Comunicação

Editorial | “Grande mídia” não é nome, é confete

O termo traz consigo um juízo de valor problemático: o que é grande é bom, relevante, importante, sério

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Os maiores meios de comunicação estão nas mãos de alguns poucos muito ricos / Jason Bolonski | Flickr

Tem crescido na sociedade a discussão sobre a influência dos meios de comunicação na vida das pessoas. Desde que existe, a mídia - o conjunto desses meios de comunicação - atua como um ator político, em que escolhe o que terá ou não destaque e como determinados assuntos serão ou não tratados. Ou seja, um veículo de informação, a partir de sua linha editorial, pode escolher, por exemplo, se uma greve é ou não é notícia. Se decidir que é, pode encarar esse assunto do ponto de vista do patrão ou do trabalhador. Pode decidir ouvir apenas quem se sentiu prejudicado por esse evento. Pode, em linhas bem gerais, ter uma abordagem positiva ou negativa. 

Além disso, os instrumentos de informação e entretenimento (os dois são parte da comunicação) – sejam eles em papel, áudio, TV ou internet – são caros e precisam de muito trabalho e muitos recursos, quanto mais para terem um alcance efetivamente massivo, isto é, chegarem a milhares ou milhões de pessoas. Isso faz com que grandes grupos econômicos ou pessoas com muito dinheiro exerçam um enorme controle sobre esses aparatos. Os maiores meios de comunicação estão nas mãos de alguns poucos muito ricos.

Comumente, chamamos esses instrumentos de “grande mídia”. Efetivamente, são instrumentos de muito alcance e, à primeira vista, parece correto usar o adjetivo “grande”. No entanto, o termo traz consigo um juízo de valor problemático: o que é grande é bom, relevante, importante, sério. Assim, coletivos, organizações e pessoas que criticam o comportamento da mídia, mas a nomeiam dessa forma, acabam fazendo um elogio. Ao mesmo tempo, fica subentendido que o oposto de “grande” é “pequeno”, ou seja, qualquer oposição já é, de saída, desqualificada.

Mesmo o termo “alternativa”, aplicado a qualquer comunicação fora desses marcos, reforça o papel central ocupado pelos ditos “grandes”: é alternativa a alguma coisa; eles seguem sendo o referencial maior.

Não é à toa que vários jornais se autodenominam “profissionais”, desde que explodiu no Brasil o fenômeno das fake news. Frente a essa avalanche de boatos divulgados sem critério, apuração ou fontes de credibilidade, a mídia controlada por grandes proprietários chama para si o papel de portadora da verdade, aquela que faz um jornalismo “sério” ou “profissional”, em contraste com outras formas de divulgar notícias.

Note-se que, nessa chave, não apenas os mal-intencionados criadores de boatos e factoides são desqualificados. Todos os que produzem informação ou entretenimento – comunicação - fora da “grande” mídia são “antiprofissionais”, “artesanais”, pouco sérios. De um lado, estaria aquela mídia que faz jornalismo profissional, competente, relevante e de grande alcance. Do outro, o resto. 

Como não cair nessa armadilha?

Existem várias formas de se nomear a mídia: “hegemônica”, “familiar”, “tradicional”, “empresarial”, “nativa”, “privada”. Cada um desses termos – e outros – têm explicações fundamentadas e interessantes, que podem provocar boas reflexões e discussões. No entanto, exigem um conhecimento prévio que pode dificultar a compreensão imediata, fazendo com que, na linguagem coloquial e cotidiana, mesmo as pessoas mais críticas sigam usando o termo “grande mídia”.

Consideramos que o termo que mais se aproxima da caracterização precisa desse complexo de comunicação é “mídia burguesa”, pois deixa claro quem são os donos desses veículos e quais valores e interesses defendem. Ao delimitar assim, é possível gerar uma série de debates sobre o sentido e papel da mídia na reprodução da ordem social. No entanto, talvez um termo mais acessível e possível de levar para todos os espaços seja “mídia comercial”.

O que é comercial visa ao lucro, interessa mais vender do que qualquer coisa. O que é comercial é produto, mercadoria, não direito. O que é comercial tem dono. Assim, acreditamos que esse termo explicita o caráter privado e interessado das empresas que lidam com a informação como negócio. Defendemos e sugerimos que um dos dois termos seja utilizado no lugar do frequente e contraditório “grande mídia”.

E do lado de cá?

A comunicação fora dos marcos comerciais também tem muitos nomes: “alternativa”, “contra-hegemônica”, “nanica”, “independente”, “comunitária”, “pública” são alguns deles. Todos têm conceitos e características próprias e é fundamental conhecer e defender seu sentido.

No caso do Brasil de Fato, optamos pela nomenclatura “popular”, por compreender que este termo – em disputa – simboliza, do nosso ponto de vista, aquilo que é do povo, feito para atender seus interesses e construído pelo próprio povo organizado. O termo resume nossa linha editorial, que busca “uma visão popular do Brasil e do mundo”. Assim, contestamos o mito da imparcialidade e afirmamos que nosso lado é o da classe trabalhadora, do povo.

Edição: Brasil de Fato