América Latina

"Haverá reação dos povos contra as privatizações", diz vice-chanceler venezuelano

Em entrevista ao Brasil de Fato, William Castillo analisou situação de países da América Latina sob governos de direita

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

,
Vice-chanceler William Castillo em entrevista ao Brasil de Fato, durante a Assembleia Internacional dos Povos realizada em Caracas / José Eduardo Bernardes | Brasil de Fato

"Vão ocorrer reações populares muito importantes nos países que sofreram processos de privatizações e que possuem agendas privatizadoras, como Brasil, Argentina, Peru, Chile. Haverá uma resposta dos povos", disse em entrevista ao Brasil de Fato em Caracas, William Castillo, vice-ministro de Comunicação Internacional do Ministério do Poder Popular para as Relações Exteriores da Venezuela.

Castillo, presente na Assembleia Internacional dos Povos (AIP) que finalizou nesta quarta (27), denunciou a intensificação dos ataques do governo dos Estados Unidos à Venezuela. "Os Estados Unidos assumiram o confronto. Sempre tentaram fazê-lo através da oposição política, tentando vender ao mundo que há uma confrontação entre uma suposta ditadura e uma suposta oposição democrática. Já está claro para o mundo que há uma confrontação entre um país soberano e um império. Que o objetivo é o petróleo, o ouro, os recursos naturais. Que o segundo grande objetivo é controle político e geopolítico na Venezuela, e que o terceiro objetivo é destruir o projeto de igualdade, de socialismo e de inclusão da Revolução Bolivariana".

O vice-ministro comentou ainda a importância da realização da AIP, que contou com mais de 500 participantes representantes de 87 países: "É um evento de uma extraordinária importância (…) Não existe a possibilidade do socialismo em um só país. O socialismo tem que ser um processo de construção coletiva de reivindicação pelas vias democráticas, sem dúvida alguma, pelas vias eleitorais, mas que reconheçam a necessidade de projetos alternativos ao capitalismo. Se entendermos isso, e se entendermos que essa luta é global, acredito que estamos avançando na direção que os povos querem", destacou Castillo.

Confira a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: Vivemos uma batalha de ideias, temos falado com várias pessoas aqui na Assembleia e nos dizem: o que escutávamos sobre a Venezuela em nossos países não tem nada que ver com o que vimos aqui. Como você avalia esta ofensiva dos grandes meios de comunicação do mundo contra a Venezuela?

William Castillo: Estamos em um momento decisivo desta batalha política, diplomática e comunicacional. Como nós denunciamos, as estratégias, as campanhas midiáticas de notícias falsas e de desinformação acompanham as estratégias políticas. A comunicação é sempre uma variável derivada da política. Uma vez que tem sido definida uma política de assédio a um país, de destruição de um país, de derrubada de seu governo legítimo, é evidente que a linha midiática se alinha a objetivos comunicacionais desse grande objetivo político. 

Estamos precisamente em um momento de definições, porque essa campanha tem sido intensificada, já não se trata somente de grandes meios, grandes agências de notícias, com o posicionamento das matrizes de opinião. Não se trata somente de manipulação nas redes sociais. Isso agora foi ampliado com o chamado espaço das mensagens privadas, ou seja, campanhas que chegam no telefone pessoal das pessoas com relatórios, com falsas estatísticas, falsos fatos. E vimos isso no fim de semana, quando foi construída uma falsa narrativa, quando funcionários, traindo seu juramento militar, pegaram dois blindados na ponte fronteiriça Simón Bolívar, entre Colômbia e a Venezuela, e avançaram contra a população civil. Por sorte não houve mortos. Houve duas mulheres feridas, uma oficial da polícia e uma fotógrafa chilena que estava no lugar. Se isso tivesse acontecido, os civis mortos teriam sido apresentados como uma agressão da Venezuela à Colômbia. 

Além disso, após a contração de criminosos na Colômbia e no Brasil, também com a participação de delinquentes que foram levados da Venezuela, tentaram forçar a entrada violenta de caminhões na Venezuela. Foram contidos na fronteira pela força armada nacional, e eles mesmos, diante de seu fracasso, queimaram esses caminhões e apresentaram ao mundo a versão de que a Venezuela queimou a ajuda humanitária.

Hoje, quando se revisa o resto desses caminhões queimados foram encontrados pregos, cabos de aço. Um carregamento que nada tem a ver com ajuda humanitária. 

Por fim, entre domingo (24) e segunda-feira (25) um posto militar venezuelano, sob custódia de 20 soldados, teve que resistir durante várias horas, com uma desproporção de 3 para 1, conseguindo repelir os ataques dos paramilitares até chegar o reforço venezuelano. 

