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Na Chapada do Araripe, agricultores do Sítio Chico Gomes resistem com a cultura

A valorização das tradições a comunidade ajudou a reunir os moradores e moradoras para lutar pela terra

Brasil de Fato | Recife (PE)

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A tenda no meio da comunidade foi erguida para atividades culturais e momentos de cuidado, como as reuniões das mezinheiras / Vanessa Gonzaga

Localizado a 10km da cidade do Crato, logo abaixo da Chapada do Araripe, que abrange os estados de Pernambuco, Piauí e Ceará, está o Sítio Chico Gomes. Lá, 47 famílias vivem da produção de frutas, leguminosas e folhosas. Historicamente, há um conflito em relação a posse das terras. Manoel Leandro é educador e artista popular e explica a questão “A comunidade tem uma mistura de descendentes de índios e negros. Nós estamos lá desde sempre. Meu pai, avô, bisavô, tataravô, todos nasceram aqui. A cultura canavieira aqui foi muito forte, e aí os engenhos foram chegando e esse povo nativo foi subindo a serra pra fugir da opressão e da escravidão. Nossa comunidade é terra de conflito, assim como todo o semiárido brasileiro”.

Nos últimos anos, empreendimentos e grilagem de terras tem sido os principais temas de conflito, já que a construção da Transnordestina, a transposição do Rio São Francisco e a ameaça de construção de um aterro sanitário impactaram diretamente as comunidades da região. Com essa e outras questões, como a dificuldade de acesso à saúde, educação, cultura e lazer, diversos problemas sociais foram surgindo no Sítio. Foi nesse cenário que em 2006 surgiu o Grupo Urucongo de Artes, com jovens da comunidade para resgatar tradições como a música, dança e os saberes populares, como reforça Manoel “Nós nascemos como um grupo de jovens que veio para curar as dores da nossa comunidade com a arte”.

Até mesmo a escolha do nome do grupo se relaciona com seu motivo de surgimento. Urucongo era um dos nomes para o instrumento musical berimbau, que faz parte da cultura negra e de manifestações culturais como a capoeira. Como os colonizadores tinham dificuldade em pronunciar a palavra, o termo berimbau se popularizou e urucongo caiu em esquecimento. É essa a razão de existência do Grupo Urucongo: resgatar hábitos, tradições e aspectos da cultura negra e indígena que os colonizadores insistiram em apagar.

A primeira iniciativa do Urucongo foi fazer um resgate da história da comunidade a partir da tradição oral. Foi perguntando e ouvindo histórias dos mais velhos que foi possível reconstruir a história da comunidade desde a chegada dos primeiros engenhos na região. Foi desse primeiro momento que foi possível resgatar as canções feitas pelos agricultores e agricultoras; os festejos que tinham danças e ritmos como o xaxado, a quadrilha, o maculelê e o samba de coco; a produção de biojóias com pedras e materiais vindos da vegetação e a confecção dos instrumentos musicais usados nas apresentações. Além disso, o teatro e a declamação de poesias entraram como parte das manifestações culturais do grupo. Os roteiros eram feitos para levantar discussões sobre problemas da comunidade, como o êxodo rural, a marginalização e o desemprego.

Com o crescimento do grupo, frequentemente os jovens viajavam para cidades da região para fazer apresentações e oficinas. Juntos com eles, muitas vezes iam suas mães, para cuidar da organização do grupo. Com o tempo, os jovens perceberam que havia algo em comum entre elas, que poderia organizá-las em um objetivo comum. Foi em 2012 que o Grupo Urucongo reuniu várias mulheres da comunidade para conversar sobre algo comum na comunidade: as mezinhas, os tratamentos feitos com plantas, cascas e sementes para diversas doenças.

Foi com esse processo de resgate, cuidado e valorização da autoestima que a comunidade tem se reunido para resistir aos problemas históricos, como a questão da terra, que como explica Manoel, vem sendo resolvido “A gente ocupa essa terra com todos os elementos: a cultura, a produção agrícola, a arte. É a forma que encontramos de permanecer nesse chão. Iniciamos um diálogo com o Governo do Estado para o crédito fundiário. A comunidade acha que a forma menos conflituosa de lidar com esse conflito é via crédito. A gente com esse projeto vai comprar uma parte da terra que ainda não é nossa”, conclui.



*A repórter visitou a comunidade a convite da Articulação Semiárido Brasileiro

Edição: Monyse Ravena