Entrevista

Plano frustrado de Guaidó é criticado pela própria oposição venezuelana

Dirigente do partido opositor Soluções para a Venezuela, Claudio Fermín analisa a atual situação política do país

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

,
Líder opositor faz duras críticas ao governo e a oposição da Venezuela / Foto: Fania Rodrigues

Um dos líderes da oposição venezuelana, Claudio Fermín, dirigente do partido Soluções para a Venezuela, em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, faz críticas ao governo de Nicolás Maduro, mas também aponta as principais falhas e debilidades da oposição venezuelana.

Considerado um membro do setor moderado opositor, foi candidato a presidência da República por duas vezes, em 1998, quando o ex-presidente Hugo Chávez ganhou pela primeira vez, e no ano 2000, depois de aprovada a nova Constituição da República Bolivariana de Venezuela, quando se realizaram eleições gerais para todos os cargos do Estado. Nessa ocasião, Claudio Fermín ficou em terceiro lugar nas votações presidenciais.

Antes de fundar seu atual partido, Soluções para a Venezuela, foi filiado ao Ação Democrática (AD), um dos principais partidos da Quarta República (período entre 1958 e 1998). A AD e o Comitê de Organização Política Eleitoral Independente (Copei) governaram a Venezuela por 50 anos consecutivos, se revezando a cada mandato.

Hoje Fermín é crítico do que considera ser “uma elite política que dirige a oposição por 20 anos”. De fato, ele não faz parte da cúpula opositora que hoje tenta derrubar o presidente Maduro, e que radicalizou o discurso dizendo que “todas as cartas estão sobre a mesa”, incluindo assim uma possível intervenção militar estrangeira.

Suas principais críticas ao governo recai sobre a economia, onde afirma que o governo atual "delapidou a economia". Por outro lado, repudia o setor opositor liderado pelo deputado Juan Guaidó, que pede mais bloqueios econômicos contra a Venezuela. Confira a entrevista:

Brasil de Fato: Quais são os principais erros do governo e da oposição venezuelana nessa nova crise política da Venezuela que iniciou em janeiro desse ano?

Claudio Fermín: São tantos os fatores que na atual circunstância aparecem, que eu gostaria de destacar algumas questões relacionados ao governo e a oposição que trabalharam muito para polarizar. Tanto o governo como setores da oposição foram exitosos em converter as posições extremas nas protagonistas do debate.

O que o senhor chama “setores da oposição”?

Chamo setores porque me refiro a partidos políticos, mas também a meios de comunicação, alguns personagens e grupos financeiros. São muitos os agentes sociais que as palavras ‘partidos políticos’ excluiriam vários, por isso falo em setores políticos [de oposição].

Então o senhor avalia que o governo e a oposição forçam para ter um cenário polarizado?

Esses setores da oposição e também o governo, há mais de 20 anos, trabalharam a favor da polarização. Dessa maneira, essas duas posições exercem uma função excludente, que apresentam todas as demais como se fossem inúteis. No final das contas, muita gente, que ainda que não esteja totalmente de acordo com o governo ou a oposição, sentem que seu esforço pode ser desperdiçado, se veem obrigadas a escolher um dos dois polos extremos. A polarização tem essa sedução.

Qual a leitura crítica que se pode fazer dessa situação? 

O governo de Nicolás Maduro ganhou as eleições de maio de 2018. Ganhou fundamentalmente porque foi o beneficiário de uma campanha gigantesca de abstenção do voto promovida pela oposição. Milhões de venezuelanos, segundo pesquisas de opinião, que queriam o fim desse governo não foram votar. Foi uma campanha tenaz, constante, inteligente e astuta. Isso criou uma grande pressão social e muita gente opositora sentia que se votasse estava cometendo um ato desonesto. Algumas pessoas sentiam que se fossem votar iriam ter a desaprovação de seu entorno familiar, do seu grupo social e de seus vizinhos. A tal ponto que essa campanha fez do ato de não votar sinônimo de heroísmo, de conduta honrosa. Assim ganha Nicolás Maduro.

Quais os erros do governo nesses últimos anos? 

O governo dilapidou os mais altos ingressos de recursos que tivemos nos últimos anos, concentrou todos os poderes, pois governou todos esses anos com todos os poderes: o Poder Judicial, Legislativo, Militar. Dilatou o tempo, pois foram 20 anos contínuos. E delapidaram inclusive a popularidade imensa de Hugo Chávez, que, em vez de ser uma popularidade para unir, foi usada para segregar, para a luta de classes.

