Entrevista

Poluição, violência, desemprego: como a mineração impacta a vida das mulheres?

Psicóloga Paula Sassaki relata os resultados de sua pesquisa em áreas afetadas pela atividade em Minas Gerais

São Paulo | Brasil de Fato

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Ouça o áudio:

População protesta no município mineiro de Muriaé (MG) contra a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) / Blog do Pedlowski

Paula Sassaki é pesquisadora, psicóloga do Sistema Único de Saúde (SUS) e mestra na área de "Gênero, Mineração e Movimentos Sociais" pela Universidade de São Paulo (USP). Em entrevista ao Brasil de Fato, ela relata a extensão dos impactos da atividade mineradora sobre as mulheres.

Da poluição ambiental até a ausência do Estado, passando pelo aumento da violência e o sufocamento de outras atividades econômicas, Sassaki traça um panorama revelador da mineração e seus efeitos.

Confira na íntegra: 

Paula, você tem estudado os impactos psicológicos de crimes socioambientais como os que aconteceram em Mariana (MG) e Brumadinho (MG). O que você tem encontrado de mais relevante na sua pesquisa? 

Na verdade, o rompimento de Mariana, em 2015, foi o que me aproximou da mineração, mas acabei estudando um lugar que não foi vítima de rompimento, lá em Conceição do Mato Dentro (MG), em que há uma mina da Anglo American.

Nesse estudo, fui atrás de como a mineração tem atingido as mulheres, mas não foi necessariamente no contexto de rompimento, e sim, no contexto em que está sendo implantada uma planta de mineração lá, já em andamento desde 2016.

E quais têm sido os impactos mais graves sobre as mulheres dessas comunidades?

A mineração tem toda uma cadeia produtiva muito impactante, que gera muita poluição, muito degrado de saúde, gera dependência econômica – a minério-dependência. Todas as atividades econômicas vão ruindo por causa da mineração. Por exemplo: Conceição do Mato Dentro e outras cidades de Minas Gerais, que têm uma vocação de agricultura familiar, produção de alimentos. Isso vai diminuindo com o tempo, conforme a mineração se instala. 

Na região em que eu estava, especificamente, também vai [se] afastando a possibilidade de construção do turismo, de reservas ambientais. Vários dos impactos são mais graves para as mulheres. Por exemplo: nas fases de implementação da mina, de construção civil e outros momentos, a mineração contrata uma quantidade de pessoas muito grande para uma região pequena. Na época da construção de Conceição do Mato Dentro, eles contrataram uma quantidade de pessoas que era quase o número da população da cidade, uma maioria de homens [contratados].

Isso, no sentido da violência, da possibilidade de circulação das pessoas, impacta muito as mulheres. Tem vários estudos mostrando o quanto os homicídios e os roubos aumentaram depois da chegada da mineradora, e também a violência doméstica. 

Para as mulheres, também tem uma violência maior no sentido de que a mineração gera muita poluição. Ela usa muitos recursos hídricos, as pessoas vão sentindo muito. E as mulheres, que fazem os cuidados da saúde, da família, também sentem mais os impactos na saúde. Para elas, também não representa uma possibilidade de emprego como representa para os homens. 

A mineração já não é um campo que contrata muito, como eles propagam, mas dentro dessas contratações que acontecem, apesar da contratação de mulheres nos últimos anos ter aumentado, ela não é tão significativa quanto para os homens. Então, para elas não é uma possibilidade de emprego, bico, ou algo assim. Por isso, também vai tendo um aumento do protagonismo delas na liderança e nos processos de resistência. 

Há uma contrapartida por parte do Estado ou dessas empresas em tentar abrandar esse cenário, no caso das mulheres?

Política específica para as mulheres, tem poucas. No geral, o Estado tem sido muito pouco presente, tanto que os rompimentos das barragens são uma denúncia disso. A gente têm priorizado a venda dos nossos recursos sem necessariamente uma contrapartida. Tem pouca coisa específica para as mulheres, e é sempre uma briga para a mineradora, de fato, cumprir com as condicionantes. Desde as coisas mais básicas, como poço artesiano, fossa, fornecimento de água em caminhão-pipa de comunidades que ficaram sem água. Tudo isso só acontece se tiver mobilização das comunidades. Se for deixar por conta da empresa e do Estado, é sempre um processo muito lento.

Já cheguei em comunidades que eram abastecidas, mas aí chove, a estrada fica ruim, as famílias não são abastecidas com água, o caminhão vai chegar só na outra semana… É uma água que a gente não sabe a qualidade, as famílias reclamam bastante que as crianças [tiveram] alergia, [doenças] de pele. As condicionantes [do contrato] deveriam ser o mínimo para que a empresa possa implementar os processos de ampliação, e nem isso é cumprido, de fato. 

 

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira