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“A sociedade mobilizada é que nos dá segurança”, diz Áurea Carolina

Deputada federal avalia legado de Marielle, a importância da mobilização e cobra mais respostas

Belo Horizonte

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“A luta em defesa dos direitos humanos requer uma capacidade do Estado de produzir políticas públicas” / Lucas Avila

Dois dias antes de completar um ano da morte de Marielle Franco, dois homens foram presos acusados de serem responsáveis pela execução da vereadora, do motorista Anderson Gomes e pela tentativa de assassinato de uma outra pessoa que estava no carro. Segundo a denúncia das promotoras do caso, a investigação aponta que o crime que chocou o mundo foi cuidadosamente planejado ao longo de três meses.

“É inconteste que Marielle Francisco da Silva foi sumariamente executada em razão da atuação política na defesa das causas que defendia. A barbárie praticada na noite de 14 de março de 2018 foi um golpe ao Estado Democrático de Direito", diz a denúncia. Os assassinatos completam um ano nesta quinta-feira (14). Nesse mesmo dia, diversos atos em todo o país seguem ecoando a pergunta, repetida desde o ano passado: “Quem mandou matar Marielle?”

Áurea Carolina, eleita deputada federal pelo PSOL de Minas Gerais, faz coro a esse pedido e explica que o legado de Marielle segue se multiplicando, tanto na atuação institucional – que inspira inclusive seu mandato – como no encorajamento de mulheres e outros grupos sociais na luta por seus direitos e visibilidade. Confira a entrevista.

Brasil de Fato: Na sua avaliação, por que Marielle virou um símbolo tão forte para as lutas de resistência?

Áurea Carolina: Avalio que essa mobilização, a comoção toda em torno da execução da Marielle, o símbolo que ela se tornou, vem do fato que ela sintetizava, na sua construção política, na sua trajetória, no seu próprio corpo, várias lutas emergentes nessa conjuntura política brasileira. São lutas que estão há muitos anos, há décadas, se movendo, mas têm chegado agora na cena pública com uma força muito renovada, de pautar as instituições, a cultura, a mídia, as relações do cotidiano. Elas trazem o feminismo, a perspectiva antirracista, de inclusão da população LGBT, sobre a livre a orientação sexual, sobre o reconhecimento das favelas como territórios em que as pessoas produzem também formas de vida e que resistem contra a opressão e a negação de direitos. Vivemos um momento em que tudo isso chega de forma interligada no debate político, cada vez mais. E Marielle era essa expressão da integração entre as lutas.


A gente quer puxar o fio da meada até a ponta, entender as motivações e como esse crime foi financiado


Seu mandato como vereadora do Rio de Janeiro trazia a importância que essas lutas - que vêm de um processo criativo, autônomo da sociedade - também pautem a institucionalidade. Por isso esse símbolo é tão grandioso. O lema ubuntu, que ela dizia muito, "sou porque somos", é também essa síntese. Ela existia junto com a coletividade e a coletividade produziu uma figura como ela. Além disso, tem a grande injustiça, a brutalidade que é esse crime: uma mulher honesta, inocente, que estava fazendo o seu trabalho, no exercício da sua função parlamentar e é assassinada. Acho que tudo isso junto gerou essa grande repercussão mundial. O fenômeno Marielle tem ressonância no mundo inteiro porque essas lutas estão emergindo em toda parte.

O que você entende pela ideia de que Marielle virou semente?

Ela virou semente em muitos sentidos, no sentido da multiplicação de mulheres negras, feministas, de luta, que têm chegado na política institucional. Nas eleições de 2018 isso veio com uma força muito significativa. A minha eleição como deputada federal - mulher mais votada do estado de Minas Gerais - sem dúvida tem relação com isso. A eleição da Andreia de Jesus como deputada estadual, outros resultados em vários estados… como elas, como nós, existem várias outras mulheres que estão construindo trajetórias de conectar a sua experiência cotidiana de luta com essa pressão sobre o sistema político e isso deve crescer cada vez mais.

Outro aspecto é de encorajamento de mulheres, lutadores e outros grupos, de forma mais ampla na sociedade. Tem a ver com o fortalecimento para ocupar a cena pública, para falar das nossas questões. Temos realizadoras no audiovisual, gente que trabalha com a cultura nas suas várias manifestações, gente que trabalha em qualquer área, que está conseguindo romper com o silenciamento, com a invisibilidade, para falar dessa diversidade. E o enredo da Mangueira agora foi mais uma síntese desse processo que está em curso no nossos país, de levante dessas lutas e de um debate que não pode mais ser apagado.


Tem a grande injustiça, a brutalidade que é esse crime: uma mulher honesta, que estava fazendo o seu trabalho, no exercício da sua função parlamentar, assassinada


Como você vê as prisões de dois executores do assassinato e o andamento das investigações, principalmente sobre os mandantes e interessados no assassinato?

Foi um passo muito importante a prisão dos pistoleiros. Tardio, demorou muito para chegar nesse ponto, mas foi uma primeira elucidação, dos executores do assassinato. Agora a gente quer saber quem foram os mandantes. A gente quer puxar o fio da meada até a ponta, entender as motivações e como esse crime foi financiado, como ele foi estruturado e planejado. Trata-se de um crime de ódio - indiscutivelmente - mas é muito difícil acreditar que é somente um crime de ódio, dada a complexidade desse planejamento. Segundo as investigações, foram três meses de planejamento, de pesquisas, que os autores fizeram sobre os passos de Marielle. Há outras coisas envolvidas aí. Queremos saber as motivações econômicas e políticas, que estão associadas a esse ódio, são razões interligadas. A luta da Marielle incomodava. Não só porque enfrenta o privilégio de alguns grupos, mas porque abala o poder concreto desses grupos que agem para silenciar as nossas lutas. Essa é a grande questão. Acho que a gente precisa chegar até as últimas consequências dessa investigação, até uma resposta que o Estado brasileiro deve à sociedade, à família da Marielle, em quem votou nela, ao mundo, para que as pessoas possam viver, ter direito à vida.

Muitos militantes de esquerda têm denunciado perseguições e ameaças. Como a impunidade do caso Marielle contribui para o clima de violência? Você se sente segura para fazer política no Brasil hoje?

A gente tem dito que a nossa segurança se dá na identificação dos mandantes e da motivação da execução. Desmantelando essa estrutura de poder violenta, a gente pode ter mais proteção pra todo mundo. A luta em defesa dos direitos humanos requer uma capacidade do Estado de produzir políticas públicas, de minar esses grupos organizados criminosos, as milícias, tudo que ameaça a democracia. A discussão tem que ser de maneira sistêmica. A visibilidade desses casos também ajuda, a sociedade se mobiliza cobrando justiça, respostas. Isso que nos dá segurança, isso que nos dá proteção.

Edição: Elis Almeida