EXECUÇÃO

Onze meses sem Marielle: interferência na investigação preocupa Anistia Internacional

“O que já foi divulgado sobre o caso levanta sérias questões sobre possíveis ilegalidades", afirma diretora da ONG

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Escadão em homenagem a Marielle Franco na zona oeste de São Paulo lembra sua frase: "Não serei interrompida!" / Foto: Change.org/Reprodução

Em 14 de março de 2018, a vereadora Marielle Franco e Anderson Gomes, seu motorista, foram brutalmente assassinados. Onze meses depois, não se sabe quem matou e quem mandou matá-los, assim como a motivação para o assassinato – por mais que seja evidente desde o dia zero a força e a importância da atuação política de Marielle no Complexo do Maré, no Rio de Janeiro.

Para marcar a data e seguir pressionando pela resolução do crime, a Anistia Internacional lançou nessa quarta-feira (13) o documento “O labirinto do caso Marielle Franco”, que aponta incoerências e o que se sabe sobre o tema.

“O que já foi divulgado publicamente sobre o caso levanta questões sérias sobre possíveis ilegalidades dentro de instituições de segurança no país, já que munições e armas de propriedade do Estado teriam sido desviadas. É de extrema preocupação que um lote de munição da Polícia Federal tenha sido desviado, usado em homicídios, e que depois de tanto tempo as autoridades não tenham dado uma explicação satisfatória”, afirma Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional.

A organização critica o fato de que, desde que se completaram cinco meses da investigação, os órgãos estatais responsáveis pela investigação seguem anunciando que o caso está próximo de sua conclusão, porém, quase um ano após o crime, isso nunca aconteceu.

O relatório elenca ainda alguns dos pontos mais preocupantes sobre o caso, elaborados a partir de informações divulgadas pelas autoridades e imprensa. Entre eles, estão “a falta de respostas sobre o desligamento das câmeras de segurança do local do crime dias antes do assassinato, o desaparecimento de submetralhadoras do arsenal da Polícia Civil do Rio de Janeiro e negligências no armazenamento do carro.”

“Em novembro do ano passado, o então ministro de Segurança Pública anunciou que a Polícia Federal iria investigar as investigações do assassinato de Marielle Franco diante de denúncias de que haveria um grupo organizado com participação de agentes do Estado agindo para interferir negativamente no andamento das investigações. Essa suspeita é grave e precisamos que as novas autoridades federais deem uma resposta à altura e que a gente saiba a conclusão da investigação aberta pela Polícia Federal”, solicita Werneck.

O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), que além de ser do mesmo partido, era amigo de Marielle, manifestou sua indignação nas redes sociais. “Onze meses sem Marielle. Não vamos sossegar enquanto este crime não for esclarecido. Foi um crime contra a democracia e que mundo inteiro se levantou contra. Mas, para nós, sempre vai ser mais do que isso. É um amor tirado de nós. Vi esta menina mudar o mundo, mudar o seu mundo. Acompanhei cada passo dela nos últimos 12 anos. Esta dor não tem como ser curada. Carregamos esta cicatriz, mas a justiça alivia e nos faz crer que esta dor não precisamos sentir mais”.

As últimas notícias sobre o caso apontam a forte suspeita de haver participação do grupo miliciano Escritório do Crime, da região do Rio das Pedras (RJ), no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, segundo informações do jornal O Globo.

Até novembro do ano passado, o senador e ex-deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) empregava em seu gabinete a esposa e a mãe do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como o comandante do Escritório do Crime.

Acesse aqui o documento da Anistia Internacional “O Labirinto do Caso Marielle Franco”.

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira