TRANSPORTE

Aumento da tarifa de ônibus impacta orçamento da população do Recife

Reajuste aconteceu na sexta-feira anterior ao carnaval e pegou população de surpresa

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Percentualmente, os aumentos das linhas do Anel A e B foram de 7,07% e 6,38%, respectivamente / Grande Recife

De centavo em centavo, o último reajuste da tarifa de ônibus pode fazer uma diferença considerável no orçamento dos trabalhadores e das trabalhadoras do Recife. Na sexta-feira anterior ao carnaval, dia 1º de março, foi aprovado pelo Conselho Superior de Transporte Metropolitano (CSTM) o aumento do Anel A de R$3,20 para R$3,45 e do Anel B de R$4,40 para R$4,70.

Essa notícia pegou muitos usuários de transporte público desprevenidos. Luciene Xavier, 42, é moradora de Peixinhos e utiliza ônibus diariamente para ir e voltar do trabalho, no centro da cidade. Ela conta que ficou sabendo do aumento pela televisão, mas que teve que avisar aos seus colegas de trabalho, porque a grande maioria foi pega de surpresa. Sobre a diferença que esses centavos podem fazer nos seus gastos mensais, ela conta que “não estava programando ter esse gasto a mais”.

Luciene ainda não parou para fazer as contas de quanto em dinheiro ela vai ter gasto a mais no fim do mês após o reajuste: “Eu ainda não somei. Mas, quando soma, aí é que faz falta mesmo”. No entanto, ela afirma que esse valor vai fazer falta “no dia a dia, é um dinheiro a mais que é gasto, que a gente podia usar para comprar o pão, uma carne”, explica. Ela ainda critica a qualidade do transporte público, que não é tão boa para um valor tão alto: “A gente vem feito em uma lata de sardinha, no apertado, com muito calor. É horrível o transporte público”.

Uma das colegas de trabalho de Luciene é Ana Valéria, 54, que trabalha como auxiliar de serviços gerais. Diferentemente de Luciene, que utiliza o Anel A, Ana Valéria faz uso do Anel B, que é ainda mais caro, porque sua residência fica em Igarassu. Ana Valéria conta que leva mais de duas horas por dia no transporte público, além do tempo que passa esperando no terminal de integração. “No trabalho, eu pego às 9h. Tenho que sair de casa, no máximo, às 7h”, explica.

Com o reajuste da passagem, o que mais irritou Ana foi a falta de divulgação de que o valor iria subir. “Essa passagem chegou de repente, ninguém esperava. A gente ficou sabendo pelos outros, já com a passagem mais cara. Eu fui saber já com o colega avisando ‘Olha, a passagem aumentou!’. Não teve nenhuma divulgação ou anúncio”, comenta irritada. Para ela, a qualidade do transporte também não justifica qualquer aumento: “(Esse preço) não justifica, por causa do tempo que a gente leva. Você vai em pé, volta em pé. É absurda a forma como nós, trabalhadores, somos tratados”.

Percentualmente, os aumentos das linhas do Anel A e B foram de 7,07% e 6,38%, respectivamente. Proporcionalmente, esses dados ultrapassam o aumento salarial em 2019, que foi de 4,61%, elevando o salário mínimo de R$954 para R$998.

De acordo com a assessoria de imprensa da Frente de Luta pelo Transporte Público de Pernambuco, um trabalhador que recebe um salário mínimo e que utiliza o Anel A diariamente, compromete, aproximadamente, 17% do seu orçamento mensal com gastos em transporte público. Esse número compreende, mais ou menos, um quinto do que essa pessoa ganha para arcar com todas as duas despesas.

No entanto, esse cenário é ainda mais grave se for considerado que existem muitas pessoas desempregadas, ou que sobrevivem com menos de um salário mínimo, que também dependem do transporte público para se locomover. No Recife, a taxa de desemprego é de 16,3%, a maior dos últimos sete anos, dado da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) . Em 2019, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), Pernambuco perdeu mais de sete mil empregos em janeiro de 2019. Está saindo caro andar de ônibus na capital pernambucana.

Edição: Monyse Ravenna