Educação

Longas distâncias e formação de educadores impõem desafios às escolas do campo

Estudantes perdem aulas e levam até sete horas para ir e voltar do colégio na zona rural

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Crianças têm aula de hortas agroecológicas na Escola Maria Salete no Pará / Ícaro Matos Neri

Amanhecer com sol ou chuva define a rotina das crianças e adolescentes que estudam em escolas rurais. Muitas delas ainda enfrentam quilômetros de estradas precárias e muitas horas pra chegar nas unidades de ensino.

A Escola Municipal Maria Salete Moreno, em Paraupebas (PA), atende 289 crianças da educação infantil dos três aos cinco anos. A unidade fica no assentamento Palmares 2 e recebe crianças de outras 11 comunidades. As mais distantes ficam a cerca de 42 quilômetros da escola, e o tempo de deslocamento pode chegar a duas horas.

A diretora Deusamar Sales Matos avalia que as crianças chegam cansadas e, se o dia é de muita chuva, os alunos têm dificuldades de frequentar as aulas. “No dia que têm chuvas fortes eles perdem aula. Não é todo dia que o ônibus consegue chegar. Nós não temos ainda um calendário escolar que possa fugir do período de chuvas intensas de janeiro até março. Para a criança é cansativo”, conta a assentada.

Horta da Escola em Maria Salete Moreno, em Paraupebas (PA) / Deusamar Sales Matos

Dificuldades que acontecem em todas as regiões do país. O educador Márcio José Barbosa, da Escola Municipal do Campo Trabalho e Saber que fica no assentamento Eli Vive I, no Paraná, reforça que a condição das estradas também é um dos grandes problemas por lá. “Têm dias que os próprios professores tem dificuldade para chegar devido às condições intransitáveis das estradas, principalmente em dias de chuva. Isso é o que a gente precisa cobrar o poder público", conta. 

Para chegar até as escolas, os alunos vão das mais diferentes formas: barco, bicicleta, ônibus sucateados e até a pé, como explica o professor Luiz Bezerra Neto, do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Educação no Campo (Gepec). 

 

“A questão não é só se o transporte tem qualidade ou não.  As estradas não são necessariamente bem cuidadas, aí os alunos sofrem com a seca, por conta da poeira, e no tempo das chuvas por causa dos atoleiros provocado nas estradas. Além disso, esses alunos costumam ficar muitas vezes, mais tempo no transporte do que em sala de aula, o que ocasiona vários problemas. O aluno pode ficar até 7 horas dentro do transporte escolar [ida e volta] para ter quatro horas de aula, aí ele já chega exausto. Esse é um pouco o retrato das nossas escolas do campo”, relata.

Para o pesquisador, houve um avanço das escolas rurais com o programa Luz para Todos, implementado em 2003, mas nos últimos anos não houve prioridade do poder público para essas políticas. “Muitas escolas receberam luz elétrica e equipamentos de informática para o campo. No entanto, como essas unidades são mantidas pelo município, não necessariamente há uma convergência com o que foi feito e com a disponibilidade de verbas pelo Governo Federal. Muitas escolas fecharam porque havia o entendimento que poderia ter somente um núcleo ou eles poderiam estudar na cidade.”

Além disso, o número reduzido de alunos e o trabalho com salas multiseriadas, em que são agrupadas diferentes faixas etárias e um só professor, também dificultam o avanço na conquista do espaço como um direito a educação. Para Neto, o desafio, nesses casos, é a formação de professores.“O problema não é o conteúdo, mas a metodologia. O professor não tem formação adequada para trabalhar com essas salas multisseriadas, se tivesse aproveitaria melhor o tempo."

Salas de aula da Escola Municipal do Campo Trabalho e Saber, assentamento Eli Vive I, Londrina, Paraná/José Carlos de Jesus Lisboa

A diretora Deusamar Sales Matos, da escola do Pará, ressalta que é necessária a formação continuada principalmente para professores que vêm da cidade e não estão inseridos na  realidade da educação no campo. “Muitos professores são concursados e precisaria ter formação para que possam se envolver e se inserir na vida dos povos do campo. Porque, se escolheram trabalhar com a gente, não pode ter uma relação de só dar aula e ir embora”.   

Quando a universidade encontra a comunidade

Parcerias entre universidade e comunidades rurais podem fortalecer a educação do campo. É o que vem acontecendo em um município do Piauí, na cidade de José de Freitas. O Instituto Federal do Piauí, a prefeitura e sindicatos de trabalhadores rurais e agricultura familiar se uniram para capacitar os agricultores a implantar tecnologias de baixo custo para que os trabalhadores e seus filhos possam se manter no campo.

O filho de agricultor José de Santos Moura, diretor geral do Instituto Federal do Piauí, campus José de Freitas, que fica a 48 quilômetros de Teresina, capital do Piauí, fala da importância de se ter esse tipo de parceria entre universidade e comunidade, que acontece há dois anos.

"As parcerias são fundamentais para chegar até as comunidades, porque às vezes não têm transporte, não têm recursos para viabilizar as atividades e cursos de extensão. A parceria fortalece o desenvolvimento de atividades. O Instituto Federal quer colaborar para mudar a vidas dessas pessoas de assentamentos. Esse é o único meio de transformar a educação. E o objetivo é levar conhecimento, tecnologia e inovação de baixo custo para que essas comunidades possam se desenvolver e se manter nas suas localidades. Não tem emprego para todo mundo na cidade.”

Localizado na zona rural, o Instituto é voltado para a pesquisa na área agrícola, com os cursos técnicos em agroecologia e agricultura e beneficia cerca de 600 famílias de comunidades rurais.

No último capítulo da série "Saberes da Terra", a matéria traz os ataques contra a educação do campo do governo Bolsonaro. 

 

Edição: Aline Carrijo / Tayguara Ribeiro