MEIO AMBIENTE

Mais de 680 manifestantes presos em Londres na Rebelião da Extinção

Protesto tomou as ruas de cidades do mundo inteiro para alertar sobre a emergência da crise climática

Brasil de Fato | Londres

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Manifestantes ocupam as vias no entorno do parlamento de Londres para declarar urgência na crise climática. / Fotos: Luiza Dorneles

"Você tem consciência de que, caso não se retire, será presa?" - afirma uma policial a uma das manifestantes da "Extinct Rebellion", protesto que tomou as ruas de cidades do mundo inteiro para alertar a emergência da crise climática e ecológica internacional. As manifestações começaram oficialmente na segunda-feira (15) e, somente em Londres, já foram registradas mais de 680 prisões por obstrução de via segundo a polícia metropolitana. Em nota, a polícia afirma: “se você quiser protestar, vá para Marble Arch. Existem condições impostas aos outros locais e você será preso”.

No final da tarde de quinta-feira (18), manifestantes bloqueando as principais vias da praça do Parlamento (Big Ben) foram abordados por um pelotão de policiais solicitando a remoção dos cartazes e a liberação das ruas. Alguns integrantes do movimento deitaram no chão convidando os demais a integrar a ação. "Estou aqui para indicar as consequências das mudanças climáticas e da perda de biodiversidade no planeta. Isso significa que a sociedade está colapsando. (…) Nós podemos reverter isso se trabalharmos juntos. Se não, estamos falando sobre centenas de milhões de mortes.", afirma Possmett, ex-paraquedista deitado na avenida que foi preso alguns minutos após a entrevista.

As abordagens e prisões ocorrem de forma pacífica tanto por parte da polícia quanto dos manifestantes. Os policiais se aproximavam dos protestantes e concediam cinco minutos “caso quisessem mudar de ideia” e se retirar da via. A maioria dos protestantes não respondia e acabava carregada para dentro da viatura. Alguns dos presos foram vistos protestando novamente no dia seguinte, fato que demonstra a falha da prefeitura e da polícia na tentativa de acabar com a manifestação. “É terrível a maneira como os trabalhadores estão tendo suas vidas interrompidas pela postura desses chamados manifestantes ambientais", comenta Elizabeth Truss, secretária-chefe do Tesouro e membra do Partido Conservador britânico, ao jornal Evening Standart. Os serviços de transporte seguem afetados, com estações inteiras fechadas e linhas fora de circulação, bem como as rodovias congestionadas e os aeroportos com greves programadas pelos bagageiros.

“Aja agora com amor”, indica o cartaz de uma das manifestantes presas na quinta-feira (18). 

Os manifestantes ocupam as áreas de Marble Arch, Parliament Square, Oxford Circus e Waterloo Bridge desde segunda-feira. O protesto deve se estender até o dia 29 e suas principais reivindicações estão sintetizadas em um panfleto segundo o qual "o governo deve":

1) "Dizer a verdade declarando uma emergência climática e ecológica, trabalhando com outras instituições para comunicar a urgência de mudanças".

2) "Agir agora para impedir a perda de biodiversidade e reduzir a emissão de gases do efeito estufa a zero até 2025".

3) "Criar e ser liderado por uma assembleia nacional de cidadãos pela justiça climática e ecológica".

Que mudanças climáticas são essas?

Como consequência do efeito estufa, os últimos quatro anos foram considerados os mais quentes segundo o último relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM).  

O acordo de Paris, assinado em 2015 por 195 países membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, tem como principal compromisso reduzir emissões de gases de efeito estufa a partir de 2020 para manter a temperatura média global abaixo de 2°C. No entanto, o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), considerado até então o texto científico mais importante na área, apontou que é necessário que se limite o aquecimento global a 1,5ºC em relação ao período pré-industrial. De acordo com o documento, limitar o aquecimento global a 1,5°C irá exigir “transições rápidas e de longo alcance em terrenos, energias, indústrias, construções, transportes e cidades” e emissões globais de dióxido de carbono atribuídas à atividade humana, como a queima de combustíveis fósseis, a criação da pecuária e as emissões de veículos, terão que cair 45% até 2030 em relação ao níveis de 2010, alcançado zero até de 2050.

Os Estados Unidos, segundo país que mais emite gases do efeito estufa no mundo, perdendo apenas para a China, já se retirou do Acordo de Paris sob decisão de Donald Trump. Na contramão do desenvolvimento sustentável, Trump continua apostando nos combustíveis fósseis como forma de fortalecer o crescimento econômico.

Refletindo a tendência de aquecimento a longo prazo desde os tempos pré-industriais, observou-se que a temperatura média global da superfície (GMST) para a década de 2006 a 2015 foi 0,87°C (provavelmente entre 0,75 °C e 0,99 °C) mais alta do que a média do período entre 1850-1900. Fonte: IPCC e WMO.

De acordo com o secretário-geral da ONU, António Guterres, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera é a mais alta em 3 milhões de anos. “O nível do mar está subindo, os recifes de corais estão morrendo e começamos a ver o impacto das mudanças climáticas na saúde, através da poluição do ar, das ondas de calor e dos riscos para a segurança alimentar”, afirma em artigo publicado pela ONU no mês passado. Guterres convocou uma Conferência sobre Ação Climática em Nova Iorque, em setembro, onde pretende reunir “governos, setor privado, sociedade civil, autoridades locais e outras organizações internacionais para desenvolver soluções ambiciosas em seis áreas: energias renováveis; redução de emissões; infraestruturas sustentáveis; agricultura e gestão sustentável de florestas e oceanos; combate aos impactos climáticos; e investimento na economia verde”.

Terremotos e tsunamis foram responsáveis ​​pela maioria das 10.733 vidas perdidas em desastres no ano passado, enquanto eventos climáticos extremos representaram a maioria dos 61,7 milhões de pessoas afetadas por desastres naturais, segundo a análise de 281 eventos registrados pelo Centro de Pesquisa sobre Epidemiologia de Desastres (CRED) em seu EM-DAT (International Disaster Database). As estatísticas da CRED também destacam que mais de 9 milhões de pessoas foram afetadas pela seca em todo o mundo, incluindo as regiões de Quênia, Afeganistão e América Central, bem como os pontos de migração em El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua. As informações são do Escritório das Nações Unidas para Redução do Risco de Desastres e do WMO.

Edição: Marcelo Ferreira