MILITÂNCIA

Encontro em SP traça estratégias para comitês Lula Livre; leia carta do ex-presidente

Mais de mil pessoas de todo país estão reunidas neste sábado (16) na capital paulista

Read in English | Leer en español | Brasil de Fato | São Paulo (SP)

,
Ativistas acompanham a leitura da carta de Lula aos presentes ao encontro / Pedro Ribeiro Nogueira | Brasil de Fato

"Se Lula estiver livre, o Brasil é democrático. A prisão de Lula impede o Brasil de ser caracterizado como democrático". Assim afirmou Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa durante os governos Lula e Dilma, na abertura do Encontro Lula Livre. A atividade começou na manhã deste sábado (16), no Sindicato dos Metroviários, no Tatuapé, zona leste de São Paulo, e reúne mais de mil militantes de todo o país. O encontro será dedicado ao debate sobre estratégias de luta e solidariedade pela liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde abril do ano passado após o que os presentes ao encontro qualificam como “perseguição política e prisão sem provas”.

“Lula é um refém do estado brasileiro. Então nós, enquanto democratas, cidadãos e cidadãs, estamos aqui, para nos juntar e pensar ações em todo país contra essa situação”, afirma Joaquin Piñero, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Rafael Teixeira Aguiar, 71, veio da Bahia para ajudar a construir essa luta: por seus pais e pelo futuro do Brasil. "Perdi meus pais aos cinco anos de idade nas caatingas do Nordeste. Há 50 anos passávamos muita fome. O motivo para defender Lula é para defender que os jovens e crianças tenham um mundo melhor e tenham boas escolas e possam fazer faculdade. Sou contra armas, o que mais gosto é dos livros", disse Aguiar.

O militante baiano Rafael Teixeira Aguiar (71). (Foto: Juliano Vieira | Brasil de Fato)

Além de apresentações culturais e lúdicas, o encontro reúne organizações, coletivos, partidos e diversos momentos populares do Brasil, assim como lideranças religiosas e parlamentares.

Também na abertura da atividade, o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamoto, leu uma carta de Lula para a militância. Repleto de indignação e pedidos de justiça, o documento, de quatro páginas, terminava com uma mensagem de incentivo aos lutadores e lutadoras.

"Que não podemos perder a esperança de que a verdade vencerá, e ela está do nosso lado. Por isso, peço a cada um e a cada uma que fortaleçam cada vez mais a nossa luta pela democracia e pela justiça. E só vamos alcançar esses objetivos defendendo os direitos do povo e a soberania nacional, porque foi contra estes valores que fizeram o golpe e interferiram na eleição. Foi para entregar nossas riquezas e reverter as conquistas sociais. Que os comitês Lula Livre tenham isso bem claro e atuem cada vez mais na sociedade, nas redes, nas escolas e nas ruas", disse o ex-presidente.

Acompanhe ao vivo o Encontro Lula Livre.

Confira abaixo a íntegra da carta de Lula.

"Meus amigos e minhas amigas,

Quero, em primeiro lugar, agradecer a solidariedade e o carinho que tenho recebido do povo brasileiro e de lideranças de outros países, neste quase um ano em que me encontro preso injustamente. Agradeço especialmente aos companheiros da vigília em Curitiba, que me confortam todos os dias, aos companheiros que constituem os comitês Lula Livre dentro e fora do Brasil, aos advogados, juristas, intelectuais e cidadãos democratas que se manifestam pela minha libertação.

A força que me faz resistir a essa provação vem de vocês e da convicção de que sou inocente. Mas resisto principalmente porque sei que ainda tenho uma missão importante a cumprir neste momento em que a democracia, a soberania nacional e os direitos do povo brasileiro são ameaçados por interesses econômicos e políticos poderosos, inclusive de potências estrangeiras.

Como sempre fiz em minha vida, e lá se vão mais de 45 anos de atividade sindical e política, encaro essa missão como um desafio coletivo. A luta que faço para ter um julgamento justo, em que minha inocência seja reconhecida diante das provas irrefutáveis da defesa, só faz sentido se for compreendida como parte da defesa da democracia, da retomada do estado de direito e do projeto de desenvolvimento com inclusão social que o país quer reconstruir.