Tenho muitas críticas a fazer a um governo que destruiu a economia, que converteu a Venezuela em país de crescente pobreza e muitas limitações. Maduro ganhou as eleições no dia 20 de maio; e Guaidó autojuramentou no dia 23 de janeiro, porque no dia 5 de janeiro havia juramento como presidente da Assembleia Nacional, que é como o reconhecemos no meu partido. Depois das eleições passam oito longos meses e, em oito meses – depois de umas eleições que, sim, foram legítimas –, o governo passa por um processo de deslegitimação, que havia conseguido renovar seu mandato de forma legal.

O que faltou fazer, em sua opinião?

Se Maduro tivesse trabalhado a favor da distensão política teria sido positivo. Este país está afundado em conflito permanente, sem trégua e que fez do conflito sua principal consigna. Maduro poderia ter [por exemplo] liberado os “presos políticos”, pois esse fato gerou um clima de opinião que mantém esse governo contra a parede. Poderia ter feito isso não somente em nome dos direitos humanos violados, senão também buscando sua própria proteção e governabilidade.

O governo também poderia ter tomado a iniciativa de renovar a direção do Conselho Nacional Eleitoral, que, em minha opinião, é absolutamente irrelevante em relação aos aspectos dos resultados das eleições, mas que é um elemento dissuasivo, que afasta algumas pessoas das mesas eleitorais, que gera tanta desconfiança.

Outra crítica que faço é que o governo é muito dogmático na economia. Não devolveram os prédios agropecuários que foram desapropriados e fazendas a centenas de proprietários que foram desapropriados. Aqui, dos 24 estados, pelo menos 17 deles vivem de agropecuária.

Como vê a oposição venezuelana nesse cenário?

O que questiono na oposição é esse critério de imediatez. Eles não enxergam mais além de seus narizes. Existe na Venezuela um descontentamento muito grande, mas essa oposição polarizada é muito vaidosa. Trabalha para sua imagem, para manter-se na crista da onda, para ser uma referência midiática buscando o aplauso imediato. A oposição se desgastou por propor soluções imediatas que não prosperaram. Propuseram que iríamos sair desse governo com ações de rua. Vimos as ruas cheias, mas isso não derruba governo. Afirmaram que iam derrubar o governo decretando, na Assembleia Nacional, abandono de cargo por parte de Nicolás Maduro. Algo fantasioso.

Isso foi em que ano? 

Em 2017. Decretaram abandono de cargo do presidente. Em minha opinião Maduro é um homem que comete muito erros, mas não é verdade que tenha abandonado o cargo. Trabalham linguagem figurada e estabeleceram premissas como essa. Acharam que assim poderiam derrubá-lo. Além disso, promoveram as guarrimbas (protestos violentos) nas ruas e abstenção do voto. Fizeram o país acreditar que ao abster o presidente, os governadores, prefeitos não poderiam ser eleitos, sem perceber que, ao abster, o que fizeram foi garantir a continuação do governo. E, ultimamente, de janeiro para cá, fizeram o país acreditar que, como havia afinidades e algumas coincidências com setores políticos internacionais, poderiam derrubar o governo.

E quais são essas coincidências? 

A primeira delas é com os países sul-americanos, que estão incomodados com a migração de venezuelanos. Esse não é propósito de quem migra, mas não são dez, nem vinte, mas milhões.

O senhor não acha que tem um certo exagero nessa questão da migração? Porque a Argentina, durante a crise econômica, também já teve grandes fluxos migratórios e isso não gerou uma política de intervenção estrangeira.

Era diferente, porque mesmo a Venezuela foi um país receptor de imigrantes durante 25 anos. Era um momento de crescimento econômico em alguns países, isso permitia absorver essa migração. Mas, nesse momento de retração econômica, Brasil, Argentina, Chile e Equador diminuíram sua economia, então é muito difícil absorver. Somado a orientação ideológica desses governo, isso funciona como um estimulante para fazer oposição a Maduro. Esse é um elemento que a oposição venezuelana soube aproveitar.

O outro elemento é a debilidade do presidente Donald Trump, vinculado a Rússia em sua campanha eleitoral, um presidente investigado por irregularidade em sua campanha. Um presidente cuja principal proposta é a construção de muro que criou um problema para os governadores. Ou seja, é um presidente que, ainda que a economia vá bem, está [sendo] muito questionado. Ele se deparou com a situação no estado da Flórida, onde milhares de venezuelanos, que agora são cidadãos americanos, criam uma corrente de opinião que defende que se lute contra o governo venezuelano, além de outros migrantes latino-americanos.

O senhor acredita então que o presidente dos EUA está sendo pressionado ou chantageado por um único estado? 

