ANTIRRACISMO

Primeira peça da Cia da UFBA dirigida por uma mulher negra traz denuncia e reflexão

Fórum Negro de Arte e Cultura e espetáculo incentivam debates sobre estratégias de resistência e combate ao racismo

Brasil de Fato | Salvador (BA)

,
"Pele Negra, Máscaras Brancas" é a primeira peça da Cia de Teatro da UFBA a ser dirigida por uma mulher negra em mais de 50 montagens. / Adeloyá Magnoni

Não tem como falar de arte e cultura em Salvador e na Bahia e não falar da cultura negra. A produção artística e cultural afro-brasileira foi e é uma das principais formas de combate ao racismo e de organização, resistência e luta antirracista, contribuindo para a formação do movimento negro baiano e brasileiro. Mesmo com esse histórico, ainda é possível observar que essa produção não é valorizada como deveria e não consegue acessar determinados espaços.

É justamente nesse contexto que surge o Fórum Negro de Arte e Cultura (FNAC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Na medida em que os estudantes da Escola de Teatro identificaram a ausência de representatividade tanto no corpo docente – majoritariamente composto por professores e professoras brancos – quanto nos conteúdos do curso, eles começaram a se mobilizar.

A professora Alexandra Dumas, da Escola de Teatro, explica que, desde a sua fundação nos anos 1950, esse local sempre foi pautado no modelo europeu ocidental de teatro, refletindo nos currículos e na formação de professores e professoras. “O FNAC teve a primeira edição em 2017, por conta dessa pressão dos estudantes feita à direção [da faculdade] e aos professores, para serem representado em conteúdos, em temas, estéticas, em poéticas”, ressalta. Nessa terceira edição, houve também parceria com a UFSB e a UNILAB.

Alexandra afirma ainda que, desde então, a Escola de Dança também aderiu ao fórum, assim como a Escola de Belas Artes, a Escola de Música e o Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos.

“A experiência do fórum é riquíssima, porque durante cinco dias um público composto majoritariamente por pessoas negras, mas não exclusivamente, está ali reunido, pensando, refletindo, elaborando estratégias de combate ao racismo e também se aquilombando, pensando no conceito proposto Abdias Nascimento, um grande homem do teatro, e também por Beatriz Nascimento uma grande intelectual nordestina, mulher negra e sergipana, que é o conceito de quilombismo. A estratégia de estarmos juntos para criar formas de resistência e ações de combate ao racismo, no caso dentro da Universidade”, aponta.

Para ela, o maior desafio ainda é pensar o fórum para além dos dias de realização. “Nós elaboramos uma carta de reivindicações e enviamos para as unidades envolvidas. E aí percebemos que essas reivindicações vêm de uma forma muito forte e pulsante nesses dias que estamos juntos, mas nos demais dias, ela se depara com a realidade do racismo dentro da universidade”, afirma.

Pele Negra, Máscaras Brancas: denúncia e convite à reflexão

Na abertura da terceira edição do FNAC, em março, ocorreu a estreia do espetáculo Pele Negra, Máscaras Brancas, baseado na obra homônima de Frantz Fanon. A montagem da Companhia de Teatro da UFBA traz, junto com a realização do fórum, questionamentos e reivindicações sobre o racismo e suas consequências nas questões objetivas e subjetivas dos negros e negras. É a segunda peça da Cia, que tem mais de 50 montagens na sua história, com elenco formado por 100% de artistas negros e com temática voltada para a questão negra. E, pela primeira vez, traz na direção uma mulher negra, Onisajé (Fernanda Júlia). 

Onisajé diz que fica 5% lisonjeada em ser a primeira mulher negra a dirigir a Cia de Teatro da UFBA, mas os outros 95% é demarcando espaço político, pois sua presença nesse espaço é uma denúncia. “Demonstra o quanto de racismo existe estruturalmente e institucionalmente, pois com tantos artistas pretas e pretos em Salvador, o repertório dessa companhia está em processo de modificação agora”, explica.

A diretora salienta que a mudança vem na base de muita luta e reivindicação de vários artistas negros que foram estudantes da Escola de Teatro, alunos pretos e pretas da graduação, a mobilização da organização Dandara Gusmão, tudo isso colaborou para que ela pudesse estar encenando esse espetáculo.

Onisajé acredita que o desafio do teatro negro na Bahia é o fomento. “É dinheiro porque talento, competência e criatividade nós temos. Eu não sou a única artista que tem uma carreira, que tem um trabalho, uma contribuição do fazer teatral negro. O maior grupo de Teatro Negro do Brasil em atuação está completando 30 anos no ano que vem: o Bando de Teatro Olodum, e é o único grupo de teatro da Bahia que conseguiu chegar às três mídias: teatro, cinema e televisão. E não consegue patrocínio, vive de tentar se organizar na medida do impossível para estar em cartaz. O maior desafio é vencer o racismo da elite baiana racista que coordena a iniciativa privada, e também da constituição, via governo do estado, de políticas públicas que dividam o recurso de forma equilibrada, para que grupos de teatro preto e indígena possam ter uma oportunidade de colocar em cenas suas poéticas, suas estéticas, criatividades, seu talento cênico”, conclui.

Edição: Elen Carvalho