Dependência

Raposos, uma cidade que a mineração criou e destruiu

Município com prazo de validade: após escassez da mina da região, cidade se tornou um dormitório

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Segundo pesquisador, Raposos anuncia situação que muitas cidades do Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais ainda podem vivenciar / Foto: Reprodução/Prefeitura de Raposos

Camila Madeira é moradora de Raposos, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, mas não trabalha na cidade, assim como a maioria de seus familiares e dos mais de 15 mil habitantes de lá. "Meus primos estudam e trabalham fora, meus tios e a maior parte das pessoas. A gente depende muito de coisas que estão em outros municípios, até mesmo para atividades de lazer", conta.

Mas, o que será que esse assunto tem a ver com mineração?

A história de Raposos e a da atividade minerária na região se confundem. A extração começa no século 18, na Mina do Espírito Santo, comprada no século 19 pela Saint John del Rey Mining Company Limited (Companhia de Morro Velho). Como a mineração da época não era como a de hoje – com grande número de máquinas, produção automatizada e de larga escala –, a mineradora empregava quase toda a população do município.

A economia da cidade permaneceu com essa base até o ano de 2003, quando a mina atingiu a escassez e a atual proprietária, a empresa AngloGold Ashanti, decidiu encerrar as operações no terreno. A maioria das famílias perdeu o sustento, centenas de postos de trabalho diretos e indiretos desapareceram e o comércio foi muito enfraquecido. Desde então, Raposos não se recuperou.

Agora, a prefeitura é o maior empregador e quase todos os moradores trabalham e consomem serviços em municípios vizinhos, principalmente Belo Horizonte. Esse fenômeno rendeu a Raposos o título de “cidade dormitório”.

Consequências

De acordo com Tádzio Coelho, do Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e pesquisador do Centro Ignácio Rangel de Estudos do Desenvolvimento, essa situação exemplifica o que é chamado de “minerodependência”, ou seja, quando uma cidade renuncia a outros tipos de desenvolvimento, autônomos ou locais, em nome da exploração de minério. Inclusive, ele entende que Raposos anuncia o que muitas cidades do Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais ainda podem vivenciar.

“Isso gera um ciclo cuja tendência é se reproduzir até o momento que a mina não tenha mais valor econômico ou que ocorra um grande desastre. E não existem outras alternativas econômicas nessas regiões. Raposos é uma espécie de futuro, em escala mínima, de Minas Gerais. A maioria das grandes minas de mineração já começam a estar próximas das suas datas de exaustão", afirma.

Modelo prejudicial

Tádzio explica que a maneira como a mineração é pensada no Brasil constrói a dependência.

"Por exemplo, quando impacta o fluxo hídrico da região para expandir a mina, se destrói parte da agricultura. Intencionalmente ou não, é perdido algo em detrimento dessa atividade econômica”, ressalta.

Essa relação desigual entre município e mineradora seria, ainda, política e social. “Política porque a estrutura política dessas regiões acaba sendo dominada por pessoas financiadas por mineradoras. Social porque os moradores passam a depender de uma forma muito mais orgânica do que pela renda. Passam a questionar menos e colocar menos impedimentos para a empresa. A barragem de rejeito é uma infraestrutura extremamente problemática, por que as pessoas aceitam? Porque simplesmente dependem da mineração", analisa o militante do MAM.

Tem solução?

A avaliação do pesquisador é que o poder público estadual e nacional deveriam assumir, com urgência, uma política de diversificação produtiva dos municípios minerados com atividades não relacionadas à mineração, mas que tenham caráter de participação popular, além de planejamento, linhas de financiamento, canais de apoio, incentivo técnico e tecnológico, criação de empregos e mais.

"Isso é mais do que gerar receita, é dar autonomia. A omissão do Estado é gritante. É uma coisa histórica em Minas isso de viver a economia sempre a curto período, sem pensar os efeitos de médio e longo prazo”, pontua.

Edição: Joana Tavares