Escândalo

Vereador de BH preso por corrupção defende a ditadura militar

Claudio Duarte (PSL) é acusado de obrigar funcionários a repassar parte do salário para pagar custos de campanha

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Também são apurados crimes de peculato, concussão, formação de organização criminosa e obstrução de Justiça / Foto: Karoline Barreto/CMBH

O vereador Claudio Duarte, do PSL – mesmo partido do presidente Jair Bolsonaro – foi preso, nessa terça (2) em Belo Horizonte, acusado de corrupção. Junto com ele, também foi preso o chefe de gabinete Luiz Carlos de Souza Cordeiro. De acordo com informações da Polícia Civil de Minas Gerais, a equipe da Divisão Especializada de Investigação de Fraudes e Crimes contra a Administração Pública cumpriu cinco mandados de busca e apreensão.

O inquérito mostra que o vereador desviava dinheiro público por meio do esquema conhecido como “rachadinha”, em que ele obrigava os funcionários do gabinete a repassar uma parte de seus salários para pagar contas da campanha eleitoral realizada em 2016. Somente um dos funcionários, que tinha salário de R$ 11 mil, repassava R$ 10 mil para o parlamentar.

Ainda segundo a Polícia Civil, o esquema acontece desde o início do mandato e são apurados crimes de peculato, concussão, formação de organização criminosa e obstrução de Justiça. Claudio Duarte, Luiz Carlos de Souza Cordeiro e mais quatro funcionários foram afastados de seus cargos na Câmara Municipal.

O vereador Pedro Patrus (PT) pondera que, mesmo Claudio sendo do PSL – partido que sempre usou a bandeira de combate à corrupção – sua prisão é um processo ruim para a Câmara e a para a política de Belo Horizonte. “Quando se prende um agente público, um vereador, passa a ideia para a sociedade que a política é ruim, que todos os políticos são ruins. Acaba que respinga em toda uma classe de pessoas sérias que estão trabalham em prol do povo, que são servidores da população. É muito perigoso esse estado policialesco que a gente está vivendo”, afirma.

Política conservadora

Em meio a escândalos de prisões e acusações, o presidente Bolsonaro e outros parlamentares do PSL constroem suas políticas com base em retiradas de direitos, conservadorismo e reacionarismo. Para o vereador Arnaldo Godoy (PT Claudio Duarte representa na capital mineira o mesmo projeto desenvolvido pelo governo federal, baseado falsas promessas e slogans apelativos.

“O Claudio traduz tudo isso. Todos os pronunciamentos dele são favor da escola que não dá direito a crítica e ao pensamento livre. Ele defendeu a censura. Esse discurso da moralidade, da corrupção, no fundo é um discurso que a campanha do Bolsonaro implementou, que ele [Claudio] incorporou, mas, na verdade, se você examinar com uma lupa vê onde eles estão metidos”, critica Arnaldo.

PSL e escândalos

O combate à corrupção foi uma das bandeiras levantadas pelo Partido Social Liberal (PLS) durante as eleições presidenciais do ano passado. Em seu portal nacional, a descrição enfatiza que o partido acredita no “combate frontal à corrupção endêmica instalada no Brasil, em todas as suas formas, níveis e esferas”.

No entanto, é comum parlamentares do PSL estarem envolvidos em escândalos, prisões e esquemas de desvio de verba pública. Gustavo Bebbiano, ex-ministro de Bolsonaro e coordenador de campanha, foi acusado de utilizar candidaturas-laranja em 2018. Bebbiano presidiu o PSL durante a disputa eleitoral e autorizou repasse de dinheiro dos fundos eleitoral e partidário para candidatas a deputada a poucos dias antes da eleição.

Marcelo Álvaro Antônio (PSL), atual ministro do turismo do governo Bolsonaro, foi denunciado ao Tribunal ao Tribunal Regional de Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) por desvio de dinheiro. Ele também teria proposto uma candidatura-laranja para cumprir a cota de mulheres nas eleições do ano passado.

Na Câmara Municipal de Belo Horizonte, após o afastamento de Claudio Duarte, restou somente um vereador do PSL, o líder do governo Léo Burguês de Castro.

Elevado Helena Greco

Um dia antes de ser preso, Claudio Duarte afirmou em plenário que iria propor um projeto para mudar o nome do Elevado Helena Greco para Castelo Branco, em homenagem ao militar que assumiu o governo do Brasil depois do golpe de 1964.

No domingo (31), Claudio esteve no Elevado Helena Greco junto com outros parlamentares em um ato de “comemoração do movimento cívico-militar de 1964”, que, na opinião de Pedro Patrus (PT), foi uma atitude de “apologia à ditadura”. O regime militar no Brasil assassinou mais de 430 pessoas diretamente contrários ao regime e prendeu e torturou, pelo menos, outras 30 mil.

Helena Greco foi homenageada em 2014, quando o elevado, que antes era conhecido como Castelo Branco, foi batizado com seu nome. Greco foi uma importante lutadora por direitos humanos e pela democracia no país. Foi também a primeira vereadora da capital mineira e uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores. Ela faleceu em 2011 aos 95 anos.

“Lutar pela permanência do nome da Dona Helena Greco é lutar pela democracia, pela história do país e pelo que ela significou na luta contra a ditadura, na defesa da mulher, contra a tortura, pela liberdade de expressão e pela organização política dos trabalhadores”, ressalta Arnaldo Godoy (PT).

Edição: Joana Tavares