Mineração

Brumadinho resiste: histórias de quem não se deixa abater pelo crime da Vale

Rompimento da barragem completa três meses na quinta-feira (25)

Brasil de Fato | Brumadinho (MG)

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Quase todos os moradores, uns mais, outros menos, tiveram perdas econômicas e a rotina alterada. Todos perderam parentes, amigos, conhecidos / Foto: Mídia Ninja

Três meses do rompimento da barragem da Vale em Córrego do Feijão, Brumadinho (MG). Na cidade, a 15 km do distrito onde tudo começou, um interminável luto é vivido coletivamente. Praticamente todos, uns mais, outros menos, tiveram perdas econômicas e a rotina alterada. Todos perderam parentes, amigos, conhecidos. Todos perderam o Rio Paraopeba, embora nem todos vivessem dele, e são obrigados a presenciar diariamente o cadáver do rio marrom sob a ponte. Apesar de tudo, moradores ressaltam que Brumadinho não é só mineração, tampouco a lama da barragem da Vale.

Bruna Penna tem uma clínica de estética no centro da cidade. Das pessoas que ela conhecia, 80 morreram vítimas da lama, 30 eram clientes suas, 12 ainda não foram encontradas. A clínica quase parou de funcionar. “Como temos filial em BH, senti menos financeiramente, mas quem só tem comércio aqui em Brumadinho perdeu bastante”, relata. Para continuar trabalhando, Bruna teve que se adaptar. “Eu tento me aproximar ao máximo das pessoas com terapias integrativas, acupuntura, serviços de desintoxicação, é mais na área da saúde mesmo, porque a cidade não está com clima pra cuidar da beleza. Então, sem essas alternativas, a clínica não estaria aberta”, afirma.

A Banda São Sebastião de Brumadinho, que oferece formação musical gratuita na cidade e já se apresentou fora do país, perdeu três ex-integrantes. “Quando aconteceu o rompimento da barragem, numa sexta-feira, o sábado seria um dia regular de ensaios. Não conseguimos fazer, porque foi um impacto grande para todo mundo”, conta Renata Vilaça, musicista e coordenadora da banda. O grupo tem tentado levar conforto à população por meio da música e já realizou concertos nas ruas, no alto da serra e no sétimo dia das vítimas da barragem. “Vimos que a música transforma mesmo, ajuda, fortalece”, comenta. 

Raquel Andrade é agente de pastoral da paróquia de São Sebastião, composta por 14 comunidades católicas. Todas as pastorais perderam integrantes, mortos pela lama da barragem. “Eu vou falar pra você que meus conhecidos, entre amigos de infância, amigos da igreja, amigos de escola, eu consegui contar 45 e depois não quis contar mais, parei, porque dói demais”, recorda, aos prantos. Segundo Raquel, a única forma encontrada pela paróquia para reagir à tragédia foi organizar a comunidade para enfrentar o problema. “A gente, rapidamente, conseguiu estruturar uma acolhida, a organização das entregas de donativos. Nos primeiros dias, foram comida, cesta básica, roupa. Agora, nosso trabalho é visitar as pessoas e ver como elas estão”.

Gilmar Cândido é proprietário de um viveiro que produzia e vendia, todo mês, cerca de 800 mil mudas de folhosas, jiló, pimentão, tomate e outras plantas para produtores rurais de Brumadinho, Sarzedo, Ibirité e Mário Campos. A lama da Vale matou o Rio Paraopeba, diminuiu a produção agrícola local e prejudicou diretamente o empreendimento de Gilmar. “A maioria dos meus clientes está sem plantar. Muitos estavam lá em cima, na lama. Havia 14 meeiros e todos estão sem plantar. Eu tinha uma renda que dava para viver. Agora, a Vale dá um salário mínimo por mês. Para mim, não resolve nada. Só meu plano de saúde e outras despesas já davam mais que isso. A maioria dos meus clientes está do lado do rio e não está plantando ou planta pouco, pois não tem água. A água que tem vem do caminhão pipa que a Vale está entregando, e não dá. Na hora em que entrar um sol bravo, ninguém vai dar conta de produzir porque tem que ter água o dia todo pra molhar”, reclama.

O produtor acredita que serão necessários de dois a três anos para retomar o empreendimento, mas prevê um caminho muito difícil. “Precisava acertar logo uma indenização pra eu resolver minha vida. Eu iria montar meu negócio aqui de novo, não tenho a intenção de mudar daqui não. Mas acho que o meu comércio de mudas não vai voltar a ser como antes. A maioria das pessoas que trabalhavam na horta e vão pegar indenização não vão querer ter mais horta. E outras pessoas, mesmo tendo horta, vão ter sua própria estufa. Então, eu vou ter que achar outros clientes”, conclui.

Edição: Joana Tavares