A cada dia que passa fica mais claro para a população e para a opinião pública internacional que fui condenado e preso pelo único motivo de que, livre e candidato, seria eleito presidente pela grande maioria da população. Minha candidatura era a resposta do povo ao entreguismo, ao abandono dos programas sociais, ao desemprego, à volta da fome, a todo o mal implantado pelo golpe do impeachment. É uma luta que temos de levar juntos, em nome de todos.

Para me tirar das eleições, montaram uma farsa judicial com a cobertura dos grandes meios de comunicação, tendo a Rede Globo à frente. Envenenaram a população com horas e horas de noticiário mentiroso, em que a Lava Jato acusava e minha defesa era menosprezada, quando não era simplesmente censurada. A Constituição e as leis foram desrespeitadas, como se houvesse um código penal de exceção, só para o Lula, no qual meus direitos foram sistematicamente negados.

Como se não bastasse me prender, por crimes que jamais cometi, proibiram que eu participasse dos debates e das sabatinas no processo eleitoral; proibiram minha candidatura, contrariando a lei e a ONU; proibiram que eu desse entrevistas, proibiram até que eu comparecesse ao velório de meu irmão mais velho. Querem que eu desapareça, mas não é de mim que têm medo: é do povo que se identifica com nosso projeto e viu em minha candidatura a esperança de recuperar o caminho de uma vida melhor.

Dias atrás, ao me despedir do meu querido neto Arthur, senti todo o peso da injustiça que atingiu minha família. O pequeno Arthur foi discriminado na escola por ser meu neto e sofreu muito com isso. Então, prometi a ele que não vou descansar até que minha inocência seja reconhecida num julgamento justo.

Na emoção daquele momento, recordo-me de ter dito: “Vou te mostrar que os verdadeiros ladrões são os que me condenaram”. Pouco depois, o jornalista Luís Nassif revelou ao público o acordo ilegal e secreto entre os procuradores da Lava Jato, a 13a. Vara Federal de Curitiba, o governo dos Estados Unidos e a Petrobras, envolvendo uma quantia de 2,5 bilhões de reais.

Essa quantia foi tomada à maior empresa do povo brasileiro por uma corte de Nova Iorque, com base em delações levadas a eles pelos procuradores do Brasil.

E eles foram lá aos Estados Unidos, com a cobertura do então procurador-geral da República, para fragilizar ainda mais uma empresa que é alvo de cobiça internacional.

Em troca dessa fortuna, a Lava Jato se comprometeu a entregar ao estrangeiro os segredos e informações estratégicas da nossa Petrobras.

Não se trata de convicções, mas de provas concretas: documentos assinados, atos de ofício de autoridades públicas. Estes moralistas sem moral ocupam hoje altos cargos no governo que só foi eleito porque eles impediram minha candidatura. Mas quem está preso é o Lula, que nunca foi dono de apartamento nem de sítio, que nunca assinou contratos da Petrobras, que nunca teve contas secretas como essa fundação que foi descoberta agora.

Mais do que manifestar indignação com esses fatos, quero dizer a vocês que o tempo está revelando a verdade. Que não podemos perder a esperança de que a verdade vencerá, e ela está do nosso lado. Por isso, peço a cada um e a cada uma que fortaleçam cada vez mais a nossa luta pela democracia e pela justiça. E só vamos alcançar esses objetivos defendendo os direitos do povo e a soberania nacional, porque foi contra estes valores que fizeram o golpe e interferiram na eleição. Foi para entregar nossas riquezas e reverter as conquistas sociais. Que os comitês Lula Livre tenham isso bem claro e atuem cada vez mais na sociedade, nas redes, nas escolas e nas ruas.

Tenho fé em Deus e confiança em nossa organização para afirmar com muita certeza: nosso reencontro virá. E o Brasil poderá sonhar novamente com futuro melhor para todos.

Muito obrigado, e vamos à luta, companheiros e companheiras.

Um grande abraço do

Luiz Inácio Lula da Silva

Curitiba, 16 de março de 2019"

Edição: Beatriz Pasqualino