Cotidiano

Como os venezuelanos aproveitaram o feriado de Páscoa?

Apesar da crise econômica, trabalhadores lotaram as praias do país; confira o relato

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

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Hora do almoço na praia Os Corais, em La Guaira / Michele de Mello

Assim como o brasileiro, o venezuelano adora um feriadão. Uma das tradições de quem mora perto do litoral é aproveitar os dias livres para ir à praia. Na Semana Santa, não podia ser diferente. O presidente Nicolás Maduro decretou toda a semana livre para os funcionários públicos e ponto facultativo para o setor privado. Por isso, a movimentação dentro do país pode ter sido ainda maior que em 2017, quando, apesar da crise, 11 milhões 728 mil venezuelanos – cerca de 34% da população – passearam na data festiva. Este ano, os números ainda não foram divulgados.

De carro, ônibus ou de “camioneta” – transporte coletivo privado – os venezuelanos dão um jeito de chegar à praia. Para aqueles que vivem na capital, Caracas, viajando apenas 35 km é possível chegar à baía de La Guaira, estado Vargas. O trajeto geralmente demora não mais que 40 minutos, mas na sexta-feira santa podia levar até duas horas, por conta das longas filas.

 



Luithmar, de biquini rosa, em frente de sua mãe,Ruth,  com seu esposo, Julio, sua sogra, Luisa e seu sobrinho, Jackson. (Foto: Michele de Mello)

Catia La Mar é a primeira praia da costa varguense. Seu principal balneário é protegido por militares da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) e pela Guarda Nacional Bolivariana (GNB), que faz do lugar a escolha de muitas famílias. “Apesar de vivermos mais perto de Higuerote, preferimos vir aqui, porque é mais seguro para trazer a família e as crianças”, conta o técnico de segurança, Hugo Tellerías, que viajou quase 80 km desde Guatire, sua cidade natal, no estado Miranda.

Com Hugo, outras duas famílias vizinhas montaram um acampamento para passar o dia em Cátia. Ao todo, o grupo tinha dez pessoas. Um lençol e alguns galhos são suficientes pra proteger do sol duas bombonas de vinte litros com suco e água, potes com o café da manhã: arepa com queijo, prato típico venezuelano, e para o almoço, um refratário de metal com arroz com frango. Comento que no Brasil faltaria só uma farofa para completar. Eles dão risada e assumem que o venezuelano também tem o estilo “farofeiro” do brasileiro.

“A praia nos fascina, é um lugar para estar com a família e relaxar”, conta a engenheira, Dayana Jaramillo, vizinha de Hugo, que logo puxa um amigo para dançar, porque ao fundo, começa a tocar uma salsa baú.

Para satisfazer os desejos do povo caribenho, que assim como brasileiro, adora beber, se divertir e dançar, o governo montou palcos com equipamentos de som, com altíssima durante todo o dia nas principais praias do país. Também há espaço para vôlei de praia e mesas para jogar dominó.

Não muito longe do acampamento de Hugo e Dayana, Luithmar Enríquez e seu companheiro, Julio Urrega, enchem uma piscina inflável para o seu filho, de quatro anos, brincar na beira do mar. Ela, que leva a vida preparando marmitas para empresas, diz que no final de semana prefere não entrar na cozinha. “Sempre viemos com o que temos em casa. Uns sanduíches, um suco e pronto. Hoje trouxemos uns sanduíches, refrigerante e salgadinhos para as crianças e uns tragos para passar o tempo”, conta a comerciante, que trocou a ida à igreja para desfrutar do mar na sexta-feira santa.

Ela assegura, porém, que a agenda cristã foi mantida para o sábado. “Sempre vamos à praia, semana santa ou não, mas também somos acostumados a ir à igreja. Vamos à praia, mas também cumprimos com o ‘Maior’”, garante.

A Venezuela, assim como o Brasil, é de maioria cristã e católica. Na quarta-feira de cinzas, centenas de fiéis assistem à procissão de Nazareno de São Paulo. Entre eles, estão os integrantes da família de Amarilys Coromoto, que levou sua filha para renovar suas promessas na passeata pelo centro de Caracas, na quarta-feira (17), mas não deixou de curtir a praia com o esposo na sexta.

