Razoável?

Hamilton Mourão: os limites da moderação de um general no poder

Posicionamentos do vice-presidente da República têm provocado a ira dos apoiadores mais fiéis de Jair Bolsonaro

Brasil de Fato | São Paulo

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Vice-presidente Hamilton Mourão tem se distanciado dos tropeços do presidente Jair Bolsoanaro / Evaristo Sá/AFP

“Em caso de naufrágio, qualquer tábua de pinho vira navio”. Assim definiu a jornalista Eliane Brum, em coluna do jornal El País no dia 30 de janeiro, a postura moderada do general da reserva Hamilton Mourão, hoje, vice-presidente da República. 

Declarações do militar têm se tornado incômodas para os novos ocupantes do Palácio do Planalto. Destoando-se do tom belicista e das frases de ódio proferidas pelo presidente Jair Bolsonaro e seus filhos, Mourão tem adotado um tom conciliador e avesso às posições do novo mandatário. 

Para Paulo Cunha, professor de Ciências Políticas da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), não há dúvidas de que Mourão vem preparando o terreno para se apresentar como uma alternativa a Jair Bolsonaro. 

“Mourão está se oferecendo, se qualificando, se cacifando enquanto uma alternativa a Bolsonaro. Eu digo que, para esse grupo, ter o Bolsonaro foi algo conveniente por um lado, porque Bolsonaro era quem poderia falar para o público externo. Só que a criatura está saindo fora do controle dos criadores”, destacou. “É bom lembrar: generais não batem continência para capitães. Principalmente para um mau capitão como foi o Bolsonaro”. 

Conhecido nos bastidores das Forças Armadas como o "capitão de quatro estrelas", o que poderia ser traduzido como um "general falastrão", Mourão não desperdiçou oportunidades para se posicionar publicamente e ganhar apoio até mesmo de setores progressistas. Em sua rápida passagem como presidente interino, após a cirurgia de Jair Bolsonaro, se reuniu em Brasília com o presidente da União das Câmaras Árabes, Khaled Hanafi, e se posicionou contrário à proposta de transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém.

O vice-presidente da República ainda ousou criticar uma das figuras mais proeminentes do governo Bolsonaro, o ex-juiz e agora ministro da Justiça, Sérgio Moro. “Eu acho que [quem] perde [é] o Brasil. Perde o Brasil todas as vezes que você não pode sentar numa mesa com gente que diverge de você”, disse Mourão, ao comentar o recuo de Moro,na indicação de Ilona Szabó para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), após críticas de membros do clã Bolsonaro. Além dessas, outras declarações do general da reserva também provocaram a ira e a desconfiança dos bolsonaristas. Vejamos algumas delas:

Aborto

"Aborto deve ser uma decisão da mulher", disse o vice-presidente em entrevista ao jornal O Globo no dia 1 de fevereiro. A declaração gerou reações imediatas. Nas redes sociais, o pastor evangélico Silas Malafaia mandou um recado ao vice-presidente: “Avisem ao Mourão! O papel do vice é substituir o presidente nos seus impedimentos. Votamos em Bolsonaro, na urna eletrônica não aparece o nome do vice. Se não quer ajudar, pelo menos, não atrapalhe. Um dos motivos porque o povo votou em Bolsonaro é por ele ser contra o aborto”, escreveu.

Direitos Humanos

No mesmo dia em que Jair Bolsonaro comemorou em uma rede social a renúncia do deputado Jean Wyllys (PSOL/RJ) devido a ameaças contra sua vida e da sua família, Mourão afirmou que as ameaças a um parlamentar representam “um crime contra a democracia”. 

Lula 

No dia seguinte, diante da morte do irmão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Genival Inácio da Silva, o Vavá, Mourão defendeu a liberação de Lula para comparecer ao velório, por “questões humanitárias”. Apesar disso, o ex-mandatário, preso em Curitiba desde abril de 2018, se viu impedido de comparecer ao sepultamento do irmão. “É uma questão humanitária, não é? A gente perder um irmão sempre é uma coisa triste. Eu já perdi o meu e sei como é.”

Venezuela 

Ao comentar a situação política da Venezuela, Mourão rejeitou qualquer intervenção na política interna do país vizinho, na contramão das posições manifestadas pelo chanceler Ernesto Araújo. “O Brasil não participa de intervenção, não é da nossa política externa intervir nos assuntos internos de outros países.”

Corrupção no governo

Outra declaração de Mourão que provocou desconforto na Esplanada dos Ministérios ocorreu no dia 4 de fevereiro, quando ele afirmou que as irregularidades apontadas em reportagem do jornal Folha de São Paulo, em relação ao ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, eram graves. Segundo a publicação, o ministro havia “patrocinado um esquema de candidaturas laranjas que direcionou verba pública para empresas ligadas ao seu gabinete”. 

Razoável?

Mas que tão razoáveis já foram outras declarações do general? Em 2015, Mourão defendeu a destituição da presidenta Dilma Rousseff e afirmou que o impeachment não seria suficiente, levantando dúvidas sobre quais punições deveriam ser aplicadas à então mandatária, ex-presa política durante a ditadura. 

Sobre o período de chumbo no Brasil, Mourão afirmou que existem “mitos” sobre o governo militar, ao qual evita classificar como uma ditadura. “Quem chama regime militar de ditadura não reconhece o que era”. De qualquer forma, reconheceu excessos dos governos militares ao afirmar que “há gente que diz que foi torturada e não foi. E outros que foram e não falam nada”.

Ainda durante a campanha presidencial, o então candidato a vice deixou a chapa em maus lençóis, ao se posicionar contra benefícios históricos dos trabalhadores brasileiros, em uma clara sinalização ao mercado financeiro. 

“Nós sabemos perfeitamente o custo que tem o trabalhador, o sindicato, em cima da atividade produtiva. E temos algumas jabuticabas que a gente sabe que é uma mochila nas costas de todo empresário. A jabuticaba brasileira, o 13º salário”.

Mourão também se envolveu em uma polêmica ao fazer uma afirmação de conteúdo considerado racista, na presença de jornalistas. “Olha, meu neto é um cara bonito, viu ali? Branqueamento da raça”, disse.

De ascendência indígena, Hamilton Mourão é filho do general de divisão Antônio Hamilton Mourão e de Wanda Coronel Martins Mourão. Ingressou no Exército em fevereiro de 1972, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Durante a carreira militar, cumpriu Missão de Paz em Angola – UNAVEM III e foi adido militar na Embaixada do Brasil na Venezuela. Em 2017, passou à reserva das Forças Armadas e filiou-se ao Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB).

O Brasil de Fato entrou em contato com a assessoria de imprensa da vice-presidência da República no dia 8 de fevereiro e novamente no dia 12 de março, mas não obteve retorno até o momento da publicação desta reportagem. 

 

Edição: Aline Carrijo