Sirene

Crianças de Macacos, em Nova Lima (MG), estão sem aulas desde fevereiro

Escola municipal fica perto da área que seria atingida em caso de rompimento da barragem da Vale

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Mães temem que seus filhos percam o ano letivo / Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Desde que a sirene tocou em Macacos, como é conhecido o distrito de São Sebastião das Águas Claras, em Nova Lima (MG), 196 crianças estão sem aulas na Escola Municipal Rubem Costa Lima. No dia 17 de fevereiro, 200 moradores do local foram retirados de suas casas pelo risco de rompimento de uma barragem pertencente à mineradora Vale.

Logo após o alerta, professores, funcionários e alunos – que têm entre 1 e 11 anos de idade – não retornaram à escola e a Secretaria Municipal de Educação adiou o início das aulas. O prédio escolar fica localizado à cerca de 50 metros da “mancha”, como é chamada a área onde seria atingida pela lama de rejeito caso a barragem estourasse.

Jussara Neves Borges, moradora de Macacos, é mãe de uma criança de três anos que ficava na creche da escola em tempo integral. Ela e outras mães se juntaram e realizam, desde fevereiro, protestos, reuniões e negociam com a prefeitura e com a Vale a retomada das aulas em outro local.  

“É muito perto”, ressalta Jussara sobre a distância. “E esse o é dado pela Vale. A gente não confia em laudo nenhum da Vale. A nossa questão é soar a sirene enquanto os alunos estiverem em aula, porque a orientação da Defesa Civil é, se soar a sirene, a escola tem que ser evacuada. O nosso temor é os alunos se machucarem, professoras se desesperarem, as crianças se desesperarem”, indigna-se.

Negociação

As reuniões para resolver o problema contaram com a presença da comunidade, do Ministério Público, de representantes da Vale e da Prefeitura de Nova Lima. A solução encontrada e decidida democraticamente pelas mães é que a escola deveria funcionar de forma provisória em uma área da prefeitura onde funcionava o Instituto Kairós, localizada em Macacos em um lugar seguro.

A mineradora se comprometeu em garantir a reforma do local provisório, assim como construir uma estrutura definitiva em “local considerado seguro e escolhido pela comunidade”, como apontado em nota. Além disso, a Vale afirma que vem mantendo a interlocução permanente com a comunidade, com o MP, a Defensoria Pública e a Prefeitura de Nova Lima e “se esforçando para resolver com celeridade e responsabilidade a situação”.

No entanto, os prazos vêm preocupando as mães que temem que seus filhos percam o ano letivo. Jussara explica que, em março, quando a decisão foi tomada em assembleia da comunidade, a empresa pediu um prazo de 90 dias que, depois, foi ampliado para 120 dias. Com a demora, algumas mães já pediram a transferência de seus filhos para escolas do Jardim Canadá e de Nova Lima. “Foi passando o tempo, a gente não viu movimentação nenhuma. O terreno onde vai ser a escola [provisória] continua cheio de grama”, questiona Jussara.

Transtorno

Com o adiamento das aulas e a falta de agilidade em resolver o problema, as famílias têm passado por dificuldades no cuidado com seus filhos. A situação, na opinião de Jussara, está “horrível”. “Os pais, meu caso e de vários, trabalham. Então a gente está se virando em mil para ver onde o filho fica até voltarem as aulas. Meu filho, por exemplo, ficava o dia inteiro na creche e aí eu estou tendo que pagar uma pessoa para ficar com ele. Graças a Deus, tenho condição. Mas tem vários pais que não têm”, questiona.

Jussara conta que tem sido comum problemas com atrasos nos empregos e que as famílias estão deixando as crianças com os vizinhos. Além do medo da sirene, segundo ela, há casos de depressão entre as crianças, que estão sentindo falta dos amigos, da rotina e que ainda temem perder o ano letivo.  

A Prefeitura de Nova Lima foi procurada pela reportagem, mas até o fechamento desta matéria não se pronunciou sobre o assunto.

Edição: Joana Tavares