Não. Acredito que o presidente Trump está utilizando um adversário político dos últimos anos, que é o senador Marco Rúbio, para criar uma expectativa nacional. Lembre-se que um dos pré-candidatos do partido Democrata, Bernie Sanders, é apontado permanentemente por Donald Trump como socialista, e Trump tem como palavras de ordem que não permitirá socialismo nos Estados Unidos da América. Não é que isso seja determinante para Trump, mas tem usado o tema Venezuela para fortalecer sua imagem com o eleitorado.

E os países vizinhos da Venezuela têm usado a oposição para tentar derrotar o modelo econômico venezuelano. Essa estratégia da oposição polarizada tem sido exitosa, mas criou uma ilusão de ótica que faz a população venezuelana acreditar que, pelo fato de ter apoio internacional, basta para Maduro sair.

Essa imagem sobre a Venezuela, de que o governo está a ponto de cair, é muito comum. Até jornalistas bem informados, que estão fora da Venezuela, afirmam isso, mas internamente a realidade é outra. 

Essa é a minha crítica a oposição, que defende a imediatez. Creio que tem ignorado o peso que teve a abstenção de votos, porque admitir que a abstenção foi uma estratégia equivocada seria o mesmo que admitir os erros desses setores da oposição a que me refiro, em que está incluído os partidos políticos, meios de comunicação, Conselho Episcopal e a igreja católica e grupos empresariais, que promoveram a abstenção. Defenderam uma equação ingênua de que se ninguém vota o governo não vale.

Quero recordar que desde 2005 a oposição tem insistido nesse erro. Em 2005 tivemos eleições da Assembleia Nacional, Hugo Chávez era o presidente, havia um ambiente na rua que apontava que o chavismo poderia perder essas eleições. Mas a oposição defendeu a abstenção e tivemos 5 anos de legislatura da Assembleia Nacional em que o chavimos decretou as leis que quis.

Então, para finalizar, qual é a sua análise crítica da situação? 

O governo desperdiçou esses oito meses de governo, desde que ganhou as eleições no dia 20 de maio. Porque, sim, ganhou as eleições e isso acorreu devido a abstenção. Essa oposição polarizada, que foi derrotada, porque a abstenção é que foi derrotada, mas que tiveram a “genialidade” de convergir os apoios internacionais. Forma muito exitosa nas alianças com Marco Rúbio, o grupo de Lima, mas abandonaram o trabalho político interno com a promoção da abstenção.

O que está acontecendo no interior da oposição? Os líderes históricos estão realmente com Guaidó? Porque no dia 23 de fevereiro, em Cúcuta, ele estava sozinho. Os líderes dos principais partidos têm se distanciado de sua imagem?

Eu tenho 20 anos de oposição ao chavismo, mas também anos de desacordo com essa elite que está dirigindo a oposição durante esses 20 anos. São os mesmos de sempre: Henri Ramos Allup (Ação Democrática), Júlio Borges (Primeiro Justiça), Leopoldo López (Vontade Popular), Maria Corina Machado (Vente Venezuela), Henrique Capriles (Primeiro Justiça). Estou em desacordo com muitas de suas ações, como a paralisação petroleira (de 2003) e os danos que causou a economia venezuelana. Acreditaram que, com essa paralisação, iriam derrubar o governo.

Sou contra as guarimbas e a violência, contra usar o povo como carne de canhão para criar descontentamento e desestabilização política. Sou contra, e me parece uma coisa antipatriótica, os bloqueios econômicos. Eles acreditam que, com isso, o governo vai perder popularidade, isso é verdade, mas o povo vai sofrer mais. Sou contra tudo isso e muitas outras coisas, como solicitar intervenção estrangeira, que é nocivo, pela violência e pelas mortes. Me parece uma coisa indigna. Todas [essas] diferenças fazem com eu tenha poucos vínculos com essa elite política da oposição.

Qual sua proposta?

Temos que fazer um grande esforço para diminuir a confrontação. Porque a confrontação é uma espécie de nó que está amarrando a economia venezuelana. Enquanto a gente tiver mais confrontação, não haverá investimentos no país. Por que um investidor viria a um país com tantos problemas políticos e com tantas confrontações? Ademais, que sentido faz disputar o poder para receber um país em ruínas? Por isso nós estamos propondo soluções para deter essa confrontação. Na verdade, necessitam sentar para negociar, sentar para chegar a um entendimento.

O governo, por uma parte, tem o poder militar. Mas o governo está perdendo governabilidade, ainda que tenha todo o poder. E que oposição é essa que quer uma mudança de governo, mas que o preço a pagar é a ruína do país? Então, tem que haver um entendimento, ainda que essa saída não seja a mais popular. Porque a tese mais popular são as mais radicais.

Edição: Aline Carrijo