Na caixa térmica, peixe frito ao molho vinagrete e aipim, preparados desde a noite anterior pela dona de casa: “Como manda a tradição venezuelana, quinta e sexta-feira santa, a gente respeita, faz nosso milagre e compra um peixinho para não comprar carne, nem nada dessas coisas”.

Sem deixar de estampar um sorriso no rosto, Amarilys recorda os anos anteriores com nostalgia. “Éramos ricos e não sabíamos, infelizmente hoje passamos por uma situação mais crítica. Antes pagávamos nossas promessas, mas logo podíamos ir a Los Roques ou a uma praia mais distante, sem comprar e sem fazer nada previamente. A gente levava nosso dinheiro, podia comer e fazer qualquer coisa que quisesse. Era festa e festa! Mas aqui vamos, adiante, como venezuelanos guerreiros, não desistimos tão fácil”, afirma.

Com o mesmo olhar nostálgico, Emílio Alberto Bello Delgado, servidor público aposentado, relembra o período do governo de Hugo Chávez. “A tradição do venezuelano é essa: um peixinho na brasa, na praia. Antes podíamos comer um pargo ou outro peixe, agora estamos aqui comendo sardinha”. Mas se desfruta? Pergunto. “Sim, sim, nos divertimos, com uma cervejinha, uma comidinha. O problema é monetário. Agora venho a cada dois ou três dias, antes eu vinha diariamente, mas já não posso, porque o dinheiro não alcança”, comenta Emílio, que nasceu em Catia La Mar e esbanja um bronzeado dourado, como todo nativo do litoral.

Entre uma sardinha e outra, com molho Guasacaca – uma mistura de abacate, cebola, alho e coentro –, Emílio e Luísa Hernández, sua vizinha, contam como atualmente vivem das remessas que enviam seus filhos, desde Chile e Argentina. Contam que mensalmente recebem cerca de 60 e 70 dólares. Assim como Luísa e Emílio, milhares de venezuelanos foram beneficiados com o recebimento de remessas. Segundo a empresa de pesquisas privadas, Ecoanalítica, só em 2018 entraram cerca de 6 bilhões de dólares sob essa modalidade na Venezuela.

O cenário de crise econômica contrasta com as praias lotadas. Apenas 17 km de Cátia La Mar, milhares de pessoas disputam um espaço na areia da Praia Os Corais, onde Francis Salazar tem seu quiosque “Sabor e Praia”.

Enquanto destroça um frango, Francis comenta como completa um ano de restaurante e que lhe vai “muito bem”. A ex comediante, nascida no estado Vargas assegura que apesar de haver uns finais de semana com movimento mais fraco que outros, sempre há movimento em La Guaira. “Apesar da situação econômica, as pessoas vieram para a praia também fora da semana santa, porque esses momentos de descontração fazem falta”.

 



Da esquerda para a direita, Luisa Hernandez, Luisa Oliveros e Emilio Delgado aproveitando a praia e comendo uma sardinha. (Foto: Michele de Mello)

Depois de ter ganho o ponto comercial de seu ex-chefe, no Instituto de Infraestrutura do Estado Vargas (Infra Vargas), Francis montou a empresa com sua irmã. Acrescenta que agora, além da matéria prima para os pratos, seus gastos se resumem a 12 mil bolívares semanais para a associação de comerciantes que garante a manutenção do espaço. O valor representa dois terços do salário mínimo na Venezuela, que atualmente vale 18 mil bolívares, mas também é o mesmo preço de uma bandeja com 12 pedaços de banana da terra frita com salada de repolho, cenoura e queijo – os famosos “tostones praieiros” – no quiosque de Francis.

A comerciante não esconde o choro ao comentar que também tem vários familiares que emigraram. “Tenho família nos Estados Unidos, Colômbia, Argentina, Chile, a maioria dos meus primos se foram. É triste, mas eu acho que devemos seguir adiante, eu amo meu país, sou venezuelana e sou orgulhosa de ser venezuelana. Essa é uma terra bendita, de gente cálida. Sempre digo a minha família que há que ter esperança, que os melhores anos das nossas vidas são os que ainda não vivemos”, finaliza.

Edição: Daniel Giovanaz