Violência

Após 20 anos, massacre de Columbine ainda inspira atentados como o de Suzano (SP)

Ataques a tiros em escolas aumentaram após o caso nos EUA, despertando debates sobre posse de armas e masculinidade

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Estudantes do ensino médio protestam contra a violência nos EUA; em um dos cartazes se lê: "proteja as crianças, não às armas" / Wikicommons

No dia 20 de abril de 1999, por volta das 11h20, doze alunos e um professor da Columbine High School, no estado do Colorado, nos Estados Unidos (EUA), se tornaram vítimas fatais de uma chacina escolar. Conhecido como o Massacre de Columbine, o ataque foi cometido pelos jovens estudantes Eric Harris (18) e Dylan Klebold (17), que se suicidaram em seguida.

O atentado de Columbine durou cerca de uma hora e deixou outras 23 pessoas feridas. Segundo a investigação policial, Eric e Dylan buscavam alvos específicos, como atletas e representantes escolares, motivados por um desejo de vingança pelo bullying sofrido durante os 4 anos anteriores. Para perpetrar o assassinato em massa, os atiradores confeccionaram bombas caseiras e compraram duas armas 9 mm e duas espingardas calibre 12, que foram descarregadas um total de 188 vezes.

Columbine se tornou um caso emblemático e é considerado uma das inspirações para autores de outros ataques a tiros em escola, como o caso do Massacre em Suzano em março deste ano, que deixou 8 mortos 11 feridos. Só nos EUA, foram 66 mortes em 22 ataques a tiros em massa nos vinte anos que se seguiram após Columbine, enquanto nas seis décadas anteriores, o número de mortes totalizou 55 em 22 ataques, segundo uma pesquisa da revista americana Estudos da Criança e da Família.  

No Brasil, nos últimos anos, houve casos similares em Medianeira, no Paraná (2018); em Janaúba, em Minas Gerais  (2017) em Goiânia, capital de Goiás (2017); em João Pessoa, Paraíba (2011); em São Caetano do Sul (2011), também na região metropolitana de São Paulo; e em Realengo (2011), no Rio de Janeiro, quando 11 crianças morreram e 13 ficaram feridas.

Após o caso de Columbine, a população americana voltou a questionar a política armamentista do país e a exigir um maior controle na venda de armas. Aqui, o Massacre de Suzano reacendeu o debate sobre a flexibilização da posse de armas decretada pelo presidente Jair Bolsonaro logo nos primeiros dias de governo.

Brasil de Fato ouviu diferentes especialistas sobre o assunto, que trazem reflexões sobre o contexto que circunda os assassinatos em massa e também sugerem medidas que podem ser tomadas a fim de evitá-los.

Posse de armas

Para Ivan Marques, diretor-executivo do Instituto Sou da Paz, a decisão de Jair Bolsonaro em aumentar a possibilidade de obtenção de armas de fogo  segue em caminho contrário à prevenção de assassinatos em massa como o de Suzano. Ele afirma que há uma ligação direta entre o mercado legal e o ilegal de venda de armas. “Essa arma alimenta o crime e também situações como essa”, diz.

Na opinião de Marques, “qualquer medida que aumento o fluxo de armas, invariavelmente vai gerar esse tipo de consequência”. A ideia é corroborada pelo conselheiro do Fórum Nacional de Segurança Pública, Daniel Cerqueira, que chama essa política de um “kit desastre”.

“Muitas vezes, essas armas, dentro de casa, vão ser usadas por crianças e adolescentes em acidentes domésticos e nesses casos que cada vez mais repetem o que acontece nos EUA”, analisa.

Entrada da Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, após o atentado. Pessoas familiarizadas com os atiradores do massacre disseram à polícia que haviam ouvido menções ao caso de Columbine / Rovena Rosa/Agência Brasil

Masculinidade tóxica

A psicanalista Maria Rita Khel analisa que a incitação da violência propagada pela figura política de Jair Bolsonaro alimenta o clima de intolerância, principalmente para os meninos. “Nós estamos em um momento de violências e de incentivo à violência que me parece que a possibilidade de sofrermos traumas sociais aumenta”, diz.

Segundo Khel, “existe recentemente, desde a campanha do Bolsonaro, uma incitação à violência e existe também, principalmente para os meninos, não para os homens adultos, mas para os adolescentes, essa confusão entre masculinidade e a capacidade de ser violento”.

Para ela, a criação dos meninos para entenderem a masculinidade como “uma prerrogativa de força em relação a mulher, aos pobres, em relação a gays”, contribui para a propagação da violência.

Sucateamento da educação

Na análise da presidenta do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Maria Izabel Azevedo Noronha, a ausência de um plano de prevenção em violência escolar contribui para a insegurança dos alunos e funcionários.

“Não há plano desse tipo. O lamentável é que a entidade sindical possui pesquisas que apontam atentados de alunos contra professores, entre os próprios alunos e a violência no entorno da escola. Esses dados já foram apresentados ao governo do estado para ter um plano de prevenção da violência nas escolas”, comenta.

Para Noronha, manter a escola protegida exige mais profissionais responsáveis pela segurança, que conheçam a comunidade escolar. “Se um pai queria saber se o seu filho tinha saído, por exemplo, ele ia até esse profissional. Esse profissional foi cortado e a escola ficou mais vulnerável. Hoje de que forma esses atiradores entraram?”, questiona a professora.

Edição: Luiza Mançano