A partir desse momento a situação foi se acalmando. Hoje temos uma fronteira totalmente calma, mas tivemos essas três operações para tentar transmitir para o mundo a impressão de que a Venezuela estava agredindo a Colômbia e agredindo supostamente a ajuda humanitária.

Depois do fracasso que houve na fronteira nesta ação de intento de ingresso da suposta ajuda humanitária, o chamado Grupo de Lima se reuniu mais uma vez para tomar decisões a respeito do futuro da Venezuela. O que se pode dizer desta reunião? Quais foram as medidas? Houve alguma surpresa no que foi definido na reunião?

No final de semana, essa operação política, criminosa e midiática fracassou. E hoje foi a continuação desse fracasso. Porque eles vinham vendendo a expectativa de uma intervenção militar na Venezuela e essa possibilidade não ocorreu. O Grupo de Lima se opôs ao esboço de declaração que mencionava de forma clara a opção militar. [Essa opção] Foi rejeitada. Não está na declaração final nenhuma alusão a uma intervenção militar. O vice-presidente do Brasil acaba de declarar que o Brasil não apoiará nenhum uso de seu território para atacar a Venezuela. O chanceler do Uruguai acaba de declarar que não aceita nenhuma intervenção militar. Antes, a União Europeia havia se posicionado na mesma linha, de tal maneira que estamos vendo uma reação do mundo dizendo que não é possível, que é um absurdo pretender declarar guerra à Venezuela. 

Entretanto, em Lima, foi aprovada uma declaração que possui os mesmos elementos políticos. Mais cerco diplomático, mais sanções. Pedem o reconhecimento governo fantoche, ou desse suposto governo fantoche que quis instaurar Trump na Venezuela. Pediram a renúncia do presidente. E, além disso, praticamente disseram que eles convocarão eleições quando o fantoche decidir.

Hoje podemos dizer que o plano dos Estados Unidos sofreu uma derrota contundente no fim de semana e hoje foi derrotado também a tentativa de aumentar o intervencionismo no Grupo de Lima. Nós acreditamos que continuaremos recebendo o apoio maioritário dos povos do mundo.

O desencontro de informações obviamente gera muitas dúvidas nas pessoas. Muitos se perguntam: o que realmente está acontecendo na Venezuela e quais são os interesses por trás desses países que buscam intervir aqui?

A Venezuela está passando pelo ponto mais alto do processo de confrontação com o imperialismo norte-americano. Desde 1998, quando o comandante chegou ao poder, por meio de eleições, os Estados Unidos emitiram uma doutrina, inspirada nessa filosofia de mudança de regime, segundo a qual os Estados Unidos não permitiria uma segunda Cuba na Venezuela, e que qualquer governo que almeje valores socialistas, de igualdade, inclusão, um país soberano que recupere seus recursos naturais, deve passar por uma mudança de regime.

Estamos nessa batalha, a diferença é que ela aumentou em 2013 com a desaparição física do comandante Chávez. Os Estados Unidos intensificaram a campanha política, econômica e midiática contra a Venezuela. Estamos em um momento de inflexão, um momento decisivo dessa confrontação. O que é importante que o mundo e os povos reconheçam? Que os Estados Unidos assumiram o confronto. Sempre tentaram fazê-lo através da oposição política, tentando vender ao mundo que há uma confrontação entre uma suposta ditadura e uma suposta oposição democrática. Já está claro para o mundo que há uma confrontação entre um país soberano e um império. Que o objetivo é o petróleo, o ouro, os recursos naturais. Que o segundo grande objetivo é controle político e geopolítico na Venezuela, e que o terceiro objetivo é destruir o projeto de igualdade, de socialismo e de inclusão da Revolução Bolivariana.

Está claro para o mundo o que está em jogo na Venezuela. Por isso a Venezuela hoje é o centro da geopolítica mundial e por isso está em jogo na Venezuela, como disse o presidente Maduro, o futuro das relações da América Latina com os Estados Unidos. 

Se a Revolução Bolivariana é derrotada, teremos um novo ciclo colonialista, uma nova Doutrina Monroe, uma apropriação violenta dos nossos recursos naturais. Se a Venezuela, como vem fazendo, freando e triunfando sob a ofensiva imperialista, haverá espaço para a democracia, para os projetos populares, para os projetos que reivindicam os direitos sociais, a recuperação das riquezas naturais para os povos da América Latina, e a justiça social. 

Por isso é tão importante que nossos povos, nossos movimentos sociais, camponeses, indígenas, nossos estudantes reconheçam qual é o conflito que há na Venezuela. Creio que ficou evidente agora, porque os Estados Unidos disseram: "Sim, a briga é comigo". E é verdade, é a luta histórica entre a soberania, entre o sonho Bolivariano e as doutrinas neocoloniais dos Estados Unidos.

Nesse contexto, como vê a realização de um evento como esse, com 400 representantes de 85 países. É bastante representativa essa presença aqui na Venezuela precisamente nesse momento, não?

