Coluna

Quem foi Mandu Ladino?

Imagem de perfil do Colunista
27 de Fevereiro de 2019 às 07:00

Ouça o áudio:

Mandu Ladino é um nome que merece ser recuperado para a memória do povo brasileiro, especialmente dos povos indígenas / Fabio Pozzebom/Agência Brasil
Conseguiu unir vários povos indígenas para combater os brancos escravistas

Estive pensando nos heróis esquecidos da História do Brasil. São muitos, e alguns deles só são conhecidos nos locais onde viveram, ou nem isso. Há líderes indígenas que enfrentaram o domínio europeu já são reconhecidos pelo menos em seus estados, como é o caso de Sepé Tiaraju, no Rio Grande do Sul, e Ajuricaba, no Amazonas. Mas quem já ouviu falar de Mandu Ladino? Pois é. Quase ninguém. Talvez algum piauiense que esteja ouvindo. 

Por volta do ano 1700, ele era um menino de um povo de língua cariri chamado “índios abelhas”, porque conviviam muito bem com as abelhas da região, no Piauí, perto do rio Parnaíba. Nessa época, com a expansão da pecuária pelo sertão nordestino, a matança de índios virou rotina na região, para tomar suas terras. Esse menino e uma irmã viram sua aldeia ser exterminada. Mataram quase todo mundo, inclusive seus pais.

Ele tinha 12 anos e foi levado para uma missão religiosa dos capuchinhos, no Sertão da Paraíba. Lá, foi batizado com o nome de Mandu. 

Manuel era difícil pronunciar para os índios de língua tupi, e pronunciavam Mandu. Ele não era Tupi, mas os padres usavam essa língua, como uma espécie de língua geral. Na missão, aprendeu a falar português, daí passou a ser Mandu Ladino, pois ladino, além de sinônimo de esperto, é como os portugueses chamavam índios e negros que falavam português. 

Um dia chegou à missão um padre daqueles fanáticos, que consideram tudo da cultura indígena como coisa do demônio. E queimou objetos sagrados dos índios, obrigando todos eles a verem a destruição, sob a mira de armas.

À noite, a vingança: o padre viu também os objetos de suas crenças serem queimados como ele queimou os dos índios. A igreja, com as imagens dentro, foi incendiada.

Mandu fugiu com um grupo, em direção ao Piauí, para voltar à região de suas origens. O grupo foi perseguido, muitos morreram, e lá ele foi preso e escravizado. Rebelde, era muito torturado. 

E o morticínio de índios continuava, para dar lugar ao gado. Mas Mandu escapou da escravidão e conseguiu unir vários povos indígenas para combater os brancos escravistas, que ele odiava com muita razão. 

Ganhou várias batalhas, mas o poderio militar do colonizador acabou vencendo: ele foi morto enquanto atravessava a nado a foz do Parnaíba.

Mandu Ladino é um nome que merece ser recuperado para a memória do povo brasileiro, especialmente dos povos indígenas.

Edição: Júlia Rohden