CONTRADIÇÃO

O carnaval é de quem?

Ao transformar o carnaval em modelo de negócios, governo e empresários afastam da festa o caráter de resistência popular

Brasil de Fato | Salvador (BA)

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“Essa dificuldade de patrocínio se deve principalmente pela forma que o poder público encara essas expressões negras", afirma Cristiano. / Alfredo Coutinho/ Governo da Bahia

“Uma foto da avenida no carnaval é o que é Salvador: um punhado de gente branca que está dentro de um espaço cercado de um mar de gente negra e que é protegido por gente negra - a que está na corda. Essa foto é a cara do carnaval racista e excludente que é hoje”. É com a dureza dessas palavras que Cristiano Lima, da Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN), sintetiza sua análise do carnaval de Salvador. O historiador resgata a origem dessa festa, que está diretamente ligada ao debate de classe e raça no Brasil. “Esse carnaval de rua é construído com a exclusão social dos negros. Eram os clubes que faziam a festa, mas os negros, pobres e excluídos, começaram a fazer essa festa na rua e se organizaram. Quando isso ganha corpo, quando a comunidade negra se unifica para participar disso, aí que a elite sai dos clubes e vai pra rua também, mas nunca de forma igual. É elitizando, é colocando corda - já na década de 70, 80 - que começa a se fazer uma disparidade”, afirma. 

A partir disso, o carnaval vira um modelo atrativo para investimento de empresários, que veem o festejo como uma oportunidade de lucro. “Com o passar dos anos, foram adicionadas inovações tecnológicas aos instrumentos elétricos originais, e grandes caixas de som, veículos cada vez maiores e projetos de engenharia e visuais tornaram-se comuns. As novidades exigiam grandes investimentos, e as organizações se firmaram em torno de estruturas profissionais. Organizações diversas (principalmente empresariais) começaram a atuar no carnaval em todo o Brasil, pois viram na exploração comercial da festa um grande nicho de mercado”, analisam Cristina Carvalho e Gustavo Madeiro em sua dissertação de mestrado “Carnaval, Mercado e Diferenciação Social” (UFPE, 2014).

Burocracia e falta de apoio excluem blocos de matriz africana 

Berço de inúmeros blocos afro, de samba e reggae que resgatam a cultura e história do povo negro, o carnaval de Salvador a cada ano se afasta das suas raízes. “Temos assistido uma extinção de um modelo incrível de manifestação popular e cultural que é o carnaval, especialmente no centro da cidade. A burocratização do acesso para as agremiações, para os blocos, tem sido muito dura e ao mesmo tempo excludente”, afirma Víviam Caroline, diretora de projetos da Didá, banda e bloco afro formado apenas por mulheres que existe desde 1993. “São pessoas que veem o Carnaval como um espaço de liberdade, de expressão popular, de alegria, como um espaço poético, político. E é muito confuso chocar essa sensação, esse desejo, com a burocracia”, ressalta. 

Uma das iniciativas do governo do estado para a valorização dos grupos de matrizes africanas e tradicionais é o Carnaval Ouro Negro. Na sua 12ª edição, o governo disponibilizou cerca de 5,9 milhões de reais para estabelecer parcerias com blocos afros, afoxés, grupos de samba, reggae e índio para o desfile na capital. Em 2018, 91 atrações desfilaram no Carnaval Ouro Negro, dentre elas grupos como o Ilê Aiyê, Olodum e Cortejo Afro. Víviam aponta a necessidade de direcionamento dos investimentos para maior retorno social. “O Carnaval Ouro Negro é bem importante, mas é necessário políticas de direcionamento. Porque os recursos de patrocínio de iniciativa privada, por exemplo, não são direcionados, não existe uma contrapartida social, e acho que políticas públicas deveriam ser criadas nesse sentido. As grandes cervejarias, bancos, eles não deveriam apoiar apenas os grandes nomes do carnaval. Precisaria existir uma política que direcionasse um percentual desses patrocínios para entidades de matriz africana, por exemplo, para os afoxés, para os sambas, essas iniciativas comunitárias”. 

“Essa dificuldade de patrocínio se deve principalmente pela forma que o poder público encara essas expressões negras e populares. Eles entendem que isso é um pedacinho do Carnaval, e não o âmbito central. A gente faz o debate de que essas representações negras não podem ser encaradas como uma entidade carnavalesca, puramente, porque a maior parte delas tem trabalho comunitário durante o ano inteiro. Quer dizer são entidades que constroem uma pauta com responsabilidade social”, salienta Cristiano.

Memórias e lutas por um carnaval mais plural

Víviam Caroline resgata da infância a memória de um carnaval mais democrático. “É lamentável ver a extinção do que era outrora um espaço onde de ponta a ponta aconteciam manifestações, como no centro da cidade, dos grandes e dos pequenos desfrutando o mesmo espaço. Hoje isso é tão restrito, a gente vê o Carnaval no centro da cidade completamente entristecido. Ou adormecido, espero eu, caso novas iniciativas de inclusão passem a ser criadas e eu possa rever imagens como eu vi na infância, de um dia inteiro de apresentações”. 

“A política de turismo e de carnaval implementada principalmente pela prefeitura de Salvador é literalmente racista, excludente”, denuncia Cristiano. Mas ele ressalta a força e a luta do povo negro, dos movimentos sociais e de cultura: “A gente continua fazendo a disputa racial, cultural, popular, contra o capital, o elitizado, o branco, o burguês, que vai tomando conta do Carnaval. Continuamos na resistência”.

 

Edição: Elen Carvalho