Pinhões

Comunidade conta suas próprias histórias em livro

Quilombo surgiu em Santa Luzia há mais de 300 anos

Uma das comunidades mais antigas de Minas conta suas próprias histórias em um livro. O material é fruto do projeto “Histórias e sabedorias do quilombo”, realizado pela Associação Cultural das Mulheres Quilombolas de Pinhões, com recursos da Lei Estadual de Incentivo à Cultura captados junto à Cemig.

A antropóloga Lúnia Dias, coordenadora do projeto, conta que o livro foi construído de maneira dialógica pelos próprios quilombolas, com auxílio da equipe do projeto. Jovens da comunidade tiveram oficinas de produção de fotografia, elaboração de roteiro e rap. Eles também conduziram as entrevistas, feitas com pessoas indicadas pela associação comunitária.

“Na composição do material final, tentamos ser fieis à linguagem falada. Na medida em que você lê o livro, você vai conversando. Dá para sentir o diálogo. É uma ‘transcriação’, que cria a escrita a partir da linguagem falada, do modo como cada um falou, com falas de todos os envolvidos, definidas em reuniões com a própria associação”, comenta a antropóloga.

Com tiragem de mil exemplares, está sendo distribuído gratuitamente aos autores, participantes dos eventos de lançamento, 26 escolas quilombolas de Minas Gerais, associações quilombolas da Região Metropolitana e à Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais – N' Golo. “Vamos ter que angariar recursos para uma segunda edição, pois outras pessoas querem. Essa tiragem não alcança toda a potência que o livro trouxe”, prevê Lúnia Dias.

Séculos de vida, trabalho e cultura

A Comunidade Quilombola de Pinhões fica no município de Santa Luzia, Região Metropolitana. O grupo surgiu há cerca de 300 anos, quando cinco famílias de trabalhadores escravizados das fazendas de Bicas e Macaúbas se instalaram no lugar onde fica o quilombo. “Eles foram constituindo família, vivendo de plantações, criação de animais, artesanato, fazendo panelas de barro, além de tropas de bois e cavalos para levar alimentos para vender e trazer lenha”, conta a quilombola Sônia Aparecida Araújo.

Atualmente as 400 famílias da comunidade contam entre outras atividades, com o trabalho de lavadeiras, paneleiras e balaieiras que, há mais de um século, vendem hortaliças, doces e quitandas no bairro Floresta, região Leste de BH. No quilombo, há duas guardas de Congado: a Guarda de Congo do Divino Espirito Santo, constituída por mulheres, e o Catopé da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, com cerca de 100 homens entre 3 e 80 anos de idade.

“O projeto é importante porque representa para a gente um resgate da nossa própria história, contada pelos próprios moradores. Até então, tínhamos relatos de pessoas que iam à comunidade. Nós somos remanescentes quilombolas. Então, como há resistência de algumas pessoas, pois as opiniões divergem e há uma dificuldade de entender a própria história, nada melhor do que começar contar, pelos próprios anciões, a história do lugarejo”, avalia Sônia.

Editado por: Elis Almeida

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