MILLENIAL DE DIREITA

Após um mês da eleição, programa do novo presidente de El Salvador ainda é obscuro

Analistas consideram que a eleição de Nayib Bukele, com uso intensivo da internet, é um fenômeno na política regional

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Bukele, que será o presidente mais jovem do país, se declara um "outsider" embora tenha sido candidato por um partido tradicional da direita / Foto: Divulgação

Nayib Bukele foi eleito presidente de El Salvador no dia 4 de fevereiro. Sua chegada ao poder, considerada por alguns analistas como um sinal de falência do bipartidarismo que organiza a política do país nas últimas duas décadas, é vista como um fenômeno replicado na eleição de outros países. Bukele, assim como Bolsonaro na eleição de 2018, não compareceu aos debates eleitorais e sua campanha se deu fundamentalmente através do uso das redes sociais. Seu programa de governo, por exemplo, foi apresentado através de uma transmissão online no Facebook. 

Com apenas 37 anos, o futuro presidente salvadorenho será o mais jovem mandatário do país centro-americano. Pelo seu perfil jovem, pertencente a uma família enriquecida e hiperconectado, é considerado um "millenial de direita", características encontradas em outras figuras da política na América Latina como, por exemplo, Juan Sartori, um empresário multimilionário de 38 anos e pré-candidato à presidência do Uruguai.

Embora seja possível traçar um perfil bem delineado da figura e trajetória de Bukele, o mesmo não pode ser dito de seu programa de governo e composição ministerial, que ainda desperta incertezas diante da ausência de declarações oficiais sobre o tema. 

Nesse contexto, analistas têm feito o esforço de pensar quais serão os desdobramentos da eleição de Bukele na política interna e externa do país e sua relação com a reorientação que a América Latina vem sofrendo nos últimos anos. 

Após um mês de sua eleição, apresentamos alguns dos pontos que ajudam a explicar o contexto salvadorenho e a ascensão de Bukele ao poder.  

Carreira relâmpago

Presidente mais jovem na história de El Salvador, Bukele foi eleito no dia 4 de de fevereiro com 53,78% dos votos, vencendo Carlos Callejja, da Aliança Republicana Nacionalista (Arena), que obteve 31,62%, e Hugo Martínez, representante de seu ex-partido, o governista Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN), que obteve 13,77% dos votos.

O presidente eleito, que assume o cargo oficialmente em 1º de junho, concorreu pela Grande Aliança pela Unidade Nacional (GANA), partido de direita com apenas nove anos de existência. A vitória colocou fim aos 30 anos de alternância presidencial entre o Arena (1989-2009) e a FMLN (2009-2019). 

A eleição do publicitário de 37 anos guarda algumas semelhanças com a que ocorreu no Brasil em 2018. Além de se lançar como uma suposta alternativa ao bipartidarismo histórico de El Salvador, entoando um discurso antipolítica, o então candidato se recusou a participar dos debates e contou com uma campanha pautada no combate à corrupção, quase inteiramente feita por meio de redes sociais. Sua composição ministerial e programa de governo, no entanto, permanecem obscuros. 

Embora tenha concorrido à presidência como um candidato não tradicional, a carreira de Bukele despontou a partir do interior da FMLN. Em 2012, o agora presidente eleito se tornou prefeito de Nuevo Cucatlán, ao vencer as eleições contra Álvaro Rodríguez, do Arena, que concorria à reeleição. No pleito, o então candidato financiou a própria campanha. Em 2015, ano em que ganhou maior projeção, foi eleito prefeito da capital de El Salvador, San Salvador, também pela FMLN.

Dois anos depois, Bukele foi acusado de agredir física e verbalmente Xochitl Marchelli, a líder de uma comuna de San Salvador e integrante da FMLN. Além de pesar sobre ele a acusação de agredir uma mulher, Bukele também dirigiu ofensas ao atual mandatário de El Salvador, Salvador Sánchez Cerén. 

Na ocasião, o partido justificou a expulsão de Bukele por ter realizado “atos difamatórios, caluniosos e injuriosos que danificam a imagem e a honra de uma pessoa membro ou militante do partido”. 

Após sua saída da FMLN, tentou se lançar às presidenciais pelo movimento Novas Ideias, financiado pela ONG estadunidense de mesmo nome, que tem uma de suas sedes em El Salvador. Cerca de 9 milhões de dólares foram injetados desde o início da campanha de Bukele. No entanto, o Novas Ideias não conseguiu assinaturas suficientes para se tornar um partido político. 

O então candidato tentou então concorrer pelo Centro Democrático (CD), de direita, mas o partido perdeu o registro ao não alcançar 50 mil votos durante as eleições legislativas de 2018. Depois do ocorrido, Bukele se filiou ao GANA e pode se candidatar às eleições. 

Projeções

Eleito em um pleito com a menor participação dos últimos anos, com quase 55% de abstenção, Bukele não é apoiado por nenhum partido político e ainda não houve nenhum pronunciamento oficial sobre as forças que formarão o gabinete do presidente.

Para analistas, devido à falta de apoio, Bukele enfrentará dificuldades e instabilidades para governar e pode acabar recorrendo às forças repressivas para conseguir aprovar suas política econômica.

Nas relações exteriores, as projeções se baseiam nas declarações e movimentações de Bukele quando candidato e indicam que, possivelmente, a política exterior do novo governo estará mais alinhada aos EUA, já que durante a campanha o presidente eleito se reuniu com a embaixadora do país e atualmente mantém um diálogo próximo com John Bolton, assessor de Segurança Nacional da Casa Branca.

Nos últimos anos, El Salvador restabeleceu relações com Cuba e China e reconheceu o Estado palestino, algo que era considerado uma dívida histórica, já que o país centro-americano é um dos que tem maior descendência palestina na região.

O pai de Nayib Bukele, Armando Bukele Kattán, foi um dos expoentes da causa palestina no país, e seu irmão, Yamil Bukele, herdou a causa do pai.

Analistas consideram que, diante das origens de Bukele e de sua aproximação com EUA, não é possível definir qual será sua posição diante da pressão do país norte-americano de exigir que os alinhados mudem suas embaixadas de Tel Aviv para Jerusalém.

Em relação à Venezuela, Bukele já expressou, mais de uma vez, que não reconhece o governo do presidente eleito, Nicolás Maduro, e é provável que seu alinhamento a Washington se desdobre no apoio a sanções políticas e econômicas impostas ao país sul-americano e no reconhecimento do autoproclamado presidente Juan Guaidó como seu representante.

Bipartidarismo

Segundo especialistas, a projeção de Bukele cresceu a partir do esgotamento do bipartidarismo que ocorre em El Salvador desde a assinatura dos acordos de paz ao final da Guerra Civil, em 1992, após 12 anos de uma disputa entre grupos paramilitares de extrema direita – com um discurso sustentado por partidos com ramificações fascistas como o Arena – e a então guerrilheira Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), de esquerda.

Com a assinatura dos Acordos de Paz de Chapultepc, após os diálogos, a FMLN se transformou em um partido político. De lá para cá, Arena e FMLN se converteram nas principais forças políticas do país até esta última eleição.

Uma das análises possíveis é a de que, mais do que a chegada de Bukele ao poder através de propostas genéricas, o pleito de fevereiro representa a vitória do esgotamento do bipartidarismo e uma tentativa de punição à FMLN e à esquerda em geral, fenômeno observado também em outros países da América Latina.

*Com informações da HispanTV.

Edição: Luiza Mançano