Coluna

Na luta pela saúde o dia dos/das enfermos/as

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A" implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) no início da década de 90 foi uma grande conquista da sociedade brasileira"
A" implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) no início da década de 90 foi uma grande conquista da sociedade brasileira" - ABRASCO
A saúde é um ideal a ser buscado cada dia

Embora a, cada ano, a ONU consagre o 07 de abril, como “dia mundial da saúde”, já desde os anos 90, é no 11 de fevereiro, festa da Virgem de Lourdes, que a Igreja Católica comemora o “Dia mundial do enfermo”. Não é ruim que haja duas datas anuais em que possamos recordar que saúde não é luxo nem artigo de comércio. É direito humano universal e necessidade de primeira categoria. Em um mundo no qual mais de um bilhão de pessoas sofre de extrema pobreza, agravada desde o início deste século XXI, a fome se torna epidemia e a saúde se transforma em algo quase inalcançável.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a saúde como “o estado de completo bem-estar físico, psíquico, mental e social”. De acordo com essa compreensão, a saúde consiste não apenas em não estar doente, mas em alcançar um equilíbrio de vida sadia. As religiões antigas chamavam isso de salvação, no sentido de plenitude da vida e da graça divina em nossas vidas. A diferença entre uma pessoa santa e uma pessoa sana (sadia) é apenas um t. Isso não liga doença e pecado, culpa ou erro pessoal. Recorda que saúde plena é a realização total da vida. A tradição afro-brasileira denomina esta energia de Axé.
Se se aplicar rigidamente a definição da OMS, ninguém pode-se considerar com plena saúde. Todos estamos continuamente na luta para vencer alguma fragilidade do corpo e do espírito que atenta contra o que seria a saúde profunda. Somos todos/as mais ou menos doentes. A saúde é um ideal a ser buscado cada dia.
No mundo moderno, os Estados assumiram que a saúde e sua proteção é direito humano. A sociedade tem obrigação de zelar pelo bem estar físico e psíquico de seus membros. Infelizmente, os governos de ideologia neoliberal decidiram diminuir ao máximo os encargos do Estado. O Banco Mundial defende que os investimentos na saúde têm dois tipos de serviço: os competitivos, passiveis de financiamento (por exemplo, campanhas de vacinação) e os discricionários, oferecidos à sociedade, de acordo com a capacidade de aquisição das pessoas. Isso significa que o cuidado com saúde tem de ser comprado. De fato, na maior parte dos países, como no Brasil atual, se multiplicam os planos privados. Vende-se saúde, como se fosse Coca-Cola.
A Constituição Brasileira estabelece que “saúde é direito de todos e dever do Estado”. Depois de uma longa luta dos movimentos populares, a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), no início da década de 90, foi uma grande conquista da sociedade brasileira. Poucos anos depois, o governo de Fernando Henrique Cardoso aprovou um plano de terceirização da saúde que só não destruiu totalmente o SUS, porque os movimentos sociais e comunidades lutaram muito para denunciá-lo e para garantir as conquistas da Constituição. A partir daí, em muitos Estados, os governos entregam a administração de hospitais públicos e até do Sistema de Saúde a organizações privadas, denominadas de organizações sociais. Estas recebem hospitais e equipamentos públicos. O Estado investe e gasta, mas é o setor privado que administra e lucra. Mesmo neste sistema iníquo, veem-se sinais e testemunhos de generosidade humana, amor gratuito e doação por parte de médicos/as, enfermeiros/as e agentes de saúde. Entretanto, é claro que o sistema privado só cuida da saúde se tem lucros e benefícios, pois essa é a sua natureza. Por isso, é importante que organizações da sociedade civil e de Igrejas se esforcem para chamar a atenção de todos para o cuidado com as pessoas doentes.
Neste 11 de fevereiro de 2019, a Igreja Católica celebra o XXVII Dia mundial do Doente que será celebrado de modo especial em Calcutá na Índia. Para essa celebração, por conhecer essa realidade de um mundo que tende a transformar tudo, até a saúde, em mercadoria o papa Francisco propôs o tema evangélico “Recebestes de graça, dai de graça” (Mt 10, 8).
Na carta publicada pelo papa para esse dia, o papa insiste em denunciar “a cultura do descarte e da indiferença”. Para contrabalançar essa realidade, pede que se coloque “a generosidade gratuita como paradigma capaz de desafiar o individualismo e a fragmentação social dos nossos dias e para promover novos vínculos e formas de cooperação humana”. Escreve ainda: “O cuidado dos doentes precisa de profissionalismo e ternura, assim como de gestos gratuitos, imediatos e simples, como uma carícia, pelos quais fazemos sentir ao outro que nos é «querido».
No Brasil, atualmente, parece que muita gente prefere escolher o ódio e a violência como caminhos sociais e políticos. Certamente, isso adoece. O papa tem razão ao lembrar: Só o amor cura e dá saúde.

Edição: Monyse Ravenna