Feminismo

Motoristas rodoviárias mostram os caminhos e lições para vencer o preconceito

Mulheres pioneiras na profissão dividem seu tempo entre trabalho, cuidado com filhos, família e sindicalismo

Especial para o Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Conheça Áurea e Sarita, mulheres pioneiras em uma área dominada por homens / Foto: Luciano Gonçalves

Enfrentar as diversas formas de manifestação do machismo na sociedade brasileira nunca foi uma tarefa fácil. Mais difícil ainda é ser pioneira em uma área dominada por homens, como é o caso de Áurea de Freitas da Silva, de 72 anos, e Sarita Passarelli Maciel Ribeiro, de 39 anos. Enquanto Tia Áurea, como é conhecida no meio, foi a primeira mulher motorista de ônibus coletivo de Minas Gerais, na década de 1980; Sarita, em 2013, realizou o sonho de ser motorista de ônibus em São João Del Rei, no Campo das Vertentes, função nunca antes ocupada por uma mulher na cidade. Mas o pioneirismo dela não parou por aí.

Atualmente, Sarita preside o Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de São João Del Rei (SINTTROREI). O Sindicato é filiado à Federação dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Minas Gerais (FETTROMINAS), entidade fundada em 1961 e que tem 41 sindicatos de rodoviários filiados com idade semelhante ao da Federação. Essa é a primeira vez que uma mulher ocupa o posto de presidenta.  

Desde criança, o sonho de ser motorista

Sarita assumiu o cargo em outubro de 2018, após o falecimento do então presidente Inácio José de Carvalho. De lá para cá muita coisa mudou na vida da motorista sindicalista que, quando criança, trocava as bonecas pelos carrinhos e, ao entrar para o sistema de transporte em 2007, o objetivo sempre foi o de ser motorista. Função que ela continua cumprindo todas as manhãs na linha 8460 (Hospital), mesmo diante das atribuições relacionadas à gestão do sindicato. Além de motorista e sindicalista, Sarita exerce o papel de mãe e pai dos dois filhos, já que se tornou viúva aos 28 anos. Além disso, ainda precisa cuidar da casa e do pai, acometido pelo mal de Alzheimer.

Para ela, ocupar a presidência de forma tão inesperada foi um susto, mas que, aos poucos e com o apoio das pessoas, já se sente confortável na função. “Foi muito difícil no início, tanto por ser uma novidade na minha vida quanto pela responsabilidade de substituir o Sr. Inácio, que sempre desenvolveu um grande trabalho. Mas apesar das dificuldades, recebi muito apoio dos funcionários do Sindicato, da FETTROMINAS e, principalmente, da categoria, razões pelas quais sigo em frente buscando fazer o melhor para a classe trabalhadora”, afirma.   

Entre as principais bandeiras à frente do Sindicato, Sarita entende que a prioridade no momento é a redução da jornada. “Iremos brigar muito pelo 3º turno em linhas de grande demanda. A atual carga horária de 7h20 é muito penosa para os trabalhadores. Além disso, em função dos horários de almoço e jantar, o tempo que o trabalhador fica à disposição da empresa impede um descanso devido”, defende.   

Política de gênero

No caso de Sarita, as obrigações e a ausência de referência na profissão escolhida não a impediram de seguir em frente. Mas segundo a cientista social Micaella Kiane de Oliveira Mendes, a política de gênero sempre existiu no Brasil, definindo de forma arbitrária o papel da mulher na sociedade, limitando ao longo dos anos o ingresso do púbico feminino em profissões historicamente dominadas por homens.

“Acredito que estamos caminhando para igualdade de gênero, porém encontramos muitas dificuldades, principalmente no mercado de trabalho. A política de gênero neste caso é primordial para superar as desigualdades de salários, ocupações e reconhecimento. Mas se deparam com limitações como o machismo e a crença limitante de separar trabalho de homem e trabalho de mulher. Avançamos quando mulheres passam a ocupar profissões entendidas como masculinas e espaços nunca antes ocupados por elas”, pontua.

Primeira motorista de Minas

Se hoje mesmo com a voz amplificada as mulheres ainda precisam lidar com o preconceito no mercado de trabalho, imagina ser a primeira motorista em uma época de profunda repressão. Foi o caso de Tia Áurea, que aos 72 anos se orgulha do passado e reconhece a importância que teve naquela época. “Comecei a dirigir com 12 anos de idade. Era uma questão de sobrevivência. Precisava fazer o transporte de carga de Divinópolis a Belo Horizonte para ajudar a família, ainda na década de 1970. No início dos anos 1980, trabalhei com carteira assinada em transportadoras e no transporte coletivo em Belo Horizonte, em uma época que não existiam mulheres nesse setor. Nunca me intimidei e sabia fazer muito bem o meu papel”, conta.

Famosa entre os rodoviários, ela conta com satisfação o respeito que conquistou e a importância que o movimento sindical teve na sua vida. “Hoje sou reconhecida em todo lugar que vou. Não apenas por ser a primeira motorista mulher de Minas Gerais, mas também pela atuação que desempenhei junto ao Sindicato dos Rodoviários de BH como diretora, delegada e apoiadora do STTRBH. Cresci como pessoa e fiz muito pela categoria”, lembra.

Histórias como de Áurea e Sarita deveriam chamar atenção apenas pela capacidade de superação e a força de mulheres que enfrentaram diversos obstáculos na busca de sonhos e objetivos. Porém, elas fazem parte de uma exceção tanto no sistema de transporte como no movimento sindical. Uma realidade que segundo o presidente da FETTROMINAS, Ronaldo Batista, precisa mudar. “É gratificante receber a Sarita como a primeira presidente de um Sindicato de Rodoviários no estado, mas não podemos parar por aí. Temos que gerar mecanismos para quebrar o preconceito e fazer desse meio um lugar verdadeiramente democrático”, aponta. 

Rendimento de mulheres é ¼ menor que dos homens

A posição da mulher na sociedade, no mercado de trabalho e até mesmo dentro da família vem sofrendo mudanças significativas, como indicam pesquisas voltadas para o tema. Mesmo assim, existe ainda uma grande disparidade quando se compara com a situação vivida pelos homens. 

Seja no conjunto da população, seja no universo do trabalho, as mulheres são mais escolarizadas do que eles, mas o rendimento médio delas equivale a cerca de ¾ do rendimento dos homens – é o que mostra dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de junho de 2018. Além disso, no Brasil, 60,9% dos cargos gerenciais (públicos ou privados) eram ocupados por homens, enquanto apenas 39,1% pelas mulheres, em 2016.

As responsabilidades familiares ou domésticas também acabam afetando a inserção das mulheres no mercado de trabalho. A proporção de trabalhadores em ocupações por tempo parcial (até 30 horas semanais) é maior entre o sexo feminino (28,2%) do que entre os homens (14,1%). Isso pode estar relacionado à predominância das mulheres nos cuidados de pessoas e afazeres domésticos, aos quais as trabalhadoras dedicam 73% mais horas do que os homens.

Edição: Joana Tavares