É um evento de uma extraordinária importância e que acontece neste momento transcendental de nossa história, e como disse, na historia da América Latina e da luta dos povos do mundo. 

Ter na Venezuela essa quantidade de representantes de sindicatos, grêmios, partidos políticos progressistas, movimentos feministas, movimentos de reivindicação do direito à terra, movimentos indígenas e camponeses, pessoas que reivindicam seu direito a existir como etnias, como nações, ter gente de toda a parte do mundo significa para a Venezuela uma contribuição importantíssima de identidade pelas lutas do povo do mundo. 

Nós queremos que a Venezuela hoje – e creio que é a opinião geral neste maravilhoso encontro –, constitua a principal trincheira de confrontação e de luta contra o imperialismo. Não havia um momento melhor para se realizar a Assembleia Internacional dos Povos do que este, onde fica muito evidente qual a confrontação que ocorre na Venezuela.

Para a Venezuela, e para os povos da América Latina e Caribe, para os povos africanos, do mundo árabe, para os próprios movimentos sociais na Europa que lutam para defender seus direitos sociais, seus direitos ao trabalho, esta é uma ocasião extraordinária poder compartilhar uma plataforma comum, uma agenda comum de luta para enfrentarmos realmente o capitalismo.

Não é possível, como muitas vezes disse o Comandante Chávez, que triunfe uma [só] revolução. Não existe esse mito da revolução em um só país, como já Lenin também demostrou. Não existe a possibilidade do socialismo em um só país. O socialismo tem que ser um processo de construção coletiva de reivindicação pelas vias democráticas, sem dúvida alguma, pelas vias eleitorais, mas que reconheçam a necessidade de projetos alternativos ao capitalismo. Se entendermos isso, e se entendermos que essa luta é global, acredito que estamos avançando na direção que os povos querem.

Qual é a estratégia que os povos organizados, que os movimentos sociais do mundo devem adotar em matéria de comunicação para prestar solidariedade à Venezuela e finalmente transmitir a realidade sobre o que ocorre aqui?

Existem três elementos transversais aos debates nestas assembleias. Para mim, os três são complementares. A agenda política, digamos, a ação política concreta - passar dos discursos para a ação - organizar uma agenda de luta no mundo, é fundamental. [O segundo] a investigação e a produção de saberes e conteúdos para os processos de transformação; a reflexão sobre nossas lutas e a construção de saber e conhecimentos para impulsionar essas lutas. E o terceiro é a comunicação, a articulação, a criação de redes que para mim tem dois níveis: o aproveitamento das redes virtuais e tecnológicas e a criação de novas articulações virtuais, utilizando as novas tecnologias.

Como vê o futuro da Venezuela, da América Latina a partir dessa organização, a partir dessas reflexões a respeito da comunicação e da criação das redes? 

O escritor argentino Julio Cortázar dizia que a esperança é a vida mesmo defendendo-se. O que ocorre nesta Assembleia Internacional dos Povos é um sinal de esperança. Os povos nunca deixaram de lugar. Nosso presidente tem dito que vem se erguendo uma onda social contra o neoliberalismo, contra essa tentativa de se recolonizar a América Latina, de disciplinar o "quintal" como dizem os americanos, que é o que está em jogo: golpe de Estado no Brasil, judicialização da política com Rafael Correa, com Cristina Fernandez [Kirchner], os ataques contra o presidente Evo Morales. Temos que defender a Bolívia, cobrir a Bolívia de solidariedade, de amor, de uma agenda política de defesa da revolução plurinacional da Bolívia, defender a Nicarágua, defender Cuba. Mas também defender as lutas de cada povo, dos movimentos sem terra, indígenas, ambientalistas, que estão lutando pelo resgate e a não-depredação da natureza, as lutas feministas contra o patriarcado impulsionado pelo modelo imperialista. 

Essa hora está chegando. Não é possível que, depois de uma década ganha, de uma década de avanços, onde os povos da América Latina e Caribe mostraram esperança, nos devolvam a escuridão. Nós acreditamos que vão ocorrer reações populares muito importantes nos países que sofreram processos de privatizações, que possuem agendas privatizadoras, como Brasil, Argentina, Peru, Chile. Haverá uma resposta dos povos. 

Essa articulação internacional vai ser um elemento fundamental para que sejam retomadas as lutas dos povos. Creio que a mensagem é de luta, é de esperança. Os povos nunca vão ser derrotados. Se nos articularmos, se nos unimos, se coordenamos melhor, temos certeza de que vamos conquistar cada dia mais espaço e vamos voltar a ser uma América Latina diversa, que poderá se integrar em um grande espaço geopolítico de integração e desenvolvimento dos povos. 

Edição: Mauro Ramos