Opinião

Editorial | Carnaval é força do povo

O samba carrega o sangue dos nossos ancestrais

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Como em outros tempos históricos, precisamos nos vestir de resistência / Foto: Cacá Lanari/Belotur

Nós somos fruto de uma longa história. Em nosso passado nefasto, gente era tratada como coisa. Já vivemos a situação de colônia, de ditadura. Depois veio a redemocratização e a esperança de ser um país soberano e mais justo. Sobrevivemos e chegamos ao que somos hoje. Nesse momento, com menos de dois meses de (des)governo de ultra direita, o presidente Bolsonaro passou vergonha internacional; apresentou uma proposta de destruição da Previdência; se subordinou aos Estados Unidos no ataque à soberania da Venezuela; e tem umas das menores aprovações desde Fernando Henrique Cardoso. 

Como em outros tempos históricos, precisamos nos vestir de resistência. Termos confiança no nosso povo brasileiro, que com sua força teve capacidade de se recuperar de tempos difíceis. Fazer da criatividade nossa arma. 

Essa criatividade e força criaram uma das maiores manifestações populares: o carnaval. Mistura do samba, dos batuques dos terreiros, do embalo do maxixe com a resistência do povo negro escravizado. Já dizia Nelson Sargento, “samba, negro, forte, destemido, foi duramente perseguido, na esquina, no botequim, no terreiro”. Samba que nasce dos morros, do povo que ainda não foi plenamente libertado. E sem espaço para viver, sobe as encostas das grandes cidades para construir suas casas e abrigar a família. Sobrevive à exploração, à falta de políticas públicas, indignados e desempregados.

Festa da resistência

Samba que foi perseguido e rotulado como vagabundagem. Mas dele nasce o carnaval com a força do povo nas ruas, contra as ditaduras e a falta de esperança, para construir a alegria e a liberdade para novos dias que virão. Carnaval hoje que também tem segregação, como regalias no camarote fechado, abadás exclusivos e mulatas vendidas para gringo. 

O carnaval e o samba carregam o sangue dos nossos ancestrais. Como o Pato N’água, morto pela ditadura, diretor da bateria da Vai-Vai, esquecido na história, artista de rua, artista do povo.

Ainda fazemos carnaval porque acreditamos na potência do batuque, na exaltação do povo, na criação do novo. Fazemos carnaval para estar na rua, ocupar a encruzilhada, festejar a tradição e acabar com a exploração. Fazemos carnaval e ele nos ensina que o povo conquistará sua liberdade e resgatará nossa democracia.

 

Edição: Elis Almeida