Março das Mulheres | Uma nova geração de mulheres está mudando a música brasileira

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Lídia, Nataly, Vitória, Ariadne, Bruna Duarte e Bruna Black formam o grupo musical As Despejadas
Lídia, Nataly, Vitória, Ariadne, Bruna Duarte e Bruna Black formam o grupo musical As Despejadas - Camila Rhodes
"Quando se é uma artista independente, é preciso pensar como viver na indústria"

A produção de artistas feministas vem tomando aos poucos espaço na indústria musical através de muita luta, projetos e levantes populares que demandam a voz da mulher como protagonista e precursora da história de nossa sociedade.  

São temáticas que abrangem a diversidade tanto no estilo musical, quanto no ser mulher. Mulheres periféricas, nordestinas, negras, trans, indígenas, gordas e lgbt+ apresentam suas vivências com originalidade para construir um novo cenário na música popular brasileira.

As despejadas

Um grupo musical da periferia de Guarulhos traz a música como ferramenta de transformação social. Formado por Lídia, Nataly, Vitória, Ariadne, Bruna Duarte e Bruna Black, as Despejadas surgiu com a ideia de transformar a história de mulheres jovens e de baixa renda, que cantam sobre como é viver numa sociedade que mata por gênero, religião, cor e classe social.

Vitoria Silva explica que aprendeu a ver em mulheres inspiradoras a resistência contra a violência cotidiana, transformando a vivência de um grupo de seis mulheres de periferia em poesia.

"As músicas que a gente costumava ouvir era sempre no ponto de vista do homem ou do romantismo e a gente não se sentia tão representada nas letras, o que vivíamos, toda violência cotidiana que infelizmente é comum a todas as mulheres", conta a vocalista do grupo.

"A questão de não se sentir segura, a questão do assédio por exemplo e a todo momento somos inferiorizadas. Somos silenciada nos espaços e queríamos compor uma música que cantasse a nossa vida, a nossa realidade", explica Vitória.

A vocalista conta sobre a primeira composição das Despejadas, intitulada "Sou Frida". A música representa muito o lugar da onde a gente veio que é a periferia e as nossas referências, é o mundo sobre a perspectiva de uma mulher jovem que sofre cotidianamente, Sou Frida tem trechos que abraça várias religiões, que fala: Sou dandara, sou Maria, Iemanjá e filhas da resistência", afirma.

"Com as referências femininas vimos a força nessas mulheres, e como a gente também era forte", acrescenta.

Para além de cantoras, MC's, rappers, performers e instrumentistas, há uma busca por visibilidade no cenário da indústria musical. São mulheres profissionais, que produzem e possuem técnica, dirigem e distribuem.

Nayra Lays 

Imagem: Evelyn Kosta

De maneira cativante, a cantora, compositora e MC, Nayra Lays 21, nascida e criada no Grajaú, zona sul de São Paulo , retrata em suas letras a perspectiva de se descobrir como mulher negra através de um som sensível e que ajuda a revelar sua espiritualidade. "Depois que me descobri como uma mulher negra, tudo foi se voltando para temáticas da vivências como uma mulher negra", conta a MC.

"O Orí foi meu primeiro EP, lançado em 2017 e é sobre uma espiritualidade que parte do povo preto, de uma negritude e principalmente de uma energia feminina negra. Muito do que eu escrevo hoje é reflexo dessa minha descoberta espiritual a partir desse olhar preto, que tem muito mais a ver com religiões de matriz africana, mesmo eu não tendo uma ligação direta com nenhuma religião. Através da música me desvinculei de vários preconceitos construídos em mim", explica Nayra.

Cantoras e  produtoras musicais  buscam ainda mais manifestar a arte que inspira  mulheres a se sentirem potentes com seu próprio corpo e representadas por sua  cor, orientação sexual, território, identidade, tamanho, idade e forma.

Camila Garófalo - Mulher na música - SÊLA

Imagem: Camila Garófalo - Camarim (clipe oficial)

Camila Garófalo 29, é cantora, produtora, compositora e jornalista. Ela criou uma plataforma de música que posteriormente se tornou um selo musical dedicado ao público feminino.

O projeto, intitulado Sêla, tem como objetivo integrar artistas na indústria musical e encontrar um universo de possibilidades compartilhável. A Sêla produziu em 2017 a primeira edição do festival que defendeu o protagonismo feminino, e que contemplou artistas mulheres em sua diversidade étnica, geográfica e de identidade de gênero.

Nasceu ali uma aliança entre mulheres na música que trocam contatos e experiências, dividem palcos e desmistificam a ideia de concorrência entre si.

"A Sêla é uma plataforma de música que atua em diversos setores, mas que está além disso. Temos um braço digital inclusive para produzir conteúdo digital que é o Mulhernamúsica.com.br", conta Camila.

"Nós temos serviços que envolvem todas as etapas da cadeia produtiva da mulher na música, oferecendo assessoria de imprensa, consultoria, produção de campo, técnica de som, rodagem, todos esses serviços. A sela articula com as mulheres que atuam também em todos esses outros serviços", declara.

Camila conta que a Sêla se posiciona como um selo trans-feminista e valoriza as etapas da cadeia produtiva da mulher na música "O ideal, é que a gente olhe pra todas essas etapas da cadeia produtiva, para mixadoras, as masterizadoras, a cenografia, porque que as pessoas têm dificuldade em legitimar as mulheres nessas áreas. Precisamos dar o protagonismo pra mulher na música, mas não só quando ela está com o microfone na mão", afirma a compositora.

Neste sábado, dia 10 de março, acontece o evento da Woman`s Music Event no Centro Cultural do Grajaú sobre a profissionalização das mulheres na música com a participação de Nayra Lays, Raquel Virginia das Bahias e a cozinha Mineira e mais.

Imagem: Woman`s Music Event

As expressões artísticas feministas mostram, em variadas facetas, como a sociedade brasileira está baseada em um cenário genocida da população feminina, negra, periférica, trans e feminista.

A cada dia, elas conquistam um espaço maior na música, mas a luta continua. Ainda que o caminho possa ser mais difícil para algumas mulheres, projetos que visam corrigir este cenário estão mudando aos poucos a ausência de representatividade na música.

Essa matéria faz parte do especial Março das Mulheres, produzido pelo Brasil de Fato. 
 

Edição: Guilherme Henrique