minas Gerais, explica que existem muitas questões que estão vinculadas ao calendário escolar e o problema não se resume ao orçamento. Para a pesquisadora, as mudanças nas rotinas das mães e quem cuida dos filhos são sempre desconsideradas pelos gestores públicos.

“Ninguém discorda de adiar as aulas por causa de uma crise financeira, mas o ônus disso fica na conta das mulheres. Os governos, as prefeituras tomam decisões que incidem no cotidiano da vida das mulheres, porque são elas que cuidam. Não pensam soluções porque é quase automático que as mulheres é que vão ter que se virar mesmo”, afirma.

Dívida com municípios

A orientação para que as prefeituras adiassem as aulas foi definida em assembleia geral da Associação Mineira de Municípios (AMM), ocorrida no dia 21 de janeiro. Os cerca de 400 prefeitos presentes decidiram por condicionar a volta às aulas ao pagamento do transporte escolar e à regularização dos repasses de 2019. A AMM não possui o levantamento de quantos municípios aderiram à decisão.

Segundo a Associação, a dívida do Estado com os municípios mineiros já ultrapassa os R$ 12 bilhões.

Por que “mãe solo”?

Essa denominação diz respeito às mães que cuidam, amam, educam e, geralmente, são as únicas responsáveis pelos filhos. Ser mãe não tem nada a ver com estado civil, ou seja, a mulher que tem filhos pode ser divorciada, solteira ou estar namorando. Usar o termo “mãe solteira” pode soar preconceituoso, por remeter aos tempos em que ser mãe e não ser casada era um motivo de vergonha.

Edição: Elis Almeida