Incêndio Ninho do Urubu

PAPO ESPORTIVO | Sobre incêndios e sonhos destruídos

Muito difícil não se enxergar em cada um daqueles jovens. Ou nos pais e amigos deles. Poderia ser um de nós ali

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Quantas vidas foram levadas por terra, água, ar e fogo em situações que poderiam ter sido evitadas? / Staff Images / Flamengo

Ainda é muito difícil encontrar palavras para descrever os acontecimentos da última sexta-feira (8). Talvez por se tratarem de dez jovens que tiveram seus sonhos queimados por uma fatalidade sem precedentes. Ou talvez por conta da negligência que causou essa fatalidade. De qualquer maneira, o incêndio nos alojamentos do Ninho do Urubu mexe com o coração de qualquer um. Até de que não gosta de esportes.

Famílias choram. Amigos lamentam. Autoridades procuram culpados. O Flamengo (dono do CT) se defende. E a imprensa investiga. Mas nada disso vai apagar o que aconteceu no dia 8 de fevereiro de 2019. E é exatamente por isso que precisamos refletir. Por mais que machuque, por mais que incomode, por mais que revolte.

Tentem se imaginar com 14, 15 anos de idade. Todos nós tínhamos sonhos. Queríamos ser astronautas, médicos, engenheiros, professores, tocar guitarra na televisão. Ser jogador de futebol. Ser um Romário, um Zico, um Pelé, um Cristiano Ronaldo ou um Messi. Uma Marta, uma Pretinha, uma Mia Hamm ou uma Hope Solo. Trabalhamos e fizemos sacrifícios por esses sonhos. Realizamos alguns, deixamos outros de lado. Prioridades mudam. Mas o desejo de ser feliz continua por lá, em algum canto do nosso coração.

Muito difícil não se enxergar em cada um daqueles jovens. Ou nos pais e amigos deles. Poderia ser um de nós. Ou um de nossos filhos. Ou um de nossos amigos. Sonhos que foram destruídos pelo fogo da negligência e pela cultura do “jeitinho”.

Conforme as notícias foram saindo (junto com as notas oficiais e pronunciamentos de todos os envolvidos), a sensação que ficou é que está todo mundo tentando “tirar o seu da reta”, como dizem por aí. O Flamengo afirma que estava dentro da lei. A Prefeitura, por sua vez, apontou irregularidades. A imprensa desenterrou multas não pagas. E o Ministério Público determinou bloqueios de verbas. Essa situação nos mostra duas características da nossa sociedade que precisam ser combatidas o quanto antes. A primeira é a mania de só se consertar a fechadura da porta depois que ela foi arrombada. E a segunda é a cultura do “jeitinho”. Uma está ligada à outra.

Quem acompanha o esporte há algum tempo deve saber que empatia nunca foi o forte dos nossos dirigentes. Ao mesmo tempo, prevenção também nunca foi o objetivo principal de certas pessoas que estão no poder público. Falta empatia para enxergar em cada um daqueles jovens alguém que poderia ser ligado a nós. Fazer aos outros aquilo que gostaríamos que fizessem conosco. Ou com um daqueles que amamos. Esse é o princípio que deveria nortear toda a sociedade. Mas estamos tomados pela cultura do “jeitinho”. Nos orgulhamos das nossas gambiarras e dos nossos “esquemas”. Se puder tirar uma grana daqui ou dali a gente tira. E não tem poder público que nos impeça. Por mais que as leis estejam ali.

Preferimos forjar laudos de segurança, jogar o lixo em qualquer lugar e fazer “gambiarras” do que agir certo. Preferimos receber um qualquer aqui e ali do que fazer nosso trabalho corretamente. Nos vendemos por qualquer trocado ou vantagem. Amigo, deixa eu falar bem alto pra você: A NOSSA CORRUPÇÃO DIÁRIA MATA. Vejam a Boate Kiss. Vejam Mariana. Vejam a queda do avião com a delegação da Chapecoense. Vejam Brumadinho. Vejam as enchentes aqui no Rio de Janeiro. Vejam o incêndio no Ninho do Urubu. Vejam todas as outras tragédias só desses últimos 10 anos. Quantas vidas foram levadas por terra, água, ar e fogo em situações que poderiam ter sido evitadas?

Será muito complicado falar de esportes por um bom tempo. A lembrança vai continuar viva em cada toque na bola, em cada gol marcado e em cada jovem que entrar em qualquer categoria de base de qualquer clube do país.

Mais empatia e menos gambiarras. Pelo amor de Deus.

Edição: Brasil de Fato (RJ)