Reconhecimento

Março das Mulheres | Nos bastidores, elas fazem acontecer o rap e o hip hop em SP

Maioria das carreiras de artistas homens é gerida por mulheres, que precisam enfrentar o machismo diário na cena

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Protagonismo nos bastidores não blinda as mulheres de enfrentar situações de machismo / Montagem: Lucas Milagres Severo/Divulgação

Nascido na periferia e ligado desde sua origem à questões sociais e de protesto, o rap sempre foi uma arte dominada pelos homens. No entanto, com o crescimento do gênero musical e alcance de públicos que vão além das regiões periféricas, outro protagonismo chama atenção nessa ascensão artística: as mulheres na produção. 

“Todos os artistas do mainstream da cultura hip hop hoje são geridos por mulheres. Se não na produção, na assessoria de imprensa”. A afirmação é de Nerie Bento, empresária, produtora cultural e integrante da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop. Ela, que nasceu na periferia da zona Leste de São Paulo, conta que o contanto com o rap vem de berço, mas que a aproximação pela área profissional se deu na faculdade, onde conheceu a Frente durante uma pesquisa sobre o apagamento das mulheres no hip hop. 

A partir daí Nerie começou a atuar com produção de artistas do gênero, sempre levando consigo a pauta feminista e de inclusão. Atualmente, a empresária é dona da Krush Assessoria de Imprensa e Marketing Digital, voltada para artistas negros e LGBTs, e participa do coletivo Black Pipe, no qual ela é a única mulher. 

Pensar na imagem, na produção e nos detalhes burocráticos são alguns dos elementos da profissionalização do rap, que devem muito ao trabalho das mulheres. Nerie acredita que isso tem a ver com uma busca cada vez maior por estudo e qualificação. 

“As mulheres, nessa questão de se profissionalizar, estão muito mais avançadas do que os homens, só que elas fazem isso para se tornarem profissionais que ascendem carreira de homens, então é muito louco porque o mérito acaba sendo do artista em si. Mas ninguém sabe que ali atrás [há, em geral, mulheres]. A gente pode pegar como exemplo os Racionais mesmo”. 

Desde 2012, Eliane Dias é empresária  da carreira dos Racionais Mc's, o maior ícone do rap no Brasil, através da produtora Boogie Naipe. Ela é advogada e também já atuou como coordenadora da SOS Racismo na Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP). 

Foi também em 2012 que Daniela Rodrigues assumiu oficialmente o gerenciamento da carreira artística de Rashid, rapper em ascensão na época e também seu companheiro. Daniela conta que a parceria profissional já vem de antes, em 2008, quando Rashid ainda estava no começo da trajetória artística. Hoje eles são sócios da produtora Foco na Missão. Ela, que nunca havia trabalhado com produção artística, aprendeu pela necessidade e “na raça” como funcionava o mercado musical.

“E também pelo lance da burocracia. Vai fazer um show, é legal fazer um contrato, deixar tudo pontuado o que vai ser feito. Vai lançar uma música, tem que registrar. São coisas que ele, enquanto artista, também não sabia fazer. Ele faz a música e quer colocar na rua”. 

A diretora da Boia Fria Produções, Mari Bergel, que já trabalhou com artistas como a Banda Black Rio, Mano Brown, Dexter e Rincon Sapiência, conta que anos atrás o rap não era bem visto e as relações no mercado musical refletiam isso, com cachês não pagos e muitas vezes shows sem contrato e organização. Segundo ela, a situação muda exatamente quando as mulheres entram na profissionalização das carreiras. Porém, a diretora faz um paralelo dessa relação com a estrutura tradicional familiar, onde é transferida à mulher a responsabilidade de “pôr ordem na casa”. 

“As mulheres sempre estiveram presentes na organização do hip hop. Como não existia a profissionalização, nem que seja nesse equilíbrio da casa, em tocar mesmo as coisas em casa e no apoio aos companheiros. Então, mesmo quando não era profissionalizado eu vejo as mulheres com esse papel importante aí, nesse equilíbrio para, por exemplo, não entrarem no crime”. 

Enfrentamentos diários

O protagonismo nos bastidores não blinda as mulheres do machismo diário e muitas coisas precisam ser enfrentadas "no grito", conta Mari. 

“Existe muito isso do cara te desrespeitar, como aconteceu mais de uma vez comigo. Porque eu não tenho um homem do lado pra pegar o telefone, ou virar e falar 'filho, o que você tá falando? espera um pouquinho'. Então eu resolvi muita coisa no grito mesmo”. 

Já Daniela relata que o fato de ser a companheira do Rashid chegou a gerar comentários negativos até mesmo entre pessoas próximas ao casal. Ela conta que seu trabalho não era levado a sério no início. Outra situação comum era a intimidação por contratantes, a ponto de ela optar por contratar um homem para acompanhá-la nas reuniões. O machismo presente na cena acabou moldando a Daniela atual.

“Eu sempre fui uma pessoa muito sorridente, sempre falo com todo mundo numa boa e eu tive que aprender a mudar isso no meu jeito pra impor respeito. Pras pessoas me levarem a sério, então me tornar uma pessoa um pouco mais dura. É um saco que você só é respeitada se você colocar essa chapa”.

Além de “embrutecer” a personalidade, Mari conta que optou por se policiar em alguns comportamentos, como evitar colocar roupas que marcassem o corpo. A decisão é um indicativo de que a liberdade das mulheres ainda é julgada em ambientes predominantemente masculinos, como o rap. A vida íntima das mulheres também entra neste ponto, conta Mari. 

“Eu acho que isso também uma situação muito machista. Infelizmente, se é um homem ali no meio pegando um monte de gente, tá tudo certo, se é uma mulher, o primeiro que você pegar você já virou piranha, vagabunda”, lamenta Bergel. 

Nesse caminho de enfrentamento e resistência dentro do rap e hip hop, Nerie também procura combater o machismo por meio da educação e do empoderamento de outras mulheres, realizando cursos gratuitos de comunicação destinados ao público feminino. Além disso, a produtora faz com que sua posição na cena seja uma porta de entrada para outras mulheres. Um exemplo citado por ela é se fazer presente em curadorias de eventos e assim garantir a contemplação de minorias sociais. 

Ela ressalta que, hoje em dia, as mulheres do hip hop estão mais conscientes politicamente e não compram mais qualquer discurso. Apesar disso, Nerie afirma que a luta tem que ser de todos, pois os “marcadores [sociais] estão aí”, finaliza. 



 

Edição: Aline Carrijo